A organização do Miles Franklin Literary Award anunciou a inclusão de Randa Abdel-Fattah na lista final do prêmio, na Austrália, na quarta-feira (24). A escritora concorre com o romance Discipline, obra ambientada na guerra em Gaza e nas tensões políticas abertas na sociedade australiana após 2023. Essa indicação recoloca a autora no centro de uma disputa que envolve Palestina, liberdade de expressão e pressão contra artistas.
O Miles Franklin Literary Award é descrito pela imprensa local como o prêmio literário mais importante da Austrália. Criado em 1957 a partir do testamento da escritora Stella Maria Sarah Miles Franklin, autora de Minha Brilhante Carreira, a premiação reconhece anualmente romances em inglês. O prêmio oferece uma quantia em dinheiro ao vencedor, que nas edições recentes chegou a 60 mil dólares australianos (R$ 214.134,84).
Discipline foi escolhido ao lado de outros cinco romances australianos nesta edição. A lista final inclui First Name Second Name, de Steve MinOn; My Heart At Evening, de Konrad Muller; Fierceland, de Omar Musa; Little World, de Josephine Rowe; e You Must Remember This, de Sean Wilson. Cada autor finalista recebe 5 mil dólares australianos do Copyright Agency’s Cultural Fund, enquanto o vencedor, que será anunciado em Sydney em 5 de agosto, receberá o prêmio de 60 mil.
A presença de Abdel-Fattah na lista final mostra que a sabotagem do lóbi sionista contra a autora não impediu a avaliação literária do romance.
O livro esteve no centro de uma crise no Adelaide Writers’ Week, evento literário vinculado ao Adelaide Festival. Abdel-Fattah havia sido convidada para falar sobre Discipline, mas o convite foi retirado após o massacre de Bondi. A decisão provocou reação ampla de escritores, que abandonaram o evento em protesto. A diretora artística Louise Adler renunciou e o festival entrou em colapso.
O massacre de Bondi foi um ataque armado contra civis ocorrido em 14 de dezembro de 2025 na praia de Bondi Beach, em Sydney, Austrália. Dois homens abriram fogo contra uma celebração do feriado judaico de Chanucá, resultando na morte de 16 pessoas (incluindo um dos atiradores) e dezenas de feridos. O acontecimento foi conveniente utilizado pelo sionismo para endurecer a sua política de censura e repressão no país.
A autora defende uma Palestina livre “do rio ao mar” e denuncia que os setores lobistas ligados a “Israel” tentam silenciá-la. Depois da retirada do convite em Adelaide, ela participou de sessões lotadas nos festivais de escritores de Newcastle e Sydney, afirmando que havia sido submetida a uma campanha de silenciamento. O caso transformou o romance em meio de disputa política sobre o direito de artistas e intelectuais defenderem a causa palestina sem serem boicotados pelos eventos da burguesia, mostrando que a expulsão arbitrária leva a uma reação contundente do público, acompanhada de parte significativa dos próprios artistas.
A indicação de Abdel-Fattah é reflexo disso, porque ocorre em um ambiente de crescente pressão contra defensores da Palestina em universidades, festivais, editoras e espaços culturais.
O painel de jurados de 2026 é formado por Richard Neville, bibliotecário Mitchell da State Library of New South Wales e presidente da comissão; Jumana Bayeh; Mridula Nath Chakraborty; Tony Hughes-d’Aeth; e Maggie Nolan.
Randa Abdel-Fattah é acadêmica da Universidade Macquarie e pesquisadora de temas como islamofobia, raça, Palestina, guerra ao terror e ativismo social. O prêmio de agosto decidirá se a polêmica se converterá também em vitória da disputa literária.





