Documentos recém-liberados dos arquivos de Jeffrey Epstein expõem uma relação íntima entre a figura que foi chamada pela grande imprensa de “o maior intelectual de esquerda vivo”, Noam Chomsky, e o financista condenado por tráfico sexual de menores.
Em 30 de janeiro de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos fez uma das maiores divulgações de arquivos da história, com mais de três milhões de páginas de documentos, 180 mil imagens e cerca de duas mil horas de vídeos. Essa leva final de documentos, cumprindo integralmente o Epstein Files Transparency Act (assinado em novembro de 2025 pelo presidente em exercício), trouxe à tona milhares de e-mails, mensagens de texto, registros de voos e fotos que mostram Chomsky não apenas como conhecido distante, mas como confidente próximo, conselheiro informal de crises e participante regular de um círculo da alta sociedade norte-americana, que frequentava os encontros promovidos por Epstein.
Esse círculo era composto por figuras como empresários, políticos e acadêmicos de renome. A revelação do envolvimento de Chomsky com Epstein teve ampla repercussão, gerando decepção e debates acalorados entre acadêmicos, ativistas e milhões de leitores que viam em Chomsky um símbolo de integridade moral e crítica antissistêmica com viés de esquerda.
Investigação publicada pelo portal de jornalismo investigativo MintPress News, órgão independente, em 7 de fevereiro de 2026, assinada por Alan MacLeod, baseou-se na análise de mais de 3.800 comunicações diretas entre Chomsky e Epstein (principalmente entre 2015 e 2019, com picos em 2016–2018). Os textos revelam que os dois se consideravam “melhores amigos”, termo usado explicitamente por Valeria Wasserman Chomsky, esposa de Chomsky desde 2014. Os documentos ainda revelam que eles trocavam confidências profundas sobre política, finanças, saúde, problemas familiares e estratégias para lidar com escândalos na imprensa.
Epstein, morto em agosto de 2019 na prisão federal de Manhattan, supostamente em um suicídio enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual de menores, tornou-se, nos últimos anos de vida, o conselheiro jurídico e financeiro mais próximo de Chomsky, influenciando decisões que acabariam por romper quase completamente o relacionamento do linguista norte-americano com seus três filhos.
Epstein oferecia ao casal um estilo de vida de luxo extremo e discreto. Noam Chomsky voou diversas vezes no jato particular Boeing 727 de Epstein, conhecido como “Lolita Express” devido aos abusos sexuais ocorridos a bordo com adolescentes e crianças. Ele se hospedou repetidamente em propriedades do bilionário: a mansão de sete andares e 51 mil pés quadrados, um antigo hospital convertido em residência palaciana, local de festas sexuais para convidados poderosos da burguesia imperialista e de seus principais agentes, bem como local de tráfico de vítimas, segundo processos judiciais.
Chomsky igualmente se hospedou no apartamento de quase 700 metros quadrados na Avenue Foch, no 16º arrondissement de Paris, a poucos metros do Arco do Triunfo. Em maio de 2016, Chomsky escreveu: “aquele apartamento adorável onde você nos hospedou”, sugerindo que a estadia se repetiu. Durante a batida federal de julho de 2019 na mansão nova-iorquina, agentes do FBI encontraram uma foto emoldurada de Jeffrey Epstein ao lado de Noam Chomsky e de sua esposa Valéria Wasserman na mesa de cabeceira do quarto principal, detalhe que reforça o nível da intimidade entre eles.
Outros “mimos” incluíam reservas em hotéis de altíssimo padrão: em 2015, Epstein pagou a suíte Manhattan do Mark Hotel, no Upper East Side, com alto custo por noite. Em fevereiro de 2016, ofereceu a casa de praia em Palm Beach, na Flórida, e, após pedidos insistentes de Chomsky, uma visita à propriedade mais infame: a Ilha Little St. James, nas Ilhas Virgens Americanas, um complexo de 283 quilômetros quadrados. Vítimas como Virginia Giuffre afirmam que dezenas de meninas, algumas com apenas 12 anos, foram mantidas lá contra a vontade, abusadas sexualmente e coagidas a servir convidados ricos e influentes.
Chomsky respondeu com entusiasmo aos convites de Epstein para suas festividades com serviços de tráfico humano: “não consigo dizer o quão tentadora é a convite. Tenho que resolver a agenda”; meses depois, em julho de 2016: “Valeria sempre está animada com Nova Iorque. Eu estou realmente fantasiando sobre a ilha caribenha”. Valeria Wasserman enviava selfies de visitas ao Louvre e jantares no apartamento parisiense, elogiando o mordomo brasileiro Valdson Vieira Cotrin. Apesar da proximidade geográfica e dos convites repetidos, nenhum documento comprova definitivamente que Chomsky ou Valeria Wasserman tenham presenciado, participado ou tido conhecimento direto de crimes sexuais, embora, de fato, existam indícios.
O papel de Chomsky como “gerente de crises” informal foi explícito. Em fevereiro de 2019, com a imprensa e o Congresso norte-americano pressionando por nova prisão do financista, Epstein enviou mensagens em desespero: “a imprensa está me pintando como um monstro. Congresso e Senado sendo impulsionados por demandantes. Advogados só querendo dinheiro. Sugestões??”. Chomsky respondeu com empatia e estratégia: “eu observei a maneira horrível como você está sendo tratado na imprensa e no público. É doloroso dizer, mas acho que a melhor maneira é ignorar”. Ele comparou as críticas a uma “cultura de fofoqueiros” e alertou que qualquer resposta pública daria “abertura para uma enxurrada de ataques venenosos”. Apesar da recomendação, quando Epstein descumpriu o conselho, escrevendo um artigo sobre si próprio em terceira pessoa defendendo sua imagem, Chomsky o elogiou.
A amizade era marcada por trocas pessoais calorosas. Epstein enviava presentes gourmets (cestas do Carnegie Deli), roupas (suéter de caxemira para o 87º aniversário de Chomsky) e organizava traslados privados de carro. O casal Chomsky retribuiu: o acadêmico contribuiu para o “livro de aniversário” de Epstein; Valeria Wasserman preparava sobremesas favoritas para visitas do financista à casa do linguista em Massachusetts. Eles trocavam declarações pessoais intensas: “contamos você como nosso melhor amigo. Quero dizer ‘o’ único” e “amizade profunda, sincera e eterna de nós dois”. Em momentos mais leves, faziam piadas sexuais: Epstein comparou o casal a “Plutão e sua lua”; após Chomsky perguntar “quem é Plutão?”, Epstein enviou foto do cachorro da Disney e brincou: “na sua idade, se algo ficar para cima, fique orgulhoso”. Chomsky respondeu “ai”, e Epstein completou: “bom, ainda tem sentimentos também”.
Havia pessoas com histórico já controverso na época no círculo social de Epstein e Chomsky: jantares privados com Woody Allen, acusado de abuso sexual pela filha adotiva Dylan Farrow, Steve Bannon, principal ideólogo da extrema direita nos EUA e no mundo, e Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de “Israel”. Em outubro de 2015, Chomsky voou com Epstein de Boston a Nova Iorque para um encontro com Allen; em 2018, lamentou perder um jantar com Bannon e Barak e convidou Bannon pessoalmente para sua casa no Arizona. Após a vitória de Trump em 2016, Valeria Wasserman pediu a Epstein que intermediasse uma nomeação de Chomsky como conselheiro de políticas na Casa Branca, ideia que, embora talvez irônica, não era absurda dado o acesso de Epstein à burguesia.
Financeiramente, Epstein assessorava Chomsky em investimentos, movimentações de fundos e questões legais. Isso provocou a maior crise familiar da vida do linguista. Seus três filhos, fruto do primeiro casamento com Carol Chomsky, falecida em 2008, protestaram veementemente contra o “aumento dramático e inexplicável” nos gastos após o casamento com Valeria Wasserman em 2014 e, sobretudo, contra a insistência do pai em incluir Richard Kahn, contador pessoal de Epstein, acusado em processos civis de ser o “capitão” logístico do esquema de tráfico sexual, no conselho do fundo fiduciário familiar, que gerenciava a fortuna acumulada. Em julho de 2017, os filhos enviaram carta conjunta implorando mediação profissional, mas Chomsky respondeu com amargura, chamando-os de “três multimilionários” obcecados por dinheiro. Epstein aconselhou cortar contato, documentos sugerem que Chomsky seguiu o conselho, alterando testamento para deixar herança integral a sua atual esposa.
Ao mesmo tempo, as contradições ideológicas são gritantes. Publicamente, Chomsky denuncia o imperialismo norte-americano, o sionismo e a “desigualdade social”; em privado com Epstein, descreve a Venezuela chavista como “desastre total” causado por “corrupção e incompetência”, visão oposta aos elogios públicos que fez a Hugo Chávez anos antes.
Valeria Chomsky, em nota posterior, admitiu “erros graves de julgamento” e disse que só compreenderam a extensão dos crimes após a morte de Epstein em 2019. No entanto, o próprio Chomsky, que sofreu derrame grave em 2023 e perdeu a capacidade de falar, defendeu os laços em entrevista de 2020: “princípio do direito ocidental: cumprida a pena, a pessoa é igual a todos os outros. Por que essa obsessão com Epstein e não com doadores piores para o MIT?”, aludindo que haveria quadros piores do que Epstein entre empresários que financiam o MIT, Instituto de Tecnologia de Massachussetes, em português.
Epstein proporcionou luxo, assessoria financeira e acesso à burguesia, mas o preço foi altíssimo: a reputação imaculada de Chomsky foi manchada. O crítico mais feroz do “deep state”, do imperialismo e do sionismo manteve laços íntimos com um dos principais representantes dessas alas.




