Simone Souza

Psicóloga e Psicanalista com ampla experiência clínica em saúde mental, gestão de pessoas e políticas públicas. Especialista em prevenção à violência de gênero, proteção social e reinserção social

Coluna

Desenvolvimento e violência: o que a China nos ensina (e o que esconde)

Um ensaio a partir da experiência pessoal e da militância

O Cansaço de Quem Vê

Quando você tem interesse em alguma coisa, o algoritmo te envia postagens sobre seu interesse — obviamente, se for do interesse do algoritmo. Desse modo, recebo muitos posts sobre violência contra mulheres. Além disso, minha experiência profissional sempre me colocou diante do problema das violências. Confesso que estou bem cansada, porque sei que a tendência é o aumento das violências, todas elas, pois é isso que o aprofundamento da crise do capitalismo entrega ao povo pobre e trabalhador: desemprego, subempregos, carestia, fome, miséria.

Não é pessimismo. É constatação. Cada novo dado sobre feminicídio, cada relato de companheira que apanha em casa, cada mãe solo que não consegue emprego porque precisa cuidar dos filhos — tudo isso é sintoma de um sistema que precisa da nossa exploração para sobreviver.

Mas eu não quero apenas denunciar. Quero entender. E foi por isso que olhei para a China.

Um país que, em 1949, tinha uma renda per capita anual de apenas 27 dólares. Em 1978, 770 milhões de pessoas viviam na pobreza extrema — 97,5% da população rural. Em 2020, a China anunciou a eliminação da pobreza extrema, tirando 98,99 milhões de pessoas da pobreza em oito anos. Isso significa que, em média, mais de 12 milhões de pessoas superaram a pobreza a cada ano. Essa conquista histórica representa cerca de 70% da redução da pobreza global no período e fez com que a China atingisse a meta de redução da pobreza da ONU 10 anos antes do prazo.

Diante desses fatos, me perguntei: as mulheres tiveram algum benefício com tal desenvolvimento? E, se sim, esse benefício refletiu na diminuição da violência contra elas?

A pergunta não é inocente. Ela vem de uma suspeita: o capitalismo pode até melhorar indicadores, mas as relações entre os sexos — essas, ele não transforma. Ele só administra.

O Que os Números Dizem

Com base em pesquisas acadêmicas recentes, o desenvolvimento do país melhorou a situação econômica das chinesas, e esse fator refletiu na redução da violência doméstica. Vejamos.

  1. A Queda da Violência Doméstica

Um estudo de 2025 analisou a dinâmica da violência doméstica na China entre 1990 e 2010, utilizando dados nacionais de 29.995 mulheres. Os resultados mostram uma queda substancial da prevalência geral: de 26,7% em 1990 para 5,4% em 2010.

A queda foi mais acentuada nas áreas rurais, onde a pobreza era maior: de 31,9% para 7,8%. Nas áreas urbanas, a queda foi de 21,4% para 3,2%. Ou seja, onde a pobreza era mais profunda, a melhora foi mais intensa. Isso já nos dá uma pista: a pobreza e a violência andam juntas.

  1. A Relação com a Melhora Econômica

A mesma pesquisa aponta que essa tendência de queda está ligada a mudanças sociais amplas: legislação, educação em saúde pública e, crucialmente, melhorias no status socioeconômico das mulheres.

Ou seja: mulheres com mais renda, mais educação e mais emprego sofrem menos violência. Parece óbvio, mas a realidade é cruelmente mais complexa.

  1. Como o Empoderamento Econômico Atua na Redução da Violência

Outro estudo de 2025 investigou o impacto da introdução de robôs industriais na China. A automação contribuiu para a redução do risco de violência doméstica ao aumentar o nível educacional, o emprego e a renda das mulheres, fortalecendo seu “poder de barganha” dentro de casa.

Mas atenção: os robôs também melhoraram o bem-estar psicológico dos homens. Ou seja, parte da redução da violência ocorre porque os homens ficam menos estressados ao não precisar sustentar a família sozinhos. A violência diminuiu, mas as relações de poder? Essas permanecem intactas.

Uma pesquisa de 2022 sobre a Lei Anti-Violência Doméstica de 2016 mostrou que a lei aumentou significativamente a satisfação de vida das mulheres casadas. O efeito foi maior para mulheres com salários mais altos e melhor educação. Ou seja: a lei protege mais quem já tem condições de se proteger. As mais pobres, as mais vulneráveis, continuam à mercê da sorte.

  1. O Lado Obscuro: Trabalho Precário e Violência

Aqui está o ponto que me fez confirmar minha suspeita mais profunda.

Um estudo de 2025, utilizando dados de 2010, aponta que condições de trabalho precárias e perigosas — exposição a toxinas, poeira, ruído — podem aumentar o risco de violência por parceiro íntimo. O motivo? Os danos à saúde da mulher.

Ou seja: o desgaste físico e psicológico gerado por um trabalho insalubre é o fator que aumenta a vulnerabilidade da mulher à violência dentro de casa — e não o fato de ela ter um emprego ou o valor que ela ganha.

Isso é brutal. A mulher trabalha, se esforça, se sacrifica, adoece no trabalho. E quando chega em casa, ainda apanha. O capitalismo a explora na fábrica e a deixa vulnerável no lar. A renda não a protege se sua saúde é destruída.

O Que Isso Nos Diz Sobre o Capitalismo

Analisando todas essas informações, chego a algumas conclusões que, para mim, são evidentes.

Primeiro: mesmo em um país com forte presença do Estado, mas ainda capitalista, as mulheres continuam em desvantagem. A melhora econômica das mulheres causa um bem-estar nos homens — não porque eles se tornaram mais respeitosos, mas porque foram aliviados do fardo de sustentar sozinhos a família. A violência diminui, mas a opressão permanece.

Segundo: o desenvolvimento industrial gera o crescimento da mulher, mas, ao gerar problemas de saúde, a mulher fica vulnerável. Mesmo tendo boa renda, ela sofre violência doméstica. Por quê? Porque os homens não estão dispostos a cuidar. Essa tarefa — o cuidado — historicamente é designada às mulheres. Quando a mulher adoece, ela não encontra acolhimento. Encontra violência.

Terceiro: a maternidade continua sendo uma barreira intransponível para muitas. Conheço mulheres que abdicaram de ser mães para investir na carreira — e ainda assim encontraram dificuldades. O capitalismo não valoriza o cuidado. Ele o explora. A mãe solo é a mais vulnerável, a mais pobre, a que mais sofre. Não é coincidência.

Conclusão: Dentro do Capitalismo Não Há Salvação

Não venho aqui com pessimismo. Venho com lucidez.

A China nos mostrou que políticas públicas fortes podem reduzir a pobreza e a violência. Isso é fato. A redução da violência doméstica na China é real, e isso deve ser reconhecido. O Estado chinês fez o que muitos Estados capitalistas neoliberais não fazem: investiu, planejou, retirou seu povo da miséria.

Mas também nos mostrou os limites do capitalismo, mesmo com forte presença estatal. As relações de gênero não foram transformadas. A violência diminuiu, mas não porque os homens aprenderam a respeitar as mulheres. Diminuiu porque os homens ficaram menos estressados. O cuidado continua sendo um problema feminino. A saúde da mulher continua sendo desprezada. A maternidade continua sendo um obstáculo.

O capitalismo não supera a violência, ele o gerencia.

Ele nos dá tréguas, mas não nos liberta. A mulher chinesa hoje tem mais renda, mais educação, mais emprego. Mas ela ainda é a principal responsável pelo cuidado. Ainda é a que adoece no trabalho e apanha em casa. Ainda é a que precisa escolher entre a maternidade e a carreira.

A emancipação das mulheres — a verdadeira, a completa — exige mais do que desenvolvimento econômico. Exige a superação do capitalismo. Exige uma sociedade onde o cuidado seja coletivo, onde o trabalho não adoeça, onde a violência não seja uma resposta ao estresse masculino.

Dentro do capitalismo não há salvação. Há apenas gerenciamento da crise.

E nós, mulheres, estamos cansadas de ser gerenciadas.

Queremos ser livres.

Rosa Luxemburgo, que nos inspira, dizia: “Liberdade é sempre a liberdade daqueles que pensam diferente.”

Eu acrescento: liberdade é também a liberdade das que trabalham, das que cuidam, das que adoecem e ainda assim resistem.

E essa liberdade, companheiras, não virá do mercado. Virá da luta.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.