Em texto recente, o sociólogo Emir Sader, ao perguntar por que a popularidade de Lula não decola apesar dos “bons índices econômicos”, tropeça no próprio cadarço ao tentando encontrar explicações metafísicas para um fenômeno que é, essencialmente, político e material.
Sader abre seu texto comemorando índices de inflação e desemprego, como se a vida do trabalhador brasileiro fosse medida por planilhas do Excel produzidas pelo Ministério da Fazenda. O que Sader e a ala governista do Partido dos Trabalhadores (PT) não querem enxergar é que o “crescimento” que eles celebram é uma migalha comparada aos lucros recordes do setor financeiro.
Enquanto o governo se mantém fiel ao tal equilíbrio fiscal e se recusa a enfrentar a política de juros criminosa do Banco Central, o custo de vida real nas periferias continua esmagador. O povo não está “alienado”, como sugere Sader; o povo está sentindo que, apesar da saída de Jair Bolsonaro (PL), a miséria permanece.
Para Sader, o problema é de “comunicação”. É o velho vício da pequena burguesia: acreditar que a política é uma peça publicitária. Ele afirma que o “enigma” da rejeição a Lula se resolve com propaganda.
Mentira. O prestígio de um governo de esquerda não se desenvolve com bons assessores de imprensa, mas com medidas de impacto que mudem a vida das massas. Se o bolsonarismo continua vivo, é porque ele se alimenta da frustração de uma população que vê a esquerda se tornar a maior defensora das “instituições” — o Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Militar (PM), a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público (MP), inimigos de classe dos trabalhadores.
Sader reclama da “repulsa ao Estado”, atribuindo isso a uma herança neoliberal. O que ele não diz é que, para o morador da favela ou para o operário, o Estado se apresenta na forma do fiscal de impostos e do cassetete da polícia.
Ao transformar a esquerda na “polícia do pensamento” e nos maiores entusiastas da repressão judicial em nome da “democracia”, figuras como Sader empurram a revolta popular diretamente para o colo da extrema direita. O povo odeia o Estado porque o Estado é, por definição, o instrumento de opressão da burguesia. Tentar “reabilitar” a imagem do Estado burguês sem transformá-lo é uma tarefa de Sísifo que só serve para desarmar a classe operária.
No Brasil, vê-se que a frente é um cemitério das lutas populares. Lula fez questão de se apresentar como amigo de Geraldo Alckmin e de Alexandre de Moraes. O governo está amarrado. Como se pode esperar um apoio de 70% se o governo gasta metade do seu tempo tentando provar ao grande capital que é bem-comportado?
Sader termina seu texto preocupado com a reeleição em 2026. Ele tem razão em estar preocupado. Com a política da frente ampla, a extrema direita tende a crescer exponencialmente à medida em que se agrave a situação econômica do País.





