Sob o título Pluralidade, conflito e o lugar da polarização na democracia, João Antonio da Silva Filho defende que a polarização é um fenômeno natural da pluralidade humana e que o desafio seria apenas “qualificar o debate” com respeito e diálogo. No entanto, uma análise fundamentada na realidade dos fatos revela que essa argumentação não passa de uma ilusão.
O erro central da tese reside em tratar a polarização como uma simples divergência de “pontos de vista” ou “visões de mundo”, como se a política fosse um seminário acadêmico. Ao afirmar que a divergência emerge da “pluralidade humana”, o texto ignora o fator determinante: o conflito de interesses materiais e sociais.
Não se trata de uma “multiplicidade de olhares” sobre a realidade, mas de uma realidade onde uma classe detém os meios de repressão e a outra é o alvo. Quando o senador Jaques Wagner fala em “extermínio” da resistência palestina, ou quando o Supremo Tribunal Federal (STF) condena uma cabeleireira a 15 anos de prisão, não estamos diante de uma “polarização saudável” que precisa de “diálogo”. Estamos diante de uma agressão unilateral. Chamar o choque entre opressores e oprimidos de “pluralidade” é um exercício de cinismo que serve apenas para higienizar o fascismo real.
O texto adversário propõe que a polarização deve ser “administrada” e que o limite da divergência seria a “desinformação” e as “fake news”. Aqui, a argumentação revela sua face mais perigosa. Esse é precisamente o vocabulário utilizado pelo Judiciário e pela direita “democrática” para justificar leis de censura e o cerceamento da Internet.
O pretexto de “qualificar o debate” é o que permite a figuras como Tabata Amaral proporem 12 anos de cadeia para quem critica o Estado de “Israel”. Ao aceitar que o Estado ou “especialistas” devem arbitrar o que é “intolerância” ou “distorção”, a tese adversária entrega o pescoço da esquerda ao carrasco. O “respeito” e a “disposição ao diálogo” exigidos são, na prática, exigências de submissão. Não há diálogo possível com quem defende o genocídio em Gaza ou a interdição do direito de opinião.
A tese de que devemos “aprimorar a forma” da polarização é uma tentativa de desmoralizar a luta real. Uma sociedade não se torna madura ao “administrar” conflitos, mas ao resolvê-los em favor da maioria oprimida. A “unanimidade burra” que o texto cita ironicamente parece ser o objetivo final dessa política de arente ampla: uma unanimidade em torno da obediência às instituições burguesas e ao silêncio diante dos crimes do imperialismo.





