A Polícia da Bolívia prendeu, em El Alto, Bernabé Gutiérrez, atual responsável pelo comitê de conflitos dos Ponchos Rojos, organização ligada à Federação de Camponeses Túpac Katari. Gutiérrez foi levado para celas da Força Especial de Luta Contra o Crime (FELCC), em La Paz, onde aguarda audiência de medidas cautelares.
A prisão ocorre em meio à repressão do governo de Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, contra os protestos que exigem sua renúncia. As mobilizações completaram 36 dias na sexta-feira (5) e chegaram a mais de 80 bloqueios em rodovias. No sábado (6), as mobilizações seguiram em diferentes pontos do país.
O governo denunciou Gutiérrez por suposta “instigação à tomada de armas durante as mobilizações” e pela mera divulgação de vídeos em Achacachi nos quais aparecem pessoas encapuzadas portando armas. Não foi confirmada a data da audiência que definirá a situação jurídica do dirigente.
Gutiérrez se soma a outros dirigentes presos durante a ofensiva do governo. Entre eles estão a ex-senadora Simone Quispe, do Movimento ao Socialismo (MAS), Justino Apaza, secretário-executivo da Federação de Conselhos de Bairros de La Paz, e Yesenia Varga, dirigente de uma federação de camponeses de Cochabamba.
A Procuradoria boliviana também pediu a prisão de Vicente Salazar, dos Ponchos Rojos, e de Mario Argollo, presidente da Central Operária Boliviana (COB). Argollo declarou que passaria à clandestinidade diante da perseguição. As duas ordens de prisão foram posteriormente revogadas pela Justiça.
Organizações sociais bolivianas classificam as prisões como “sequestros” e exigem a libertação dos detidos. O governo, por sua vez, tenta enquadrar os manifestantes em crimes como “terrorismo” e “instigação pública para delinquir”, expediente típico de regimes que procuram tratar reivindicações populares como caso de polícia.
Segundo a Defensoria do Povo da Bolívia, entre 1º de maio e 2 de junho, 365 pessoas foram presas em operações relacionadas a bloqueios e mobilizações em diferentes regiões do país. Desse total, 247 foram libertadas, enquanto 118 permanecem em diferentes situações jurídicas.
A mesma Defensoria informou que 10 pessoas fora mortas mortes em “fatos vinculados à crise”, supostamente ainda em processo de verificação — desculpa para não admitir que foram assassinados pelas forças de repressão do Estado boliviano. O órgão também contabilizou 37 feridos durante as mobilizações e operações policiais, entre policiais, manifestantes, pedestres e dois jornalistas. Os registros incluem ferimentos por projéteis, explosões de dinamite, golpes e efeitos de agentes químicos.
Até 2 de junho, a Defensoria havia registrado 103 pontos de bloqueio em sete departamentos, com maior incidência em Cochabamba e La Paz. Na sexta-feira (5), a Administradora Boliviana de Rodovias (ABC) registrou 81 bloqueios em La Paz, Cochabamba, Potosí, Oruro, Santa Cruz e Chuquisaca.
A mobilização reúne camponeses, professores, mineiros e outras organizações populares. O movimento começou contra a qualidade do combustível fornecido pelo governo e cresceu após a promulgação de uma lei sobre terras. Camponeses afirmam que a medida favorece o agronegócio e prejudica pequenos proprietários.
A crise política também avançou no Parlamento. Na última semana, o Congresso boliviano derrubou a lei que limitava o estado de exceção e passou a discutir um novo projeto enviado pelo Executivo. O texto já havia sido aprovado no Senado e seguia em debate na Câmara de Deputados.
Governo mobiliza polícia, exército e grupos de extrema direita
A repressão teve mais um episódio truculento em San Julián, no departamento de Santa Cruz. No sábado (6), forças conjuntas da polícia e do exército realizaram uma agressão para desbloquear a estrada que liga Santa Cruz da Serra à Chiquitania e ao departamento de Beni.
O operativo começou por volta das 6 horas e teve a participação de mais de 500 agentes, segundo relatório oficial preliminar. Os bloqueios, no entanto, foram reinstalados após mais de quatro horas de enfrentamentos.
O Hospital de San Julián informou que 26 pessoas ficaram feridas entre os camponeses. Dois pacientes estavam em estado grave, incluindo um morador atingido por projétil na cabeça, transferido para Santa Cruz para atendimento especializado. Também foram registrados ferimentos provocados por projéteis e balins.
A Polícia alegou que dois agentes foram feridos por disparos e que os efetivos deslocados para a operação usavam apenas equipamentos antimotim. Já relatos locais apontaram o uso de gases lacrimogêneos e balins contra os manifestantes.
Um dos fatos mais graves foi a participação de integrantes da União Juvenil Cruceñista (UJC), grupo fascista de Santa Cruz, nas ações contra os manifestantes. Imagens divulgadas na Bolívia mostram policiais permitindo que civis da UJC utilizassem gases lacrimogêneos de uso exclusivo policial.
O vereador de San Julián Daniel Sánchez denunciou o uso de grupos paramilitares para reprimir manifestantes nos pontos de bloqueio. Ele também denunciou o presidente da União Juvenil Cruceñista por incitar uma guerra civil por meio de ações contra a população mobilizada.
Até mesmo o vice-presidente boliviano, Lara, criticou a presença de civis cruceñistas em operações de segurança. Em comunicado, afirmou que era “inaceitável” que a Polícia Boliviana e as Forças Armadas permitissem a presença de grupos civis com artefatos explosivos em meio a operações oficiais.
“A Constituição Política do Estado é clara: a Polícia Boliviana deve defender a sociedade e preservar a ordem pública. Não foi criada para permitir que grupos civis intervenham em operativos de segurança”, afirmou Lara.
O vice-presidente também declarou que “não se podia utilizar civis para confrontar outros civis nem substituir o diálogo pela confrontação”. Para ele, “San Julián não precisava de explosivos” e a Bolívia precisava de “autoridade responsável, respeito à lei e diálogo”.
EUA apoiam repressão
A ofensiva repressiva do governo Paz recebeu apoio explícito dos Estados Unidos. O secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, publicou uma declaração em defesa do governo boliviano e associou os protestos ao narcotráfico.
“Os Estados Unidos estão observando. A Bolívia não deve se permitir cair na armadilha do antigo estado de coisas de domínio narco-terrorista na região”, afirmou Hegseth.
O secretário norte-americano também declarou que os EUA continuarão a apoiar seus parceiros da chamada Coalizão Contra o Cartel das Américas, incluindo a Bolívia, “para garantir que os narco-terroristas sejam dissuadidos de lucrar com a morte e a destruição em nosso hemisfério”.




