David Deccache, ex-assessor econômico do PSOL na Câmara dos Deputados, denunciou o descaso da deputada Érika Hilton com algumas das principais questões de interesse dos trabalhadores debatidas no Congresso em 2024. Naquele ano, Hilton não era uma parlamentar qualquer: ocupava a liderança da bancada do partido.
Deccache trabalhava justamente no acompanhamento das questões econômicas. Segundo ele, mesmo durante discussões importantes, como a segunda fase da Reforma Tributária, praticamente não havia participação da líder da bancada. O ex-assessor afirma que nunca chegou a conversar com Hilton sobre o tema durante toda a tramitação.
Ele também relata que a deputada não procurava conhecer as notas técnicas produzidas pela assessoria, as divergências existentes ou as possibilidades de intervenção da bancada.
“Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo no Congresso sobre esse e tantos outros assuntos fundamentais para a classe trabalhadora”, afirmou ele em uma publicação no X.
A denúncia tem um peso particular porque parte de alguém que trabalhou dentro do próprio PSOL e que se declara eleitor de Hilton. Deccache acompanhava diretamente o funcionamento da bancada e as articulações relacionadas às votações econômicas.
Trabalhadores perderam, Hilton não apareceu
O caso mais grave citado pelo ex-assessor foi a mudança no abono salarial, benefício pago aos trabalhadores formais de baixa renda.
Deccache destacou que a medida atingia justamente uma parcela dos trabalhadores submetidos às piores condições de trabalho, inclusive muitos dos que cumprem jornada na escala 6×1. Apesar disso, segundo ele, Hilton não participou de nenhuma iniciativa relevante para tentar impedir a mudança.
“Ela não fez absolutamente nada para reverter isso”, denunciou.
Segundo Deccache, outros deputados do PSOL acabavam assumindo atribuições que deveriam caber à própria líder. A preparação de emendas e destaques, as reuniões e a articulação em torno das votações ficavam nas mãos de outros parlamentares.
A dificuldade de contato era tamanha que o assessor afirma ter parado de tentar procurá-la. Chamou Hilton de “uma verdadeira diva pop”.
A declaração expõe uma contradição evidente. Hilton tornou-se uma das principais figuras da campanha contra a escala 6×1 e conquistou enorme projeção pública aproveitando-se do tema. No entanto, segundo alguém que acompanhava seu trabalho parlamentar de dentro da bancada, quando trabalhadores de baixa renda sofreram um ataque direto ao abono salarial, a líder do PSOL não se envolveu na luta contra a medida.
O próprio Deccache, embora elogie a performance de Hilton como influenciadora digital, ressaltou que atuação nas redes sociais e trabalho político são coisas diferentes. O mandato exige acompanhar projetos, estudar medidas, preparar intervenções e organizar a disputa política, inclusive em atividades que não rendem exposição pública.
É nesse terreno que, segundo seu relato, Hilton não estava nem aí.
Uma parlamentar para inglês ver
A denúncia confirma a imagem de uma parlamentar muito mais preocupada com sua projeção pública do que com o trabalho efetivo em defesa da população.
Com grandes somas de recursos disponíveis, Hilton domina perfeitamente o funcionamento das redes sociais. Está constantemente envolvida nas grandes campanhas da esquerda pequeno-burguesa identitária, recebe ampla cobertura da imprensa e transformou seu mandato em uma poderosa máquina de promoção pessoal e repressão a críticos.
Quando os holofotes se apagam, porém, o relato de Deccache apresenta outra realidade. Assuntos fundamentais para milhões de trabalhadores eram deixados para outros integrantes da bancada enquanto sua líder permanecia distante.
Não se trata de um problema exclusivamente pessoal de Hilton. A parlamentar é um produto típico da orientação adotada pelo PSOL.
O partido procura apresentar-se como a ala mais radical da esquerda brasileira, mas está cada vez mais integrado ao regime político e à corrida por cargos. Sua suposta radicalidade concentra-se principalmente em questões que não ameaçam os interesses fundamentais da burguesia e, mais ainda, em medidas que servem diretamente ao aprofundamento da ditadura do imperialismo sobre o Brasil, como as pautas identitárias e de cerceamento da liberdade de expressão.
Quando entram em discussão salários, direitos trabalhistas e outras questões materiais da classe operária, a combatividade desaparece com enorme facilidade.
O Cavalo de Troia da esquerda
Ao mesmo tempo em que esse setor da esquerda negligencia os interesses concretos dos trabalhadores, demonstra grande disposição para apoiar o fortalecimento do aparelho repressivo do Estado quando isso é apresentado com uma fachada progressista.
O identitarismo cumpre um papel central nessa operação.
Em nome da proteção de setores oprimidos, defende-se que o Judiciário determine quais opiniões podem ser expressas, que cidadãos sejam processados por aquilo que dizem e que as redes sociais sejam submetidas a um controle cada vez maior.
As consequências dessa orientação são profundamente reacionárias. O poder não fica nas mãos dos trabalhadores ou dos setores oprimidos, mas de juízes, promotores, policiais e demais integrantes do Estado burguês.
O PSOL atua, nesse sentido, como um Cavalo de Troia na esquerda. Medidas contra as liberdades democráticas são apresentadas como progressistas justamente por virem acompanhadas de palavras de ordem em defesa das minorias.
Hilton tornou-se uma das principais representantes dessa política. Enquanto a defesa de direitos concretos dos trabalhadores pode ser relegada a segundo plano, há uma enorme mobilização em torno de campanhas identitárias, processos judiciais, punições e restrições à liberdade de expressão.
A denúncia de Deccache revela o que existe por trás da propaganda.
A farsa Érika Hilton
O ex-assessor afirmou ainda que demorou para tornar suas críticas públicas pelo temor do chamado “cancelamento”. Segundo ele, havia medo de discutir abertamente a atuação parlamentar de Hilton.
“Todo mundo sempre teve medo de debater isso publicamente. Medo do cancelamento. Eu me incluo”, declarou.
O comentário é revelador do ambiente criado em torno desse tipo de personagem. A crítica política é tratada como algo proibido, enquanto a imagem cuidadosamente construída nas redes sociais é protegida por uma verdadeira patrulha.
Deccache decidiu falar e colocou em discussão fatos concretos de sua experiência dentro da bancada: uma líder que não está nem aí para o que, nas redes sociais, diz defender.
A Érika Hilton das redes sociais pode acumular seguidores, elogios da burguesia e fama. Para os trabalhadores, porém, o relato de seu ex-assessor mostra uma coisa muito diferente: na hora em que seus direitos estão efetivamente em jogo, a “diva pop” do PSOL está, para dizer em português claro, cagando e andando para eles.


