Alguns moralistas de baixa patente saíram em campanha contra as chamadas bets, que seriam, por algum motivo misterioso, responsáveis pelo endividamento do povo brasileiro, em uma campanha que inclusive empurrou o governo a ampliar a repressão ao negócio e ao próprio ato do jogo.
Um texto recente publicado na Folha de S.Paulo, escrito pela professora Rosa Nogueira, afirma que “o superendividamento da população não é apenas um drama privado ou índice estatístico; é um entrave estrutural ao desenvolvimento da nação. Quando a renda do cidadão é confiscada pelos juros e pela ilusão das apostas, a economia real sangra”.
A tese é que o dinheiro das apostas feitas pelos trabalhadores são “recursos que deveriam financiar a economia local, saúde e alimentação”, mas que estão sendo direcionados para “apostas online” enquanto os “clubes lucram com o vício e o empobrecimento de suas comunidades”.
Tirando o floreio do restante do texto, está claro que é uma das mais variadas campanhas que já fizeram contra o futebol brasileiro. Desde o já antigo argumento de que o esporte serviria para a “alienação” do povo e, agora, para seu endividamento em razão das bets, das casas de apostas.
O choque que essa classe média moralista tem com o jogo é realmente impressionante. No Brasil, sempre se apostou em absolutamente qualquer coisa. De rinhas de galo às grandes casas de jogo; dos caça-níqueis de boteco à Mega-Sena, o jogo é uma rotina de muitas pessoas há muito tempo, e obviamente não será o fenômeno das bets o culpado pelo empobrecimento e endividamento do povo. Os responsáveis por isso são os bancos, não o jogo, qualquer que seja ele.
Pesquisa recente revelou que o percentual de famílias endividadas aumentou de 80,9% em abril para 81,6% em maio, alcançando um novo recorde e registrando o quinto mês consecutivo de crescimento, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
De acordo com a Confederação, o levantamento considera dívidas decorrentes de cartão de crédito, cheque especial, carnês de lojas, crédito consignado, empréstimos pessoais, cheques pré-datados e financiamentos de veículos e imóveis. Em outras palavras, trata-se de obrigações financeiras assumidas junto a instituições bancárias e de crédito, os banqueiros. Os dados, portanto, não guardam relação com gastos em apostas esportivas, bets, clubes de futebol ou jogo do bicho.
O jogo é só uma tentativa de melhoria de vida em um golpe de sorte. Obviamente a professora redatora do texto não precisa desse artifício, afinal ela é “professora do MBA em ESG e Impact da Trevisan Escola de Negócios, diretora executiva da Update Business Consulting ESG e conselheira consultiva em Estratégia Global e Transformação Sustentável”. Nem dá para saber o que de fato ela é, mas certamente não precisa do jogo do bicho, ou que seu time vença por 1 x 0 uma determinada partida para conseguir uns trocados.
Às vésperas da Copa do Mundo, a professora, que realmente não gosta de futebol, afirma que “no topo dessa engrenagem de vulnerabilidade, a maior paixão nacional foi convertida em uma poderosa isca de endividamento: o futebol transformou-se no maior vetor do vício em apostas online, as bets”.
Se tem uma coisa que o brasileiro gosta de fazer é se endividar em razão dos seus clubes de coração. Quantas e quantas histórias existem de gente que vendeu até a casa para ir assistir a um jogo importante do seu clube. Esse raciocínio, da professora, é de alguém de classe média que não acompanha os gostos populares, as paixões do trabalhador.
Por outro lado, a tentativa desta e de outras tantas matérias e colunas da imprensa capitalista é jogar um balde de água fria no torcedor brasileiro pouco antes da estreia da seleção brasileira na Copa.
“Historicamente visto como poderoso instrumento de inclusão, ascensão social e identidade cultural, o esporte hoje corre o risco de entrar em campo como cúmplice de uma epidemia financeira”. Mentira.
O endividamento é culpa dos bancos, dos juros, dos grandes capitalistas que saquearam nações inteiras, como é o caso do Brasil. O Brasil gasta cerca de R$ 1 trilhão por ano com o pagamento de juros da dívida pública. Só os juros. A dívida em si nem é tocada. Esse valor escandaloso representa, historicamente, quase 8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Aí está o problema, não o futebol ou o torcedor.
“Paralelamente, o Estado não pode se omitir; uma regulação com maiores critérios de responsabilidade, rastreabilidade e governança é uma medida urgente de saúde pública e soberania econômica”. A dívida do cidadão não tem nada a ver com responsabilidade e rastreabilidade.
O Estado não pode se omitir, de fato; ele deve estatizar todos os bancos, anistiar todas as dívidas do povo junto aos capitalistas, financiar obras e habitações populares, e liberar crédito sem juros para a população carente. Isso não tem nada a ver com o futebol, clubes, ou o desejo do povo de jogar, de apostar.
“Impor limites éticos aos clubes e uma regulação firme às apostas é um ato urgente de responsabilidade social. Caso contrário, o Brasil descobrirá que, nessa partida, a sociedade entra perdendo por goleada”. Por que não impor nenhum limite aos bancos? Por que os banqueiros podem fazer o que quiserem? Essa é a tese da professora: repressão ao jogo, “limite” aos clubes e carta branca para os banqueiros.
Toda a parafernália pseudoeconômica do texto é para desanimar o torcedor, desanimar os brasileiros no evento esportivo mais importante do planeta que se inicia e, naturalmente, é parte de uma manobra dos próprios banqueiros para evitar que algum dinheiro vá para as bets, que são outro esquema capitalista, mas de menor porte.





