Sob a liderança da secretária de Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, representantes de 40 países se reuniram em uma conferência virtual nesta quinta-feira (2) para tratar da crise no Estreito de Ormuz. O encontro ocorreu sem a presença dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump justificou afirmando que a segurança da rota não é um problema norte-americano, já que o país se tornou exportador de petróleo e não depende mais do abastecimento regional. Sem o apoio dos Estados Unidos, nações da Europa e da Ásia tentam agora saídas diplomáticas isoladas para reabrir a via, por onde circula 20% do petróleo mundial. Cooper acusou o Irã de sequestrar a rota, impactando diretamente o preço global de alimentos e energia.
Desde o início das hostilidades entre a coalizão Estados Unidos-“Israel” e a República Islâmica do Irã, em fevereiro de 2026, a Lloyd’s List Intelligence registrou 23 ataques a navios comerciais no estreito. O conflito resultou na morte de 11 tripulantes e na paralisação quase total do fluxo de petroleiros e cargueiros de Gás Natural Liquefeito (GNL). Atualmente, cerca de dois mil navios e 20 mil marinheiros estão retidos. O Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) do Irã assumiu o controle físico da passagem e implementou uma triagem rigorosa. Apenas embarcações de países considerados não hostis podem cruzar o corredor após vistorias detalhadas de carga e tripulação.
O governo iraniano instituiu a cobrança de taxas de trânsito, uma espécie de pedágio, para a navegação em Ormuz. Segundo a agência norte-americana Bloomberg, petroleiros autorizados pagam cerca de US$1 por barril transportado. O Irã exige que os pagamentos ocorram em Yuan (moeda chinesa) ou criptomoedas pareadas em ativos fixos, excluindo o dólar das transações. O economista Hossein Raghfar estima que a arrecadação pode chegar a US$60 bilhões anuais. Índia, Paquistão e China já estabeleceram canais diretos com o CGRI para coordenar a passagem de suas frotas sob este modelo de pedágio, acelerando a desvinculação do comércio de petróleo em relação à moeda norte-americana.
Na Europa, o impacto é imediato. Os contratos futuros de diesel em Londres ultrapassaram US$200 por barril, o maior valor desde 2022. O preço médio do combustível na União Europeia subiu 20% em um mês, chegando a dois euros por litro, com picos de 2,30 euros na Irlanda. O chefe executivo da Shell, Wael Sawan, alertou que os estoques de segurança de diesel e querosene de aviação devem se esgotar na segunda metade de abril, quando as últimas cargas enviadas antes do bloqueio terminarem de ser descarregadas. Países como Eslováquia e Eslovênia já iniciaram o racionamento nas bombas, enquanto Alemanha e Itália enfrentam previsões de recessão técnica até o final de 2026. A indústria pesada, especialmente química e siderúrgica, já aplica sobretaxas de 30% para compensar o custo da energia.
Diante da paralisia marítima, o Iraque buscou alternativas terrestres. Com os tanques de armazenamento no porto de Khor al-Zubair lotados, o país reduziu sua produção em 80% e passou a exportar óleo combustível via caminhões através da Síria. Comboios transportam cerca de 650 mil toneladas métricas por mês para terminais no Mediterrâneo. Para viabilizar a logística complexa e cara, a estatal SOMO oferece descontos de até US$170 por tonelada. Além disso, o Iraque retomou o fluxo pelo oleoduto para a Turquia, mas com capacidade limitada de 250 mil barris por dia, volume muito inferior aos 3,5 milhões exportados antes da crise.
A Arábia Saudita intensificou o uso do Oleoduto Leste-Oeste para manter suas exportações. A rede de 1.200 quilômetros transporta sete milhões de barris por dia para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, evitando o Estreito de Ormuz. O chefe executivo da Saudi Aramco, Amin Nasser, confirmou que esta é agora a principal rota do reino. No entanto, a criação de infraestruturas que substituam totalmente o estreito custaria entre US$5 bilhões e US$20 bilhões. A segurança também preocupa, já que oleodutos terrestres são vulneráveis a ataques de veículos aéreos não tripulados (VANTs) em regiões de alta tensão.
Nos Estados Unidos, a crise gerou uma queda acentuada na popularidade de Donald Trump. Pesquisas indicam que 66% dos americanos defendem o fim da guerra devido aos impactos econômicos internos. A pressão aumentou após ataques do CGRI contra o porta-aviões USS Gerald R. Ford e bases no Cuaite e Dubai. A instabilidade levou à demissão do Chefe do Estado-Maior do Exército, general Randy George, pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth.





