A educação pública no Brasil, especialmente a educação básica – ensino fundamental ao médio, em que estudavam em 2024 cerca de 29 milhões de crianças e jovens entre 4 e 17 anos de idade – segue apartada do centro da ação do Estado (notadamente nas esferas estaduais) e não é prioridade para a estruturação de um necessário projeto de desenvolvimento nacional que enfrente e supere os desafios atuais colocados a um país dependente e subdesenvolvido como o Brasil, diante da reconfiguração da geopolítica nos marcos do imperialismo dos EUA sob Trump.
A escola, como espaço público de diálogo, liberdade de pensamento e desenvolvimento do saber crítico, enfrenta desafios e ameaças em pleno século XXI. O individualismo e a meritocracia aprofundam modelos pedagógicos e de gestão escolar que impedem a democratização e a construção do saber crítico.
A gestão empresarial da educação nas redes públicas tem ganhado espaço e é o principal entrave para que a escola seja espaço de vivência pedagógica de uma sociedade fundada na igualdade, no respeito às divergências de opinião, de credo e que inspire as famílias e as comunidades valores para além das relações de mercado. E as chamadas big techs, as maiores corporações privadas com sede nos EUA que atuam no setor de tecnologia (Meta, Apple, Google, Amazon, X, ChatGpt) seguem ávidas em busca de mercados consumidores para seus serviços educacionais.
Muito além das tarifas sobre importações que afetam as exportações brasileiras, a carta de Trump a Lula, de 9 de julho de 2025, foi elaborada para defender a presença das big techs no Brasil, com regulação mínima e cada dia mais presentes nas listas de compras governamentais. É da defesa destes interesses, muito mais lucrativos e estratégicos para os EUA, que trata a carta de Trump.
Plataformizar para dominar é o ponto central da gestão Tarcísio de Freitas na educação pública paulista. Renato Feder, indigno secretário de educação, é empresário do setor eletrônico (empresa Mult, fabricante de equipamentos de informática e atualmente importadora destes equipamentos, feitos na China) e já havia iniciado esse modelo de gestão educacional quando foi secretário da educação no estado do Paraná, com Ratinho Júnior entre 2019 e 2022.
A plataformização expõe os estudantes a muitas horas de telas (na escola e em casa), condiciona o material pedagógico e o conteúdo das aulas (é como se fosse uma Educação à Distância presencial) e funciona, sobretudo, como método de vigilância sobre o trabalho docente e aferição de indicadores para metas de desempenho (rankings que vão determinar o pagamento de bônus em dinheiro e a ordem para a atribuição de aulas).
De julho de 2024 a junho de 2025, os governos estaduais, municipais e o federal no Brasil gastaram R$ 9,3 bilhões com produtos e serviços fornecidos pelas big techs, aponta levantamento de pesquisadores da USP, UnB e FGV, reunidos no Grupo de Estudos em Tecnologias e Inovação na Gestão Pública da EACH-USP. Esse montante bilionário desmonta a tese de que o Brasil carece de recursos para investir em tecnologia e ainda indica como as políticas públicas brasileiras dependem de companhias como Microsoft, Oracle e Google.
A administração federal foi a que mais gastou (R$ 4,4 bilhões), seguida dos governos estaduais (R$ 3,5 bilhões) e dos municipais (R$ 1,3 bilhão). A compilação das contratações nos últimos 12 meses é apenas uma foto de um filme maior captado pelos pesquisadores. Os pesquisadores também analisaram 19.655 contratos únicos, processos de compra e licitações das diferentes esferas de governo desde 2014 e descobriram que o montante chegou a R$ 23 bilhões desde então.
Os serviços mais contratados são computação em nuvem, licenciamento de software e sistemas de segurança, e as principais fornecedoras foram Amazon, Microsoft, Oracle, Google e Red Hat. Os dados apresentados são nominais, não foram corrigidos pela inflação, e compreendem os contratos assinados diretamente com essas empresas ou com companhias intermediárias, o que indica que o montante total gasto pelos governos no Brasil com as big techs é muito maior do que o identificado.
Educação democrática, mais do que o necessário domínio do conhecimento, das linguagens, ciências e artes, é permitir aos estudantes participar de experiências contra-hegemônicas pautadas no trabalho coletivo e na democracia. Deve incluir práticas que levem os estudantes a saber como se auto-organizar pessoal e coletivamente contrariando a meritocracia e o individualismo vigentes nas escolas de hoje e que dão sustentação às relações sociais em vigor.
Vivenciar experiências democráticas radicais nas escolas é um caminho essencial para a defesa da democracia no Brasil e para a efetivação dos Direitos Humanos.




