A desigualdade, sem dúvida, é uma chaga infeliz que há muito assola nossa estrutura social. Violência, estado policialesco, censura e miséria formam um combo implacável que desce goela abaixo de uma população que, muitas vezes, vende o almoço para comprar o jantar.
É nesse cenário de desigualdade e vulnerabilidade social que tragédias deixam de parecer acontecimentos isolados e passam a revelar as engrenagens de uma sociedade profundamente desigual.
Dez pessoas morreram e dezenas ficaram feridas no tombamento de um ônibus de turismo ocorrido na madrugada de domingo, 16 de agosto de 2026, no km 91 da BR-040, na descida da serra em Petrópolis (RJ). O veículo havia saído de Belo Horizonte (MG) com destino a Copacabana, no Rio de Janeiro. Sobreviventes relataram possíveis imprudências na condução do veículo. Mais grave ainda: a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) classificou a viagem como clandestina.
A eventual responsabilidade do motorista, da empresa, de responsáveis pela manutenção do ônibus ou de outros envolvidos ainda precisa ser devidamente apurada. Mas uma questão já se impõe: como uma viagem destinada a transportar pessoas pode operar à margem das regras que deveriam justamente garantir a segurança dessas mesmas pessoas?
A paz e a alegria de uma viagem são roubadas pela irresponsabilidade social, transformando um momento de lazer em luto, dor e desesperança. Quando a segurança se torna secundária diante da economia, da informalidade ou da ausência de fiscalização, a vida humana corre o risco de ser tratada como simples variável de custo.
E a violência que atravessa nossa sociedade não se manifesta somente nas estradas.
Na noite de 11 de agosto, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, foi brutalmente espancado durante cerca de nove minutos, após ser apontado como suposto ladrão por um segurança de um estabelecimento. Cláudio estava com a bicicleta da irmã e havia parado em frente a uma loja, na esquina das ruas Barata Ribeiro e Belford Roxo.
O delegado responsável pelo caso classificou o episódio como um homicídio triplamente qualificado, marcado por crueldade, motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima.
Um homem morreu vítima de uma barbárie que não deveria encontrar espaço em nenhuma sociedade que se pretenda civilizada.
A barbárie está em cada esquina, penso: E se fosse meu filho? E se fosse seu filho?
Essa pergunta talvez seja mais incômoda do que qualquer estatística. Porque, quando a violência deixa de ser uma notícia distante e passa a ter o rosto de alguém que amamos, compreendemos a dimensão humana de uma sociedade que naturaliza o sofrimento alheio.
O que une tragédias aparentemente tão diferentes? Talvez seja justamente a condição de vulnerabilidade diante de estruturas nas quais a vida humana nem sempre ocupa o primeiro lugar.
Talvez seja possível enxergar nossa realidade como uma espécie de Cérbero contemporâneo, o cão mitológico de três cabeças que guardava as portas do inferno.
A primeira cabeça é a DESIGUALDADE: aquela que condena parte da população à precariedade, à fome, à falta de oportunidades e à necessidade de aceitar condições que jamais seriam toleradas por aqueles que podem escolher.
A segunda cabeça é a VIOLÊNCIA: aquela que aparece nas ruas, nos linchamentos, nos assassinatos, na brutalidade cotidiana e na perigosa substituição da Justiça pela vingança.
A terceira cabeça é a OPRESSÃO: aquela que se manifesta quando estruturas de poder, em vez de protegerem a sociedade, passam a controlar, intimidar, silenciar ou restringir direitos.
Três cabeças. Três faces de um mesmo monstro social.
Os capitães do mato de uma colonial lógica de dominação parecem sobreviver sob novas formas, enquanto a imagem metafórica de uma Gestapo opressora paira sobre estruturas que deveriam existir para proteger, e não para subjugar.
Mas nenhuma sociedade pode construir paz sobre o medo, nem democracia sobre a desigualdade extrema.
Enquanto alguns puderem comprar segurança, transporte, proteção e justiça, enquanto outros tiverem de enfrentar riscos que jamais escolheram, continuaremos alimentando as três cabeças de Cérbero.
Desigualdade. Violência. Opressão.
E talvez a pergunta mais urgente seja justamente esta: quantas tragédias ainda serão necessárias para que a vida humana deixe de ser tratada como mercadoria e passe, finalmente, a ser reconhecida como prioridade?




