O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ampliou nesta segunda-feira (1º) a denúncia contra o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella, vencedor da pré-contagem do primeiro turno das eleições presidenciais realizadas no domingo (31). Em publicação nas redes sociais, Petro afirmou que De la Espriella o atacou pessoalmente e que sua candidatura expressa o mesmo projeto político que sustentou Álvaro Uribe, marcado pelo que ele chama de “paramilitarismo” e pela repressão contra os setores populares.
O resultado preliminar divulgado pela Registradoria Nacional indicou De la Espriella em primeiro lugar, com 10.361.499 votos, contra 9.688.361 obtidos por Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico. Como nenhum dos dois alcançou maioria, o segundo turno foi marcado para 21 de junho.
Petro afirmou que não roubou “um só peso do erário” nem cometeu crime algum. Segundo o presidente, a ameaça de prisão feita contra ele decorre de sua posição política. “Se me promete a prisão apenas por minha posição política progressista em favor do povo”, declarou.
Em seguida, o presidente associou diretamente Abelardo de la Espriella ao uribismo. “Isso acontece porque o projeto por trás de Abelardo é o mesmo que esteve por trás de Uribe, que já o apoia: o fascismo mafioso que já governou a Colômbia”, afirmou Petro.
O presidente colombiano também retomou a história da repressão política no país. Segundo ele, o fascismo deixou “um holocausto” nos lugares em que governou, citando Europa, China, Chile, Uruguai, Argentina e a própria Colômbia. Petro afirmou que, no caso colombiano, esse processo apareceu na época de Laureano Gómez e Mariano Ospina Pérez e, mais tarde, no domínio dos paramilitares, que deixou 200 mil mortos.
“Eu me levantei com minhas palavras públicas contra eles e, sem uma arma, os derrotei, e por isso sou presidente. E agora falam de vingança quando acreditam que podem voltar ao poder. Destripar o progressismo e encarcerar, o que na realidade significa assassinar seu dirigente”, declarou.
Petro denunciou a campanha da direita por compra de votos. Segundo ele, houve pagamento de 150 mil a 200 mil pesos por voto. O presidente afirmou ainda que a direita prepara uma ofensiva contra os setores populares, mas disse que a campanha governista derrotará o candidato da extrema direita no segundo turno.
O presidente também destacou a origem política e social de Abelardo de la Espriella. Segundo Petro, ambos nasceram em Córdoba, mas De la Espriella vem de família latifundiária e defende o paramilitarismo, enquanto ele é filho de camponeses e médios produtores rurais.
Petro afirmou que De la Espriella foi derrotado em seu próprio município, Sahagún, e também no departamento de Córdoba. Segundo o presidente, o candidato da direita teve 260 mil votos no departamento, contra 360 mil votos obtidos pelo campo governista. “Por quê? Porque em seu povoado o conhecem e sabem o que aconteceria se um fascista defensor do paramilitarismo chegasse ao poder”, disse.
O presidente defendeu uma “Aliança pela Vida” contra a candidatura de De la Espriella. Petro afirmou que serão necessários mais três milhões de votos para derrotar a extrema direita no segundo turno, comparando a situação atual com sua própria eleição presidencial.
Petro dirigiu parte de sua mensagem à juventude colombiana. Segundo ele, caso a extrema direita volte ao poder, jovens, camponeses e dirigentes populares serão enfrentados com violência. “Voltarão ao Exército e à polícia de cinco anos atrás”, declarou.
O presidente afirmou que a eleição passou a ser uma defesa da própria vida. “Agora o voto é para defender a própria vida e a dos filhos e filhas”, disse. “Vamos dar a batalha pela vida e pela história libertária da Colômbia. Aqui não se rende ninguém, aqui vamos ganhar e eu mesmo me colocarei à frente”.
A declaração ocorreu em meio a uma crise aberta no governo colombiano após o primeiro turno. O embaixador da Colômbia no Brasil, Alfredo Saade, pediu publicamente que Petro renuncie à Presidência para se dedicar integralmente à campanha do segundo turno. “Presidente Gustavo Petro, vitória ou morte. O país precisa do senhor livre de amarras; renuncie ao cargo e demonstre como se colocam 15 milhões de votos nas urnas”, escreveu Saade.
A pré-contagem da Registradoria ainda não foi reconhecida por Petro nem por Iván Cepeda. O candidato do Pacto Histórico afirmou que só aceitará o resultado após verificação pelas comissões eleitorais presididas por juízes. Cepeda denunciou divergências no censo eleitoral, mesas com indícios de votação superior ao número de eleitores presentes e alterações de locais de votação antes das consultas internas do Pacto Histórico.
Petro também contestou o papel da empresa privada Thomas Greg & Sons, controlada pelos irmãos Bautista, na apuração rápida dos votos. O presidente afirmou que a Registradoria não pode depender de software privado para processar dados eleitorais e pediu ao registrador nacional Hernán Penagos a abertura de processo para que o Estado colombiano assuma o controle integral dos programas usados nas eleições.
Segundo Petro, os algoritmos do sistema de contagem foram modificados três vezes na última semana da campanha, quando já deveriam estar congelados para auditoria. O presidente afirmou que isso permitiu a inclusão de 800 mil cédulas de pessoas fora do censo eleitoral oficial, criando, em suas palavras, dois censos paralelos: o do Estado e o do software dos irmãos Bautista.
O procurador-geral Gregorio Eljach, por sua vez, afirmou em entrevista ao jornal El Tiempo que não foram encontradas denúncias ou reclamações capazes de invalidar o trabalho da pré-contagem até o momento. Após visitar as comissões de escrutínio em Corferias, em Bogotá, Eljach disse que a autoridade competente para declarar os resultados é o Conselho Nacional Eleitoral, com auxílio da Registradoria.
Eljach também pediu que Petro modere suas declarações. Segundo o procurador, o presidente deve manter neutralidade em relação às campanhas eleitorais. Ele afirmou que eventuais questionamentos sobre participação indevida em política por parte do chefe de Estado cabem à Comissão de Investigação e Acusações da Câmara.
A vitória preliminar de Abelardo de la Espriella no primeiro turno reorganizou a direita colombiana em torno de sua candidatura. O ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, cuja candidata oficial, Paloma Valencia, teve apenas 6,92% dos votos, pediu apoio imediato a De la Espriella. Paloma Valencia também declarou apoio pessoal ao candidato da extrema direita no segundo turno.
De la Espriella baseou sua campanha em um discurso de “lei e ordem”, ataques ao governo Petro, defesa de um Estado reduzido e propostas de endurecimento militar. Seu programa promete encerrar em 90 dias o conflito armado interno, desmontando as negociações de paz abertas pelo governo Petro com grupos insurgentes, e prevê ofensivas militares, destruição de cultivos de coca, apoio dos Estados Unidos e de “Israel” e construção de 10 megapresídios.
Após a divulgação da pré-contagem, De la Espriella chamou Petro de “delinquente” e “miserável” e acusou o presidente de preparar um golpe contra a vontade popular. O candidato convocou a Força Pública e o Exército a defenderem a “democracia colombiana” “pela razão ou pela força” caso o governo tentasse invalidar os números iniciais divulgados pela Registradoria.
A candidatura de De la Espriella recebeu apoio internacional da extrema direita. O presidente da Argentina, Javier Milei, felicitou o candidato e afirmou que o resultado expressava uma rejeição ao que chamou de “modelo socialista”. Na Espanha, Santiago Abascal, dirigente do Vox, também declarou apoio à campanha da coalizão Defensores de la Patria.
O Pacto Histórico denunciou ainda ingerência estrangeira no processo eleitoral. Iván Cepeda denunciou o presidente do Equador, Daniel Noboa, por interferir na eleição colombiana ao participar de uma chamada pública com Abelardo de la Espriella e anunciar a retirada de tarifas alfandegárias sobre produtos colombianos. A Chancelaria colombiana afirmou que a medida correspondia ao cumprimento de decisão anterior da Comunidade Andina e não a uma concessão obtida pelo candidato da direita.
Autoridades norte-americanas, entre elas o secretário de Estado Marco Rubio e o senador Bernie Moreno, também manifestaram apoio a De la Espriella. Integrantes da campanha do Pacto Histórico afirmam que esse alinhamento expressa uma tentativa de interferência dos Estados Unidos na soberania colombiana.





