A presidente peruana Keiko Fujimori quer que a escola pública fiscalize a aparência dos alunos. Anunciou em Lima, na segunda-feira (12/10), uma proposta que proíbe maquiagem, cabelos tingidos e unhas pintadas, determina cabelo curto para os meninos e fixa o comprimento das saias.
“A ordem não deve reinar apenas nas ruas, mas também voltar às nossas escolas, às nossas salas de aula”, declarou Fujimori. Ela transporta para as escolas o discurso usado pelo governo para justificar medidas repressivas nas ruas: a juventude aparece como alvo da autoridade estatal, e a cor de seu cabelo vira assunto da presidência.
Fujimori colocou no mesmo pacote o uso de celulares durante as aulas, as notas de conduta e a expulsão em casos graves de violência e assédio. Os professores poderiam autorizar o uso dos aparelhos. Ao reunir punições por agressão e regras sobre a cor do cabelo, o governo procura dar às proibições sobre a aparência a aparência de uma medida de segurança.
As regras anunciadas alcançariam escolas públicas de ensino fundamental e médio. As particulares poderão manter seus próprios critérios. A diferença deixa à mostra o alvo preferencial da intervenção: a juventude que depende da escola pública. O Estado pretende fiscalizar a roupa e o cabelo desses alunos enquanto preserva às instituições privadas a liberdade de decidir por si mesmas.
As diretrizes ainda passarão por consulta pública e não entraram em vigor. Organizações feministas e entidades de direitos humanos já as criticaram, questionando o que a cor de uma unha ou de um cabelo teria a ver com a prevenção de agressões dentro da escola. A presidência afirma querer reforçar a autoridade de diretores e professores.
A iniciativa parte de um governo contestado desde sua formação. Em julho, familiares das vítimas da repressão peruana protestaram em Lima contra a posse de Fujimori e contra medidas de proteção a policiais e militares envolvidos em ações anteriores. A eleição presidencial também foi apertada: a candidata do Força Popular venceu Roberto Sánchez por uma diferença inferior a 50 mil votos, segundo a apuração noticiada pelo DCO. A campanha pela “ordem” nas escolas surge sob uma presidência sem amplo apoio popular.
Ao falar em “ordem” dentro e fora da sala de aula, Fujimori faz da escola pública uma vitrine de autoridade. O anúncio nada apresentou sobre contratação de professores ou recursos para as unidades de ensino. Definiu, em compensação, como os meninos devem cortar o cabelo e qual será o tamanho aceitável das saias.
Se a consulta pública confirmar a proposta, jovens peruanos poderão ser punidos por escolhas pessoais que não prejudicam a aprendizagem nem a segurança de ninguém. Quem estudou na rede privada continuará sujeito apenas às regras fixadas por sua escola; os alunos da rede pública terão a fiscalização de sua aparência determinada pelo governo.





