O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou, na terça-feira (12), o programa Brasil Contra o Crime Organizado, um pacote de repressão que prevê R$11 bilhões para ações contra facções, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, homicídios e controle do sistema prisional. Do total anunciado, R$1 bilhão sairá diretamente do Orçamento da União e R$10 bilhões serão oferecidos como crédito a estados e municípios por meio do BNDES.
O plano foi apresentado pelo governo como uma ofensiva nacional contra o crime organizado. Segundo o Ministério da Justiça, a iniciativa se apoia em integração entre União, estados e municípios, inteligência policial, rastreamento financeiro e reforço operacional. Entre as medidas previstas estão investimentos em perícia, bancos de DNA, análise balística, combate ao tráfico de armas, expansão de comitês de investigação financeira e fortalecimento da segurança em presídios.
O lançamento ocorre em pleno ano eleitoral, quando a segurança pública aparece como um dos temas centrais da campanha. A imprensa norte-americana também registrou que a iniciativa busca reforçar a imagem de Lula nessa área antes das eleições de outubro, em um cenário no qual a direita e a extrema direita exploram o tema com discurso de endurecimento penal e fortalecimento policial.
A aposta do governo, no entanto, revela uma contradição política. Em vez de concentrar a iniciativa eleitoral em medidas sociais capazes de atacar a base da criminalidade — desemprego, miséria, abandono das periferias, precarização da juventude e falta de moradia —, Lula procura responder à pressão da direita com um pacote voltado ao aparelho repressivo do Estado.
O programa prevê compra de equipamentos, ampliação de estruturas policiais, reforço de presídios, bloqueadores de celular, scanners, drones, georadares e mecanismos de inteligência penal. São medidas que fortalecem polícias, prisões e órgãos de controle. Mesmo quando apresentadas sob a fórmula de “inteligência” e “asfixia financeira”, elas se inserem em uma política de segurança centrada na repressão.
Essa orientação é especialmente delicada para um governo que depende do voto popular e da população pobre. Nas periferias, a experiência concreta com o Estado costuma passar pela polícia, por operações violentas, abordagens, prisões e controle territorial. Quando o governo federal decide transformar a segurança em vitrine eleitoral, o risco é aparecer para esses setores não como solução para seus problemas sociais, mas como mais um reforço ao aparato que historicamente age contra eles.
O cálculo político do governo parece ser o de disputar parte do eleitorado conservador, que cobra ações de força contra o crime. Mas esse terreno é amplamente dominado pela direita. Setores bolsonaristas e candidatos de linha-dura apresentam o tema de maneira mais direta, defendendo endurecimento penal, ampliação da repressão e maior autonomia policial. Nesse tipo de disputa, Lula tende a entrar em desvantagem: ao tentar parecer duro, desloca-se para a agenda dos adversários, sem necessariamente conquistar o eleitorado que já prefere a extrema direita nesse assunto.
O próprio discurso oficial indica essa adaptação. No lançamento do programa, Lula afirmou que o crime organizado não está apenas nas favelas e periferias, mas também em setores empresariais, políticos e institucionais. Ao mesmo tempo, o eixo prático do pacote permanece concentrado no fortalecimento do aparato de segurança, na atuação policial e no sistema prisional.
O governo também vinculou a nova política à cooperação internacional. Lula afirmou que pediu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a entrega de brasileiros que vivem em Miami e são acusados de crimes no Brasil. A declaração ocorreu no mesmo evento de lançamento do programa e foi apresentada como parte de uma política de combate ao crime transnacional.
A dimensão internacional reforça o caráter político da iniciativa. O governo procura demonstrar capacidade de coordenação com estados, Judiciário, Ministério Público e até com os Estados Unidos. A segurança pública passa, assim, a ocupar o lugar de uma “marca” de governo no ano eleitoral.
O problema é que a tentativa de disputar a pauta da direita pode produzir o efeito oposto. Para o eleitorado conservador, que exige uma política policial mais agressiva, a extrema direita continuará aparecendo como opção mais coerente. Para os trabalhadores e moradores das periferias, por outro lado, o reforço da repressão pode significar mais presença policial e menos investimento direto nos problemas sociais que atingem a maioria da população.
O lançamento do Brasil Contra o Crime Organizado mostra, portanto, que o governo Lula escolheu responder à pressão eleitoral pela segurança com uma política de fortalecimento do Estado repressivo. Ao fazer isso, aproxima-se do discurso da direita em uma área na qual seus adversários têm vantagem histórica, enquanto deixa em segundo plano uma política social mais ampla, que poderia enfrentar as causas materiais da violência.





