Estados Unidos

EUA: demissões em série expressam crise causada pela resistência

Saída de Pam Bondi, expurgos no Pentágono e troca no alto comando mostram instabilidade no regime imperialista em meio a fracasso da agressão contra o Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quinta-feira (2) a demissão de Pam Bondi do cargo de procuradora-geral, em mais uma mudança de alto nível no governo norte-americano. A decisão veio no mesmo momento em que o secretário da Guerra, Pete Hegseth, aprofundou a limpeza no alto comando militar, com a saída do chefe do Estado-Maior do Exército, general Randy George, e de outros dois oficiais superiores. Em conjunto, as demissões mostram o agravamento da crise no regime norte-americano em meio ao fracasso da guerra contra o Irã e ao avanço da resistência iraniana.

Trump confirmou a saída de Bondi em uma publicação na rede Truth Social. Sem explicar diretamente os motivos da demissão, limitou-se a elogiá-la como “grande patriota norte-americana” e “amiga leal”, afirmando que ela passaria a ocupar uma função no setor privado. O substituto interino será Todd Blanche, até então procurador-geral adjunto.

A troca ocorreu após uma série de reportagens da imprensa norte-americana indicar o descontentamento de Trump com a condução, por Bondi, de investigações ligadas ao  milionário e agente do Mossad Jeffrey Epstein. O presidente evitou mencionar esse ponto na nota em que anunciou a mudança e preferiu destacar que Bondi esteve à frente do Departamento de Justiça num período de queda da criminalidade violenta no país, acompanhando uma tendência mais ampla do pós-pandemia.

Em nota, Bondi informou que fará a transição do cargo para Blanche ao longo do próximo mês. Também declarou que seguirá atuando em uma função privada na qual continuará “lutando pelo presidente Trump e por este governo”.

A demissão de Bondi veio pouco depois da saída abrupta de Kristi Noem do comando do Departamento de Segurança Interna. Noem dirigia o órgão em meio à campanha de deportações em massa conduzida pelo governo, operação que levou ao assassinato de dois cidadãos norte-americanos. A imprensa dos EUA também informou que Trump cogitava indicar Lee Zeldin, atual administrador da Agência de Proteção Ambiental, para assumir em definitivo o Departamento de Justiça, hipótese ainda não confirmada oficialmente.

Aliada de longa data do presidente, Bondi esteve no centro de denúncias sobre a falta de independência do Departamento de Justiça, sobretudo depois que procuradores sob seu comando anunciaram investigações e acusações contra adversários políticos de Trump.

Em um dos episódios mais reveladores, em setembro do ano passado, o próprio Trump publicou uma mensagem dirigida a Bondi, cobrando providências contra três de seus críticos: o senador Adam Schiff, a procuradora-geral de Nova Iorque Letitia James e o ex-diretor do FBI James Comey. “Não podemos mais adiar, isso está matando nossa reputação e credibilidade. A JUSTIÇA PRECISA SER FEITA, AGORA!!!”, escreveu. Nas semanas seguintes, James e Comey chegaram a ser alvo de acusações, mas júris distintos decidiram depois não levá-las adiante.

Ao mesmo tempo em que Trump reformulava o topo do Departamento de Justiça, o Pentágono passava por nova rodada de expurgos. Na quinta-feira, Hegseth removeu Randy George do cargo de chefe do Estado-Maior do Exército. O Pentágono não apresentou motivo para a saída. Sean Parnell, principal porta-voz da pasta, limitou-se a anunciar que George estava se aposentando “com efeito imediato”.

Um funcionário da área de defesa confirmou que Hegseth pediu que George deixasse o cargo antes do fim do mandato. A função será ocupada interinamente pelo general Christopher LaNeve, ex-comandante da 82ª Divisão Aerotransportada e antigo assessor militar de Hegseth, cuja promoção já vinha sendo interpretada dentro do Pentágono como preparação para suceder George.

Ainda na mesma onda de demissões, o Pentágono anunciou a saída de David Hodne, responsável por iniciativas de treinamento e transformação, e de William Green Jr., chefe do Corpo de Capelães do Exército. As exonerações foram divulgadas sem qualquer explicação.

Com a remoção de George, Hegseth já afastou a maior parte dos principais chefes das forças armadas, numa rotatividade incomum até para os padrões da burocracia militar norte-americana. Já haviam sido derrubados o general CQ Brown, da Força Aérea, que presidia o Estado-Maior Conjunto; Lisa Franchetti, da Marinha; David Allvin, chefe do Estado-Maior da Força Aérea; e James Slife, vice-chefe da mesma arma. Hegseth também substituiu os principais advogados militares das forças.

Outros nomes afastados sob o governo Trump incluem Jeffrey Kruse, antigo chefe da Agência de Inteligência de Defesa; Linda Fagan, comandante da Guarda Costeira; e Timothy Haugh, comandante do Comando Cibernético dos EUA e diretor da Agência de Segurança Nacional. Ainda no início do ano, Hegseth mandou afastar David Butler, um dos principais assessores do secretário do Exército, Dan Driscoll.

A limpeza no aparelho militar coincide com a incapacidade de Washington de alcançar seus objetivos na guerra de agressão contra o Irã. Analistas militares afirmam que o expurgo no Pentágono é consequência direta do fracasso norte-americano em impor sua vontade à República Islâmica.

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