Alagoas

Espionado pela CIA, jovem alagoano é preso por ‘crimes cibernéticos’

Investigação contra jovem de Arapiraca integra série de operações brasileiras abastecidas por órgãos norte-americanos

A Polícia Civil de Alagoas (PCAL) cumpriu, no sábado (9), mandado de busca e apreensão contra um jovem de 18 anos em Arapiraca, no Agreste alagoano, investigado por supostos crimes cibernéticos praticados quando tinha 17 anos. A operação, divulgada à imprensa na segunda-feira (11), levou a Vara da Infância e Juventude de Arapiraca a determinar a internação provisória do jovem pelo prazo inicial de 45 dias, após parecer favorável do Ministério Público.

Segundo a própria PCAL, as informações chegaram às autoridades brasileiras por meio de “comunicação interinstitucional” com agências de segurança dos Estados Unidos, que monitoravam mensagens publicadas pelo jovem na Internet. A agência responsável não foi identificada oficialmente.

Polícia fala em ‘possíveis práticas terroristas’

A nota oficial afirmou que o jovem, após cumprir medida socioeducativa e ser colocado em liberdade, voltou a usar redes sociais, fóruns e plataformas digitais para divulgar mensagens discriminatórias, conteúdos de intolerância religiosa, homofobia e apologia do nazismo. A polícia também afirmou que foram identificados “atos preparatórios relacionados a possíveis práticas terroristas, o que motivou o acompanhamento internacional do caso”. A PCAL, no entanto, não afirmou que houve terrorismo, nem apresentou publicamente armas, explosivos, plano de ataque ou estrutura organizada.

A operação foi coordenada pelo delegado Felipe Caldas, da Delegacia Especial da Criança e do Adolescente, em conjunto com a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher. Segundo o delegado, “o jovem possuía conhecimento avançado em tecnologia e facilidade para se comunicar em outros idiomas, mas utilizava essas habilidades para disseminar conteúdos criminosos e de ódio nas redes sociais”.

Nenhuma das reportagens detalhou o que foi apreendido no mandado, nem foram divulgados os artigos legais usados. Como os atos teriam ocorrido quando o investigado tinha 17 anos, o caso é tratado como ato infracional. A internação provisória por 45 dias tem base no art. 108 do ECA.

Caso anterior

O jovem já havia sido apreendido em agosto de 2025, sob suspeita de participação em ameaças contra pessoas relacionadas a Felipe Bressanim Pereira, o Felca, contratado pelo imperialismo para impulsionar a campanha pela censura na Internet após publicação, em 6 de agosto daquele ano, de vídeo denunciando a chamada “adultização” de crianças nas redes sociais.

A decisão de agosto de 2025, assinada pelo juiz Anderson Passos, da 1ª Vara Cível de Arapiraca, é o documento jurídico mais detalhado sobre o caso. Segundo o magistrado, “os fatos sob apuração são de extrema gravidade, havendo, inclusive, indícios de múltiplas vítimas”. Segundo a Tribuna do Sertão e o Diário do Grande ABC, a investigação atribuía ao adolescente: ameaça contra a psicóloga que deu entrevista a Felca, exploração sexual de menores, promoção de “estupro virtual”, indução à automutilação, exposição de dados pessoais para intimidação, apologia do nazismo e administração de grupo virtual conhecido por organizar ataques contra mendigos. As autoridades chegaram ao jovem após extração de dados de IMEIs e IPs. Não há menção, nessa primeira fase, a participação de agências estrangeiras. A acusação sobre ataques contra sem teto aproxima o caso da Operação Adolescência Segura, deflagrada em abril de 2025 pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, também com apoio de agências norte-americanas.

Lei Antiterrorismo permite punir ‘preparação’

A referência a “atos preparatórios” é feita para enquadrar o caso na Lei nº 13.260/2016, a Lei Antiterrorismo. O art. 5º estabelece:

“Realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito: Pena — a correspondente ao delito consumado, diminuída de um quarto até a metade.”

O art. 2º define terrorismo como prática de atos por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito, e lista entre os atos o uso de explosivos, gases tóxicos, venenos ou outros meios capazes de destruição em massa. A PCAL não divulgou apreensão de nenhum desses elementos. O STJ, no HC 537.118/RJ, decidiu em 2019 que a tipificação dos atos preparatórios exige motivação por xenofobia ou discriminação, “sob pena de não se perfazer a relação de tipicidade”.

A apologia do nazismo já é tratada pela Lei nº 7.716/89, com pena de dois a cinco anos. O ECA contém tipos para o ambiente digital (arts. 240, 241-A e 241-B).

Lucas Passos foi preso após memorando do FBI

O caso que melhor expressa a ingerência estrangeira no País é a Operação Trapiche, deflagrada pela Polícia Federal em 8 de novembro de 2023. Lucas Passos Lima foi detido no Aeroporto de Guarulhos ao retornar de viagem ao Líbano. A investigação começou com memorando da Embaixada dos EUA, por meio do Escritório do Adido Legal do FBI. As “provas” contra Passos consistiam em pesquisas na Internet sobre endereços de sinagogas, treinamento de tiro e aquisição de rádios comunicadores. Não houve apreensão de explosivos ou armas pesadas. O DCO denunciou a operação no artigo Operação do Mossad no Brasil é ameaça à soberania nacional, de 9 de novembro de 2023, registrando a nota do gabinete de Benjamin Netaniahu que confirmava a participação do Mossad. Passos foi condenado a mais de 16 anos em setembro de 2024. Em junho de 2025, o TRF-6 anulou parcialmente a sentença, mas manteve condenação por integrar organização terrorista. O acórdão afirmou que se tratava de “crime formal ou de consumação antecipada”, cuja punição “prescinde da ocorrência de qualquer resultado naturalístico, dispensando a prática de quaisquer atos materiais característicos de terrorismo”.

Em 11 de abril de 2025, a PF deflagrou a Operação Leviatã em Pocinhos, na Paraíba, contra estudante de Biologia de 19 anos, com base em relatório do FBI sobre comunicações do investigado em fóruns e redes sociais. Em 29 de janeiro de 2026, a PF prendeu em Bauru/SP homem investigado por “atos preparatórios de terrorismo”, também com apoio do FBI.

Adolescência Segura e HSI em Alagoas

Em 15 de abril de 2025, a Polícia Civil do Rio de Janeiro liderou a Operação Adolescência Segura, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Senasp. A investigação começou após a divulgação ao vivo do ataque com coquetel molotov contra um mendigo, que teve 70% do corpo queimado. Segundo a Agência Brasil, “a investigação contou com o apoio de duas agências norte-americanas, que fizeram relatórios sobre a atuação da organização criminosa”. O caso é especialmente relevante para o de Arapiraca: o adolescente alagoano já era apontado em 2025 como administrador de grupo virtual que organizava esse tipo de ataque investigado pela Adolescência Segura.

Em 10 de outubro de 2025, a PCAL prendeu em Girau do Ponciano um jovem de 21 anos suspeito de armazenar material de abuso sexual infantil. A operação contou com a colaboração da Homeland Security Investigations (HSI), agência norte-americana especializada em investigações cibernéticas, “responsável por repassar informações técnicas que auxiliaram na identificação do suspeito”. No caso de Arapiraca, a agência não foi identificada; em Girau do Ponciano, a HSI apareceu nominalmente.

Investigação estrangeira entra na polícia local

O FBI mantém um Escritório do Adido Legal na Embaixada dos EUA em Brasília. Documento da própria embaixada obtido pela Agência Pública afirma que a função do Adido Legal é prestar “assistência investigativa” a agentes brasileiros, “incluindo o Ministério da Justiça, polícias Federal, Civil e Militar e a Procuradoria Geral da República”. O documento reconhece que “essas investigações são frequentemente altamente controversas, podem ter implicações sociais e políticas significativas”.

Os investigados são, em grande parte, jovens entre 17 e 22 anos. As acusações se repetem: crimes digitais, publicações de ódio, apologia do nazismo, suposta radicalização, “atos preparatórios”. Em várias operações, o início da investigação aparece ligado a relatórios do FBI, informações técnicas da HSI ou monitoramento de agências norte-americanas não identificadas.

A operação em Arapiraca mostra que a ingerência norte-americana já não se limita à Polícia Federal nem a grandes operações. Ela chega às polícias civis estaduais, a varas da infância e a investigações contra jovens. A falta de identificação da agência é ainda mais grave: o público sabe que houve monitoramento, mas não sabe qual órgão monitorou, em quais plataformas e sob qual controle das autoridades brasileiras.

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