Uma festa de casamento em Kuhestak, no sul do Irã, terminou com cinco mortos e 68 feridos depois que uma residência foi atingida durante uma ofensiva dos Estados Unidos contra a região. Entre as vítimas estavam 19 crianças com menos de 10 anos.
Cerca de 350 pessoas participavam, na noite de terça-feira (1º), do casamento de Maryam Mallahi e Ziaeddin Khoshrish, na província de Hormozgan. Seguindo o costume local, os convidados estavam divididos entre duas residências: os homens permaneciam na casa de um parente, enquanto mulheres e crianças aguardavam os noivos na casa da família de Maryam.
Por volta das 21 horas, começaram a ser ouvidas explosões. Uma torre de telecomunicações situada a menos de 200 metros da festa e estruturas próximas ao cais foram atingidas. Pouco depois, um projétil atravessou o telhado da residência onde estavam as mulheres e crianças.
Em segundos, a comemoração deu lugar aos escombros.
Majid, de 41 anos, estava na outra reunião e correu para o local depois das explosões. Encontrou a mulher e o filho de cinco anos soterrados e conseguiu retirá-los. Segundo seu relato, havia fumaça, fogo, pessoas gritando e feridos por toda parte.
Ali Mallahi, pai da noiva e proprietário da residência, afirmou que o primeiro impacto tornou o imóvel inabitável. Outro atingiu o quintal e danificou um automóvel e partes da propriedade. Um projétil perfurou o teto e abriu uma cratera de aproximadamente 1,5 metro no piso.
Mina, uma das convidadas, contou que estava com outras mulheres tomando sorvete enquanto esperavam a chegada do casal. Depois da primeira explosão, um novo impacto atingiu diretamente o imóvel. Partes do teto e das paredes desabaram sobre os convidados, deixando várias pessoas presas.
Zahra, de 19 anos, descreveu depois o cenário encontrado dentro da residência: tapetes, utensílios, sapatos e a própria decoração do casamento estavam cobertos de sangue.
Antes mesmo da chegada dos socorristas, moradores das casas vizinhas e sobreviventes começaram a procurar pessoas sob os destroços.
Quinze ambulâncias foram mobilizadas. Os feridos foram encaminhados principalmente para hospitais de Sirik e Minab, e os casos mais graves seguiram diretamente para unidades de tratamento intensivo.
As autoridades iranianas anunciaram inicialmente duas mortes. O número aumentou posteriormente para cinco: Zarkhatoun Taheri, de 50 anos; Kolsoum Mallahi-Nezhadnia, de 43; Mohammad Mallahi, de 16; Amir Mohammad Karimi, de quatro anos; e Asieh Molaeinejad, de 22, que morreu posteriormente no hospital.
Amir Mohammad estava prestes a começar a pré-escola.
Uma das convidadas, que conhecia a criança e sua família, contou que os pais, que se preparavam para acompanhar o início da vida escolar do filho, tiveram de organizar seu funeral.
Não há até agora uma explicação conclusiva sobre qual arma atingiu a residência. Algumas testemunhas falaram em míssil, enquanto outras mencionaram aviões não tripulados. O Crescente Vermelho iraniano informou que um projétil atingiu uma casa onde ocorria um casamento.
Todos os moradores ouvidos pelo Middle East Eye afirmaram que o imóvel tinha uso exclusivamente residencial e que não havia instalações militares, de segurança ou de inteligência nas proximidades.
Washington tampouco informou qual seria o alvo específico em Kuhestak.
O Comando Central dos Estados Unidos declarou que a ofensiva daquela noite tinha como objetivos radares, sistemas de comunicação e instalações ligadas à capacidade marítima iraniana. Repetiu ainda a alegação de que as forças norte-americanas não atacam civis.
O resultado concreto, contudo, foi uma casa cheia de mulheres e crianças destruída durante um casamento.
O vice-presidente norte-americano, JD Vance, declarou posteriormente que o governo investigaria o episódio.
A ofensiva não se restringiu a Kuhestak. Houve ataques e explosões em Bandar Abbas, Qeshm, Jask, Sirik, Konarak e Chabahar. Na própria Kuhestak, foram danificadas instalações de telecomunicações, estruturas do cais e redes de energia. Os serviços de telefone e Internet chegaram a ser interrompidos na cidade e na localidade vizinha de Mishi.
O episódio trouxe novamente à memória da população de Hormozgan o bombardeio da escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, ocorrido em 28 de fevereiro, no primeiro dia da ofensiva norte-americana e israelense contra o Irã.
Naquela ocasião, 156 pessoas morreram, a maioria crianças.
Os dois casos mostram o que significa, para a população iraniana, a alegação de Washington de que sua guerra é dirigida apenas contra objetivos militares. Casas, escolas e outras estruturas civis são atingidas enquanto os Estados Unidos atacam um país situado a milhares de quilômetros de seu próprio território.
Maryam e Ziaeddin escaparam porque ainda não haviam chegado à residência quando ela foi atingida. Os mortos e feridos, porém, eram seus parentes, amigos e conhecidos.
O casamento para o qual centenas de pessoas haviam se reunido terminou antes mesmo da chegada dos noivos. Em vez de iniciar a vida de casados ao lado da família, Maryam e Ziaeddin passaram os dias seguintes entre hospitais, funerais e os destroços da casa onde seria realizada a comemoração.




