O preço médio da gasolina nos Estados Unidos atingiu nesta terça-feira (28) o maior nível em quatro anos, chegando a US$4,18 por galão, segundo dados da Associação Automobilística Americana (AAA). A alta ocorre em meio à guerra lançada pelos EUA e por “Israel” contra o Irã, à instabilidade no fornecimento mundial de petróleo e a problemas em refinarias norte-americanas.
Desde o fim de fevereiro, quando começou a agressão norte-americana e sionista contra a República Islâmica, o preço da gasolina nos EUA subiu US$1,19 por galão. O aumento acumulado passa de 40% em poucas semanas. Apenas no mês de abril, a alta foi de US$0,11, segundo os dados divulgados.
O novo patamar não era registrado desde abril de 2022, logo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Na Califórnia, o estado com preços mais altos, o valor médio se aproxima de US$6,00 por galão.
A alta da gasolina acompanha a elevação do preço do petróleo. Os contratos futuros do Brent subiram cerca de 16% na semana anterior, enquanto o West Texas Intermediate avançou quase 13%. Na terça-feira, o Brent voltou a ultrapassar US$105 por barril, depois de uma alta de 4%.
O petróleo Brent permanece cerca de 40% acima do nível registrado antes da guerra ilegal dos EUA e de “Israel” contra o Irã. A crise se agravou com o impasse nas negociações entre a República Islâmica e o governo norte-americano, que insiste em manter o bloqueio contra portos e embarcações iranianas durante a trégua.
Embora a trégua tenha sido prorrogada, o governo Donald Trump continuou aplicando o bloqueio ilegal contra os portos iranianos e apreendendo navios ligados ao país. O Irã respondeu com medidas semelhantes. A República Islâmica mantém as exigências de seu plano de 10 pontos, que havia sido aceito pelos EUA como “base viável” antes de Washington recuar.
Entre os pontos defendidos pelo Irã estão reparações, soberania iraniana sobre o estreito de Ormuz e cessar-fogo completo no Líbano. A posição iraniana tem impedido que os EUA imponham uma saída favorável ao imperialismo, o que mantém a pressão sobre os preços internacionais de energia.
O Estreito de Ormuz segue no centro da crise. A passagem marítima é uma das mais importantes do mundo para o transporte de petróleo. As expectativas de estabilização na região, levantadas no início do mês, diminuíram à medida que o bloqueio norte-americano continuou e as negociações permaneceram sem acordo.
A pressão sobre os preços nos EUA também foi agravada por problemas internos em refinarias. Segundo Patrick De Haan, analista da GasBuddy, manutenções programadas e falhas operacionais em refinarias da região dos Grandes Lagos devem manter a gasolina em patamar elevado.
No fim de semana, a refinaria de Whiting, no estado de Indiana, operada pela BP, sofreu uma queda inesperada de energia. A unidade tem capacidade de processar 440 mil barris de petróleo por dia, e uma de suas áreas precisou ser paralisada temporariamente.
A Phillips 66 também realiza manutenção programada na refinaria de Wood River, em Illinois, com capacidade de 356 mil barris por dia. O serviço deve durar cerca de 45 dias, reduzindo a produção e afetando a oferta.
Outra refinaria de Illinois, a unidade de Robinson, da Marathon Petroleum, com capacidade de 253 mil barris por dia, também passa por manutenção. A previsão é que os serviços sigam até meados de maio. O efeito combinado dessas paralisações tende a manter a oferta apertada e os preços altos para o consumidor.
A crise dos combustíveis se soma ao problema político da guerra contra o Irã. Parlamentares democratas dos EUA avaliam recorrer à Justiça contra Trump caso o presidente mantenha a agressão para além do prazo legal de 60 dias sem autorização do Congresso.
A Resolução de Poderes de Guerra determina que o presidente deve encerrar operações militares depois de 60 dias, a menos que o Congresso declare guerra ou aprove uma lei autorizando o uso da força. Com a aproximação de 1º de maio, deputados e senadores democratas passaram a discutir a possibilidade de uma ação judicial.
O senador Richard Blumenthal, de Connecticut, integrante dos comitês Judiciário e de Serviços Armados, afirmou que uma ação legal precisa ser considerada. “Ação legal tem que ser explorada”, disse ele, defendendo que a medida seria uma forma de afirmar a autoridade do Congresso sobre a guerra.
O deputado Ted Lieu, da Califórnia, também declarou apoio a uma ação judicial. “Sou absolutamente favorável a uma ação”, disse. Segundo ele, se o Congresso não conseguir sustentar sua autoridade, a Resolução de Poderes de Guerra deixará de ter efeito prático.
A guerra contra o Irã também atingiu a Europa. O continente enfrenta risco de falta de combustível de aviação por causa da interrupção das importações da Ásia Ocidental. Os embarques da região, que historicamente representam quase 60% do combustível de aviação importado pela Europa, foram paralisados.
Os países europeus da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) consomem aproximadamente 1,6 milhão de barris por dia de combustível de aviação. As refinarias europeias produzem cerca de 1,1 milhão de barris por dia. A diferença, de 500 mil barris diários, precisa ser coberta por importações.
Com a interrupção dos embarques da Ásia Ocidental, a Europa poderá enfrentar escassez física a partir de junho, caso substitua apenas metade do volume que normalmente recebia da região. A Agência Internacional de Energia fez o alerta, enquanto a demanda aumenta com o período de verão no hemisfério norte.
A ministra da Energia da Suécia afirmou que o fornecimento permanece estável no momento, mas advertiu para as incertezas dos próximos meses. A crise mostra como a ofensiva dos EUA e de “Israel” contra o Irã produz efeitos diretos sobre a economia europeia, dependente do fornecimento externo de energia.
Outro ponto de pressão vem da Aramco. A empresa estatal saudita suspendeu seus embarques de gás liquefeito de petróleo (GLP) até maio, depois de danos na instalação de exportação de Juaymah, no leste da Arábia Saudita. A informação foi divulgada pela Bloomberg nesta quarta-feira (29).
A Aramco informou compradores de que as exportações de Juaymah permanecerão suspensas. A empresa já havia alertado, em 26 de fevereiro, que embarques “programados para as próximas semanas serão cancelados”.
A paralisação teve início após um dano estrutural na instalação, antes da guerra dos EUA e de “Israel” contra o Irã. Depois, o Ministério da Energia saudita confirmou que Juaymah também foi atingida por incêndios durante ataques relacionados à guerra, sem divulgar a extensão dos danos.
Os reparos ainda não foram concluídos, e a Aramco não conseguiu retomar os serviços necessários. Fontes citadas pela Bloomberg afirmaram que isso significa que as entregas não voltarão imediatamente mesmo se o estreito de Ormuz for reaberto.
A interrupção elevou os preços e obrigou importadores, especialmente na Ásia, a buscar fornecedores alternativos. A Índia foi um dos países mais afetados, enfrentando falta de GLP, amplamente utilizado para cozinhar.
Analistas da Kpler estimam que Juaymah responde por cerca de 3,5% das exportações marítimas mundiais de GLP. O ministro das Finanças da Arábia Saudita, Mohammed al-Jadaan, advertiu que os setores financeiros podem estar subestimando o impacto econômico da guerra e o tempo necessário para que os fluxos de petróleo e gás voltem ao normal.
Os países do Conselho de Cooperação do Golfo realizaram recentemente sua primeira reunião presencial desde o início da guerra contra o Irã. O encontro ocorreu em Jidá, na terça-feira, para discutir uma resposta conjunta aos ataques de retaliação que danificaram estruturas de energia nos seis países do bloco.
A reunião ocorreu em meio a tensões internas. Anwar Gargash, alto funcionário dos Emirados Árabes Unidos, afirmou que a resposta do bloco aos ataques iranianos foi “a mais fraca da história”, tanto política quanto militarmente.
Os Emirados Árabes Unidos anunciaram que deixarão a OPEP e a aliança OPEP+ a partir de 1º de maio. O governo afirmou que a decisão atende ao “interesse nacional” e busca maior flexibilidade na política de produção. A medida tende a enfraquecer a capacidade do bloco de influenciar os preços do petróleo, pois os Emirados estão entre os poucos integrantes com capacidade excedente relevante.
A decisão também amplia a tensão com a Arábia Saudita. Com uma política independente de produção, os Emirados poderão aumentar sua extração ao longo do tempo, desafiando o papel saudita na administração da oferta.
A Reuters informou recentemente que as economias do Golfo caminham para sua pior retração desde a pandemia. O fechamento parcial do Estreito de Ormuz, somado aos danos em estruturas de petróleo e gás, provocou choques de oferta e levou economistas a revisar as previsões de crescimento para a região.
Catar, Cuaite e Barém estão entre os países que podem registrar retração este ano, apesar da alta do petróleo. Economistas alertam que o impacto da guerra pode durar anos, mesmo que a situação se estabilize.
Enquanto os EUA e seus aliados enfrentam alta de combustíveis, problemas de abastecimento e impasse político, o Irã afirma manter sua economia em funcionamento. O porta-voz do Comitê de Planejamento e Orçamento do Parlamento iraniano, Abás Qodrati, declarou na quarta-feira que o petróleo iraniano está sendo vendido pelo dobro do preço pactuado.
Qodrati afirmou que as vendas de petróleo não foram interrompidas apesar das sanções dos EUA. Segundo o parlamentar, as sanções causaram perdas significativas para a economia norte-americana e não impediram a República Islâmica de manter suas receitas.
O parlamentar também destacou os sucessos militares iranianos, citando a capacidade do país de enfrentar aviões avançados dos EUA, como F-35 e F-18. Para ele, os resultados mostram a queda da eficácia das táticas de pressão norte-americanas.
Qodrati afirmou ainda que os EUA tentam impor sanções às moedas digitais para prejudicar trocas comerciais, mas que o Irã vem se adaptando às restrições. Segundo ele, independentemente das circunstâncias da guerra, a República Islâmica obtém vitórias.
O deputado iraniano rejeitou também as acusações de que o governo priorizaria gastos militares em detrimento das necessidades da população. Segundo Qodrati, essa acusação faz parte de uma campanha psicológica. Ele destacou que os gastos militares dos EUA são muito superiores aos do Irã.
No próprio Irã, a gasolina segue subsidiada. O consumidor pode adquirir mensalmente 60 litros a 1.500 tomans por litro, 100 litros a 3.000 tomans por litro e 200 litros a 5.000 tomans por litro. A compra de 360 litros em um mês custa 1.390.000 tomans, o equivalente a cerca de US$9,27.
Os EUA lançaram uma guerra contra o Irã para tentar impor sua vontade sobre a região, mas a ofensiva atingiu diretamente os próprios consumidores norte-americanos, ampliou a crise energética na Europa e desorganizou parte do fornecimento mundial de combustíveis.



