Dirigentes bolivianos denunciaram a participação dos Estados Unidos na repressão aos protestos contra o governo de Rodrigo Paz. As denúncias envolvem apoio logístico, militar e de inteligência, além de operações de espionagem contra organizações populares, trabalhadores, professores, camponeses e dirigentes mobilizados.
O dirigente político boliviano Christian Velasco afirmou que militares ligados à embaixada dos Estados Unidos e ao Comando Sul estão orientando o Ministério da Defesa e as Forças Armadas da Bolívia sobre como agir contra bloqueios, marchas e protestos.
“Queremos denunciar que nosso país está sequestrado pelos Estados Unidos e está sendo cometida uma grave ingerência em assuntos de bolivianas e bolivianos”, declarou Velasco.
Segundo o dirigente, a presença norte-americana no país está vinculada à política de entrega dos recursos naturais bolivianos, em especial o lítio, em troca de apoio militar ao governo. A denúncia ocorre em meio a quase um mês de protestos populares pela renúncia de Rodrigo Paz e contra as medidas neoliberais aplicadas pelo governo.
“Militares do Comando Sul estão dizendo ao comando militar das Forças Armadas Bolivianas como devem intervir nos bloqueios, nas marchas e nos protestos”, afirmou Velasco.
O dirigente também denunciou que aviões que entram no país sob o pretexto de transportar ajuda humanitária estão levando militares norte-americanos para atuar na repressão.
“Denunciamos que estão utilizando voos com suposta ajuda humanitária para ingressar militares dos Estados Unidos que vêm massacrar o povo boliviano”, disse.
As denúncias também envolvem a instalação de uma estrutura de espionagem da população. Segundo Velasco, antenas de telecomunicações localizadas em Cochabamba e La Paz foram usadas para monitorar comunicações e tráfego de dados de pessoas que participam das manifestações.
O vice-presidente da Coordenadora das 6 Federações do Trópico de Cochabamba, Dieter Mendoza, também denunciou operações ilegais de espionagem dos Estados Unidos na Bolívia, com uso de equipamentos de alta tecnologia, como o Stingray, aparelho utilizado para interceptar comunicações telefônicas.
“Denunciamos à comunidade internacional e ao povo boliviano. Os Estados Unidos estão operando de maneira ilegal, retirando nossa soberania. Há uma ingerência direta em nossa segurança”, afirmou Mendoza, em entrevista coletiva.
Segundo a denúncia apresentada pelo dirigente, apenas em Cochabamba os Estados Unidos intervieram em 296 antenas de comunicação das empresas Entel e Tigo. Mendoza afirmou ainda que o centro de inteligência da operação está em uma área triangular entre os departamentos de Santa Cruz, Beni e Cochabamba, nas proximidades da comunidade de Candoa.
“Temos a localização exata”, disse o dirigente, ao exigir uma investigação imediata das instituições nacionais e de organismos internacionais.
Mendoza afirmou que o principal alvo da operação é o movimento social do Trópico de Cochabamba, região historicamente ligada à defesa dos recursos naturais e ao ex-presidente Evo Morales. Segundo ele, a espionagem tem como objetivo perseguir e capturar dirigentes que atuam nas mobilizações.
“Está dirigido a perseguir, capturar os principais dirigentes que saem em defesa da pátria, da vida e dos recursos naturais”, afirmou.
O dirigente acrescentou que a operação atinge especialmente trabalhadores, professores, setores populares e organizações mobilizadas contra o governo.
“Especialmente os setores sociais, setores populares, operários, professores, que hoje nos encontramos mobilizados. Estamos sendo espionados por alta tecnologia. Isso não pode ser”, declarou Mendoza.
A presidenta da Coordenadora das 6 Federações do Trópico de Cochabamba, Wilma Colque, relacionou as operações denunciadas à tentativa de entregar recursos estratégicos, como o lítio e as terras raras, a empresas transnacionais.
“É por isso que o povo boliviano, o campo, a cidade, mulheres, toda a família boliviana devemos sair para defender nossos recursos naturais. E, se o governo decreta o estado de exceção, todos devemos sair com mais força para nos mobilizar, para defender. Não podemos permitir que, por meio dos Estados Unidos, a Bolívia seja o quintal e que daqui explorem como nos tempos de colônia”, afirmou Colque.
Mendoza questionou a conivência do governo de Rodrigo Paz com a presença norte-americana no país.
“Por que o governo está permitindo uma espionagem em nosso país?”, perguntou.





