O Islã xiita é a religião majoritária do Irã desde o século XVI. Por séculos, a hierarquia clerical xiita conviveu com os governos — ora em tensão, ora em acomodação. Essa relação se rompeu definitivamente durante a dinastia Pahlevi. Ao atacar as instituições religiosas, confiscar suas terras e tentar impor uma modernização forçada à sociedade iraniana, o regime criou uma oposição que não conseguiria mais controlar.
O PCO realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A História do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Universidade Marxista. O papel do clero xiita na revolução de 1979 é um dos grandes temas do curso, ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO.
A ruptura entre o Estado e a hierarquia clerical começou com Reza Xá, pai do ditador derrubado em 1979. Inspirado pelo secularismo de Atatürque na Turquia, Reza Xá proibiu o ensino do Alcorão nas escolas, determinou a retirada forçada do véu das mulheres nas ruas e suprimiu com violência um movimento organizado pelo clero em Mashhad em 1935. O golpe decisivo viria décadas depois, com a reforma agrária dos anos 1960, que redistribuiu as terras de propriedade das mesquitas e seminários. As instituições religiosas perderam sua base material ligada ao Estado e à propriedade fundiária.
A dependência que gerou a revolução
Essa ruptura teve uma consequência que o imperialismo não previu. Separadas do Estado e da terra, as instituições xiitas passaram a depender diretamente do imposto religioso pago voluntariamente pelos fiéis. Conforme a crise econômica crescia e as condições de vida nas cidades pioravam, o clero se tornava cada vez mais ligado à massa de trabalhadores recém-chegados do campo. Eram os únicos que os financiavam. Eram também os únicos que os ouviriam.
Os clérigos xiitas não tinham mais nada a negociar com o regime. Sua sobrevivência dependia dos trabalhadores, e não do Estado. Esse é o fundamento material que explica por que os aiatolás, e não os partidos de esquerda tradicionais, foram capazes de dirigir a revolução de 1979.
Khomeini e o movimento dos anos 1960
A oposição xiita organizada reapareceu com força na década de 1960, quando o Xá lançou sua chamada “revolução branca”, um programa de reformas modernizantes. Em outubro de 1962, o governo publicou um decreto para eleições municipais que eliminava a exigência do Islã como condição para eleitores e candidatos. Khomeini reagiu com vigor, denunciando o decreto como um ataque ao Islã e às relações com “Israel”. Grandes mobilizações de seus seguidores foram brutalmente reprimidas em junho de 1963. O próprio Khomeini foi preso e exilado na Turquia em novembro de 1964, indo depois para o Iraque.
As reformas do Xá não podem ser tratadas como política progressista. Assim como na ditadura militar brasileira, eram a forma mais reacionária de administrar o desenvolvimento econômico do país. O fato de que um clérigo conservador conseguiu construir um grande movimento político contra esse governo revela até que ponto as questões religiosas eram a expressão ideológica de uma insatisfação muito mais ampla.
Do exílio, um programa cada vez mais político
Do Iraque, Khomeini continuou liderando o movimento contra a ditadura. Suas críticas foram ficando cada vez mais políticas. O centro de seu ataque era o governo autocrático do Xá, a subserviência aos EUA e a dominação cultural imperialista sobre o Irã. O paralelo com a teologia da libertação na América Latina é direto: um nacionalismo religioso com forte influência da classe operária, voltado contra o imperialismo, sem uma esquerda tradicional com a qual se aliar.
Khomeini publicava jornais e panfletos que circulavam entre os trabalhadores urbanos. Seu principal público era exatamente a gigantesca massa de camponeses que haviam se tornado operários nas cidades. Esse grupo protagonizaria as mobilizações da revolução — e foi essa ligação orgânica com os trabalhadores que deu ao clero xiita a capacidade de dirigir o processo quando ele explodiu.
O curso A História do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.




