A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) foi “um ataque direto contra a candidatura do presidente Lula”, afirmou Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, em entrevista à TV 247 nesta sexta-feira (1º). O programa, que normalmente ocorre às 13 horas, foi realizado em horário extraordinário, às 17h20, devido à participação de Pimenta no ato de 1º de Maio convocado pelo PCO, pelos Comitês de Luta e por outros movimentos.
Questionado por Leonardo Attuch sobre a derrota do governo no Senado, Pimenta afirmou que há indícios de uma articulação envolvendo Davi Alcolumbre, setores do Centrão, Rodrigo Pacheco, Jaques Wagner e Alexandre de Moraes. Segundo o dirigente do PCO, embora o caso Banco Master apareça como motivação imediata, o resultado político da votação é mais amplo.
“Bom, nós temos aí uma quantidade muito grande de informações. Vários órgãos parecem concordar em algumas coisas, por exemplo, que obviamente o Alcolumbre se voltou contra o Lula, aparentemente todo um setor do Centrão. O próprio Pacheco e até mesmo o Jaques Wagner teriam se voltado. Ao que tudo indica, houve uma articulação com Alexandre de Moraes no STF. E a motivação imediata do pessoal teria sido o caso Master. Teria sido um movimento para a blindagem do pessoal no caso Master”, afirmou.
Pimenta ponderou que considera “um pouco forçada” a versão segundo a qual Messias seria uma ameaça direta aos setores envolvidos no caso Banco Master. Para ele, não parece provável que um ministro indicado por Lula fosse partir para um confronto aberto com Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e outros ministros citados nas discussões sobre o caso. Ainda assim, ressaltou que o Banco Master está ligado à crise.
“Embora alguma coisa relacionada com o Master está envolvida nessa questão. Agora, eu acho que esses acontecimentos mais específicos, como acontece muitas vezes na política, você tem um acontecimento que tem explicações miúdas, mas na realidade a explicação maior é mais importante. E eu tendo a acreditar que nós estamos diante de um fenômeno um pouco mais complicado: foi um ataque direto contra a candidatura do presidente Lula”, disse.
Ao ser perguntado se a votação poderia expressar uma movimentação do Centrão para abandonar Lula e se aproximar da candidatura de Flávio Bolsonaro, Pimenta respondeu que essa hipótese é possível. “Aí se mistura com a questão do Banco Master, mas você pode manipular algumas pessoas em torno de um problema para atingir outros objetivos. E me parece que foi um duríssimo golpe contra a candidatura do Lula, o pior até agora”, afirmou.
Segundo Pimenta, caso a motivação imediata tenha sido proteger setores atingidos pelo inquérito do Banco Master, o resultado foi uma ruptura muito maior dentro da base que até então sustentava o governo. “Isso vai prejudicar toda a articulação que o Lula está fazendo em escala nacional. Pode significar uma ruptura geral”, declarou.
O dirigente do PCO também comentou a informação de que Rodrigo Pacheco não pretende disputar o governo de Minas Gerais. Para Pimenta, a desistência reforça a hipótese de que a crise não se limita ao STF ou ao caso Banco Master, mas envolve diretamente a eleição de 2026.
“Isso aí indicaria que é um movimento mais amplo do que simplesmente proteger o pessoal no Banco Master. É uma coisa que se dirige à eleição de outubro deste ano aqui. Porque essa movimentação já é inequívoca, não tem nada a ver com o STF. Ele abdicou, o que está indicando um acordo do Centrão com a extrema direita. Isso aí nós vamos ter que esperar os próximos dias para ver o que mais acontece. Se a coisa for nesse diapasão, nós vamos ver aí uma crise generalizada dos acordos que o governo fez para a eleição de 2026”, afirmou.
Pimenta destacou que os acordos de Lula foram feitos com o centro e com a direita, setores que têm maioria no Congresso Nacional. Segundo ele, a ausência de uma tentativa pública de recomposição após a derrota de Messias indica que a ruptura pode ser mais grave do que uma divergência pontual.
“Normalmente, se você impõe uma derrota ao seu aliado, o pessoal vai lá e corre e fala: não, isso aqui foi um problema específico etc. Eu não vi essa movimentação. Eu não vi a movimentação a favor de reatar os laços com o governo. Então me dá a impressão de que há uma ruptura mesmo de um setor importante”, declarou.
O presidente do PCO também afirmou que não há contradição em dizer que os políticos da direita representam a burguesia e, ao mesmo tempo, podem entrar em choque com setores importantes dela. Para ele, os interesses imediatos de políticos envolvidos em escândalos podem entrar em atrito com a operação política mais geral dos capitalistas.
“O fato de que os políticos direitistas representem a burguesia não significa que eles sempre vão estar de acordo. É uma coisa perfeitamente compreensível que problemas imediatos possam contrariar o representado aí no caso. Nós vimos que a burguesia estava enfrentando uma certa dificuldade para levar adiante o escândalo do Master. A gente vê que eles vão trabalhando gradualmente, vão aumentando a temperatura etc. E nós sabemos que uma boa parte dos políticos burgueses estão envolvidos”, disse.
Para Pimenta, a burguesia não pretende destruir todo o sistema político, mas pressionar setores específicos do STF. “A burguesia não quer derrubar todo esse sistema. Eles querem tirar os ministros do STF. Segundo eles, são o problema, são o perigo. Foi a ação dos ministros do STF que criou um problema sério para a burguesia. Então, pode haver uma discrepância. E aí o pessoal vai se defender, a burguesia vai aceitar que eles se defendem, eles não estão numa política de tudo ou nada, de acabar com todo mundo. Mas, ao mesmo tempo, esse setor está indicando um movimento geral contra a candidatura do Lula”, afirmou.
Sobre Flávio Bolsonaro, Pimenta disse que o senador não atua da mesma forma que Jair Bolsonaro. Segundo o presidente do PCO, Flávio se apresenta como um político mais adaptado ao Centrão e a setores tradicionais da direita.
“O Flávio Bolsonaro não leva adiante uma política típica do pai, do Jair Bolsonaro. Ele atua como se fosse um político do centro, um político do PSDB, quase”, afirmou. Para Pimenta, a movimentação em torno do filho de Bolsonaro “faz muito sentido” dentro da política que ele vem adotando.
Pimenta afirmou ainda que não se surpreende com a possibilidade de traição do Centrão e do STF contra Lula, embora não esperasse que ela acontecesse nesse momento. “O tipo de aliança que o Lula faz é uma coisa muito incerta. Você sempre tem que ter um olho [no fato de] que você vai ser traído, que vão puxar o seu tapete. A burguesia não tem amor a ninguém. Os políticos burgueses, então? O governo gastou dinheiro com emendas para tentar votação e não conseguiu nada. O que se falou é que foram R$13 bilhões”, disse.
O dirigente também criticou Jaques Wagner. Para Pimenta, o PT já deveria ter se livrado do senador baiano antes mesmo da crise da indicação de Messias, por sua posição em defesa do sionismo.
“A posição política dele é incompatível com a profissão de fé que os dirigentes do PT fazem na democracia. Ele é uma pessoa que defende um bando de gente que é genocida, são criminosos. O PT tem sorte de que o movimento em defesa da Palestina e denúncia do sionismo no Brasil é muito difuso. É grande, há muita gente contra o sionismo, mas ele é difuso, ele não se centraliza, não há um movimento constante, porque senão a situação do Jaques Wagner ficaria insustentável dentro do governo”, disse.
Pimenta afirmou que Lula tenta administrar essa contradição, mas que o governo mantém “um pé em cada canoa” diante do problema palestino. Ele citou também Clara Ant, denunciando-a por organizar, no Itamaraty, um seminário favorável aos sionistas e à censura contra os defensores da Palestina.
Ao tratar da possibilidade de Lula romper com os aliados de direita, Pimenta afirmou que o problema não se resolve apenas com a demissão de indicados no governo. Segundo ele, a questão central é a orientação geral do governo e sua política de alianças.
“Não está em demitir quem está no governo, o problema está na orientação geral do governo. O governo tem que tomar uma decisão em relação à sua política de alianças. Se ele vai procurar manter essa política, apesar da traição que ele sofreu no Senado, ou se ele vai partir para uma outra coisa”, afirmou.
Segundo Pimenta, se for confirmada a ruptura de setores do Centrão com o governo Lula, a única saída será uma eleição semelhante à de 1989, contra toda a burguesia. “Eu acho que se confirmar que nós temos aí uma ruptura desse pessoal, não tem outra solução para o governo. O governo vai ter que ir para uma eleição como foi a eleição de 1989, contra toda a burguesia”, disse.
O presidente do PCO também comentou o afastamento de setores da esquerda em relação a Alexandre de Moraes. Para Pimenta, o envolvimento do ministro no caso Banco Master abalou a imagem fabricada em torno dele como defensor da democracia.
“Isso era a última gota d’água. Porque o Alexandre Moraes, o envolvimento dele no caso do Banco Master, abalou profundamente a imagem que foi criada do Alexandre Moraes como defensor da democracia. Ele ficou aí como um político burguês qualquer desses que estão no Congresso Nacional, gente que não vale nada. Agora, o pessoal olhava e falava assim: bom, é ruim, mas ele está do lado do Lula. Agora não está mais, agora ele está aliado ao Alcolumbre, eventualmente até o Flávio Bolsonaro. Então, deu uma facada nas costas do Lula. Então, eu acho que acabou esse casamento estranho entre a esquerda e Alexandre de Moraes, que isso aí sempre foi, na minha opinião, uma coisa meio grotesca”, afirmou.
Sobre a derrubada do veto ao chamado PL da Dosimetria, Pimenta afirmou que a aprovação pelo Congresso já era esperada, mas destacou que a derrota veio logo após a rejeição de Messias, o que demonstraria uma desautorização mais ampla do governo.
“Fizeram um acordo lá atrás, eu não tenho dúvida disso. O Lula vetou porque ele não vai aparecer a favor, naquela época em que estava o problema das sanções do Trump contra o STF. O que ficou claro é que havia um acordo de que eles iam liberar os bolsonaristas. Agora vamos ver. O Lula sofreu duas derrotas seguidas. O que me chama a atenção não é que ele tenha sofrido uma derrota nesse ponto. Isso aí, mais ou menos, era esperado. O que chama a atenção é que a derrota veio logo na sequência da primeira derrota. Quer dizer, como se o pessoal estivesse marcando uma desautorização geral do governo do Lula”, afirmou.
Pimenta também criticou campanhas genéricas contra o Congresso. Segundo ele, a denúncia deve ser feita contra partidos e figuras políticas concretas, e não contra a instituição de forma abstrata, pois isso pode favorecer a extrema direita.
“Eu acho que é um pouco despolitizada essa campanha, porque o Congresso é heterogêneo. E o pessoal do PT? Está no Congresso também. O pessoal do PSOL tem alguma coisa a ver com o que aconteceu? Não. No Congresso tem uma esquerda também. Eu acho que o correto é denunciar os partidos políticos envolvidos. O Congresso, enquanto instituição, não tem nada a ver. É uma campanha que pode jogar água no moinho da extrema direita. Não tem que ter Congresso. É um negócio colocado assim, é uma coisa antidemocrática”, disse.
Em seguida, completou: “a luta política tem que ser clara. Tem que dizer, dar nome aos bois, quem são os culpados? É o MDB, é o PP, é o Republicanos, os partidos políticos, partidos e personalidades”.
Ao tratar de sua pré-candidatura presidencial, Pimenta afirmou que a crise confirma a necessidade de uma mudança profunda na estrutura política nacional. Segundo ele, se Lula, conhecido por sua capacidade de articulação, não consegue indicar um nome ao STF, isso revela o bloqueio imposto pelas instituições atuais.
“Você vê o Lula, é o homem dos acordos e das articulações, não conseguiu indicar o nome que ele queria para o STF. O pessoal fala que o último caso foi com Floriano Peixoto, um caso quase único. Mostra que essas instituições são instituições engessadas, que precisaria haver mudança política no País, no sentido da estrutura política nacional. Que nós não devemos acreditar que com a atual estrutura política você vai conseguir efetivamente mudar o país. Para mim é uma coisa decisiva. Se o Lula não consegue fazer quase nada, imagine o resto. Ninguém vai acusar o Lula de falta de habilidade, de conversar com pessoal. Ele sempre fez essa política, ele fez muito acordo, ele foi sobrevivendo politicamente através dos acordos. Ele é o homem da política, a arte do possível, no sentido mais limitado imaginável do termo. Se ele não consegue, quem vai conseguir?”, declarou.
Na parte final da entrevista, Pimenta também abordou a importância da Rússia na luta contra o imperialismo. Segundo ele, a Rússia, antes de Vladimir Putin, caminhava para se tornar uma colônia do imperialismo, e a guerra na Ucrânia representou o maior desafio recente à ordem imperialista.
“A Rússia antes do Putin estava se transformando numa colônia, uma colônia do imperialismo. O governo do Iéltsin foi um desastre total, o país quase veio abaixo. Então, se você tem uma reestruturação, tudo bem, há muita coisa que poderia ser criticada no regime político russo, sem dúvida nenhuma, como em qualquer país também, não é que o russo é especialmente ruim. Mas uma coisa que a gente não pode deixar de lado é o fato de que os russos fizeram o maior desafio à ordem imperialista com a ocupação da Ucrânia”, afirmou.
Pimenta citou ainda a atuação russa no Máli e o apoio a governos nacionalistas. “Recentemente, no Máli, foram as tropas russas que ajudaram o governo do Máli contra uma insurreição que foi provocada pelo imperialismo para derrubar o governo. Quer dizer, os russos estão apoiando governos nacionalistas e que buscam uma independência, uma soberania em várias partes do mundo. Ajudaram Cuba. Poderiam ajudar mais? Poderiam. Mas a orientação da política russa contra o imperialismo, isso tem que ser defendido”, disse.
Ao comentar o ato de 1º de Maio realizado pelo PCO em São Paulo, Pimenta afirmou que a manifestação destacou o apoio ao Irã e à Palestina, além da solidariedade a Zé Maria, presidente do PSTU, condenado por racismo por criticar a existência do Estado de “Israel”.
“Nós fizemos um ato, e no nosso ato, procuramos destacar o problema internacional, o apoio ao Irã, o apoio à Palestina. Nós temos aí esse fato novo, que é a condenação do presidente do PSTU, Zé Maria, por racismo em relação ao problema da Palestina. Então, nós fizemos um ato como sendo um protesto contra essa situação. Fizemos uma passeata pelo centro”, afirmou.
Pimenta também criticou o esvaziamento das manifestações chamadas pelo governo federal, pelo PT e pela Central Única dos Trabalhadores (CUT). Para ele, a esquerda vem abandonando as ruas e abrindo espaço para a extrema direita.
“Eu acho que, antes de tudo, é um erro político do governo, em primeiro lugar, do PT, em segundo lugar, e, em terceiro lugar, da Central Única dos Trabalhadores. […] Eu acho que assim a esquerda vai abandonando as ruas, entregando as ruas para a extrema direita, que é uma coisa extremamente perigosa”, afirmou.





