Chuvas fortes provocaram pontos de inundação e falta de luz em bairros da capital paranaense na segunda-feira (29), expondo falhas de prevenção. O episódio atingiu famílias na região do Caximba e deixou moradores do Novo Mundo sem fornecimento elétrico durante a tarde, antes da normalização parcial do serviço.
Na região do Caximba, um dos pontos mais atingidos foi a Rua Francisca Beralde Paolini, no bairro Campo de Santana. Cinco casas foram afetadas, e as famílias receberam lonas, colchões e atendimento emergencial da Prefeitura de Curitiba. Equipes da Defesa Civil, da Fundação de Ação Social (FAS) e da Regional Tatuquara foram acionadas. A prefeitura informou que galerias de águas pluviais estavam bloqueadas por lixo e que a desobstrução permitiu o escoamento da água, reduzindo os pontos de alagamento.
A existência de alagamentos recorrentes em áreas vulneráveis revela a ausência de um sistema público permanente de prevenção, manutenção e resposta. A população só aparece para o poder público depois que a água entra nas casas. Não há um plano estruturado para impedir a repetição desse tipo de dano, com redes de drenagem dimensionadas, limpeza regular, fiscalização, obras preventivas e atendimento rápido antes da água atingir moradias.
No mesmo dia, o bairro Novo Mundo sofreu falta de energia elétrica durante a tarde. Segundo a Copel, a interrupção esteve associada às condições climáticas registradas desde a madrugada, com ventos fortes e descargas atmosféricas. A empresa informou que cerca de 1,7 mil unidades consumidoras eram afetadas no momento da nota, embora o número já tivesse chegado a 2,8 mil. O fornecimento foi normalizado posteriormente.
A energia elétrica em Curitiba é distribuída pela Copel Distribuição, ligada à Copel. A companhia deixou de ser estatal controlada pelo governo do Paraná em 2023. Hoje, tem capital pulverizado, e o Estado mantém participação minoritária em ações ordinárias, além de uma ação especial com poder de veto em temas estratégicos. Na prática, trata-se de uma companhia privatizada, cujo funcionamento passa a ser orientado por interesses privados e pela remuneração de acionistas, não pelas necessidades diretas da população.
No caso de água e esgoto, a concessionária é a Sanepar. A empresa é sociedade por ações, tem capital privado e ações negociadas em bolsa, embora o controle votante permaneça com o Estado do Paraná. Não é correto, portanto, dizer que a Sanepar está privatizada no controle. Ainda assim, sua forma empresarial e a presença de acionistas privados pressionam a gestão para critérios de rentabilidade, o que entra em contradição com a necessidade de planejamento público amplo.
A situação de Curitiba mostra dois problemas distintos. Para os alagamentos, é necessário um sistema de prevenção de enchentes e drenagem urbana que funcione antes do desastre. Para a energia, deveria haver um plano de reforço, manutenção e proteção da rede contra eventos climáticos previsíveis. Nenhuma cidade pode ficar totalmente vulnerável à chuva, vento ou descargas atmosféricas como se fossem fatos imprevisíveis que provocam danos inevitáveis.
O sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, apesar de falhas graves de manutenção que permitiram entrada de água por comportas, mostra que obras públicas de contenção e prevenção são possíveis. Muros, diques, casas de bombas, manutenção constante e protocolos adequados, caso tenham a manutenção em dia, reduzem drasticamente a exposição da população. O problema, portanto, não é incapacidade técnica ou inviabilidade econômica. É negligência acumulada por prefeituras, governos estaduais e companhias privatizadas que lucram com a precariedade dos serviços.



