Centro Cultural Benjamin Péret

Confira fala de Rui Pimenta no debate sobre a guerra contra o Irã

Atividade contou com participação também de Breno Altman, do Opera Mundi, e de Robinson Farinazzo, do Arte da Guerra

Neste sábado (4), ocorreu, no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), o debate Guerra contra o Irã: abaixo a agressão imperialista, que reuniu o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), bem como o comandante Robinson Farinazzo, do canal Arte da Guerra, e Breno Altman, editor do Opera Mundi.

Leia na íntegra a fala do dirigente do PCO:

Boa noite, companheiros. Queria primeiramente agradecer a presença dos companheiros, do companheiro Breno, do companheiro Robinson Farinazzo, que aceitaram o convite para esse — não é bem um debate como nós esclarecemos aí — é mais um painel de opiniões. Na minha opinião, é uma mesa de altíssimo nível no que diz respeito à análise internacional no Brasil. E eu espero que a diversidade dos pontos de vista, que de qualquer maneira estão amparados aí por uma concepção comum no que diz respeito à essência do problema da guerra do do imperialismo contra o Irã. Eu espero que essa diversidade de pontos de vista seja interessante para aprofundar a compreensão dos companheiros do do desse fenômeno, que é um fenômeno que promete ser uma um ponto de inflexão na situação política mundial.

Eu queria não tocar nos aspectos da guerra. Nós temos falado muito sobre isso em várias oportunidades. Queria pegar alguns aspectos mais gerais que, na minha opinião, são importantes para esclarecer o problema do conflito. Primeira questão que na minha opinião deve nós devemos chamar atenção é que esse acontecimento bastante significativo que nós estamos vendo, um enfrentamento militar entre o imperialismo e um país atrasado, onde o imperialismo se encontra numa entalada, se encontra — nós podemos dizer até que ele entrou entrou numa espécie de pântano militar do qual ele não consegue sair. Um acontecimento surpreendente, um acontecimento muito fora do comum. Queria chamar a atenção de que a origem desse acontecimento é uma revolução. Nada disso que nós estamos assistindo aqui hoje, o poderio militar iraniano, as represálias contra os ataques traiçoeiros e criminosos do imperialismo. Nada disso existiria não fosse a revolução iraniana de 1979.

Marx dizia que as revoluções são a locomotiva da história. Então, nós temos aqui a oportunidade de ver o significado dessa frase. Sem revolução, nós não estaríamos, nós não estaríamos assistindo o que nós estamos assistindo hoje. A revolução iraniana, diferentemente do que muita gente pode pensar — faz tempo que nós não vemos uma revolução de verdade — ela foi uma verdadeira revolução no sentido mais pleno da palavra. Foi uma comoção nacional que não apenas derrubou uma ditadura odiosa, que era a ditadura do do chá, uma ditadura sangrenta e criminosa, sustentada pelo imperialismo, não apenas derrubou essa ditadura, como subverteu toda a estrutura política e econômica do Irã. É da é dessa revolução, desse fato político fundamental que surge esse fenômeno que para muitas pessoas que não acompanham muito a política internacional pode parecer muito surpreendente. De repente do nada surge um poder militar que é capaz de enfrentar — ainda que nós sabemos que isso é relativo, mas numa determinada circunstância — o imperialismo. Na origem de tudo isso, nós temos uma revolução e uma revolução muito importante.

A revolução iraniana, ela faz parte de um ciclo revolucionário. Nós poderíamos até dizer o último ciclo revolucionário que o mundo conheceu, que vem na esteira da crise capitalista de 1974. Nós tivemos várias revoluções, nós tivemos a revolução na Nicarágua. Nós tivemos a revolução em Salvador, nós tivemos uma revolução na Polônia, que vai ser o ponto de partida da do colapso dos países do Leste Europeu alinhados com a União Soviética e da própria União Soviética. Aquele foi um período de grande comoção política. No Brasil, por exemplo, é o momento em que a ditadura também vai entrar em colapso, a ditadura brasileira. No Brasil, nós não tivemos uma revolução, mas tivemos uma situação revolucionária que colocou em cheque cheque mate, a gente poderia dizer, a ditadura militar estabelecida em 64. De todo esse ciclo revolucionário que atingiu quase todos os países do mundo com mobilizações de diferente grau — eu estava até esquecendo — a principal dessas mobilizações foi a revolução portuguesa de 74. Então, a mais importante, a mais significativa e a mais desestabilizadora para o sistema internacional do imperialismo foi a revolução iraniana.

A partir da revolução iraniana, o imperialismo perdeu a sua estabilidade naquela região. O Irã enfrentou uma série de dificuldades criadas pelo próprio imperialismo. A principal delas sendo a guerra Irã-Iraque. Foi uma guerra impulsionada pelo imperialismo contra o Irã. Uma tentativa de sangrar a revolução iraniana. Essa guerra foi uma guerra duríssima, um milhão de baixas. O Irã naquele momento não estava preparado para essa situação. Foi necessário um grande esforço nacional para enfrentar a agressão iraquiana. O país sofreu inúmeras dificuldades: bloqueio imperialista, assassinato de lideranças, assassinato de cientistas, mas o impulso da revolução fez com que o Irã chegasse ao que nós estamos assistindo nos dias de hoje. Eu acho que é muito importante a gente sempre relembrar que os grandes acontecimentos políticos eles têm o seu fundamento, a sua origem justamente na revolução. É a revolução que muda o mundo e que muda as coisas. Se nós estamos vendo aqui uma coisa que pode significar uma mudança importante na política mundial, é isso nós temos que atribuir esse fenômeno à revolução iraniana.

Por isso mesmo eu queria aqui fazer um resgate do Irã, porque o Irã é um país que a propaganda imperialista procurou estigmatizar de todas as maneiras possíveis. Exploraram o caráter religioso da revolução iraniana como se fosse uma um grande pecado dessa revolução. A religião xiita, procuraram mostrar que o Irã sempre foi uma ditadura e coisa do gênero. Queria resgatar aqui um pouco algumas coisas que eu acho que são muito mal compreendidas sobre o Irã. Primeiro lugar, nós temos que ter uma uma definição do que é a República Islâmica. Isso é fácil de se confundir por causa justamente do problema religioso. O problema religioso aparece como sendo determinante. Eu imagino que para os iranianos, logicamente, o problema religioso apareça e seja para eles determinante. Do ponto de vista de uma análise objetiva, nós temos que dizer que a República Islâmica é o regime de um nacionalismo radical. Não é um regime proletário socialista, mas é um regime nacionalista radical. Nós podemos ver pelos acontecimentos, pelas manifestações, que se trata do regime nacionalista mais radical do planeta Terra. Mais radical, por exemplo, do que o chavismo dos nossos vizinhos venezuelanos. Um regime que nasceu em total oposição ao imperialismo. A revolução, ela foi uma revolução contra o regime político do chá, mas para os iranianos era muito claro que o regime político do chá era o regime do imperialismo. A revolução nasceu já com essa característica.

Aqueles que não acompanharam a revolução não vão se lembrar de uma expressão famosa do Aiatolá Khomeini que falou que os Estados Unidos eram o grande Satã. Justamente por essa expressão nós podemos ver o nível de radicalização anti-imperialista da revolução islâmica. Eu acompanhei a revolução iraniana durante muitos anos. Tive muitas discussões e tive uma discussão curiosa numa determinada época na Europa com trotskistas iranianos. Existe o trotskismo iraniano também. E os trotskistas iranianos, eles me falaram o seguinte: que era preciso todo um estudo para compreender o fenômeno do nacionalismo religioso. Eles não falavam nacionalismo, do movimento religioso xiita no Islã. Eu falei: não vejo mistério. É um movimento nacionalista, é um movimento anti-imperialista. Os movimentos anti-imperialistas, eles aparecem com diversas feições. Então não há por que nós vamos ficar espantados com isso. Mas na cabeça deles não entrava isso daí, se perderam completamente a noção. A esquerda iraniana de um modo geral se perdeu também nesse enfrentamento. Ao invés de tomar as coisas de uma maneira simples e objetiva, um regime que luta contra o imperialismo, eles criaram uma série de problemas. O Partido Comunista Iraniano, por exemplo, se perdeu completamente. O famoso partido Tudeh nunca foi um grande partido, apesar da proximidade com a União Soviética, mas também é um partido que se perdeu completamente na guerra do Irã com o Iraque; eles ficaram contra o governo iraniano e acabaram na ilegalidade.

Acho que é importante entender isso. Nós estamos diante do nacionalismo mais radical que existe no mundo, que é a República Islâmica do Irã. O fato de que esse nacionalismo se apresente com cores religiosas não acrescenta nada, nem subtrai nada. O nacionalismo pode aparecer como os mais diversos tipos de ideologia. O fato é que, independentemente das considerações religiosas, o regime é movido pela sua hostilidade ao imperialismo. Esse problema da religião, eu acho que é o problema mais espinhoso para a maioria das pessoas que acompanham a questão iraniana. E a propaganda do imperialismo se centra na questão da religião. Aí nós temos o problema da política de costumes, da lei islâmica e tudo mais. E o famoso refrão de toda a imprensa de que o Irã é uma teocracia. Aqui eu acho que nós temos que fazer uma explicação, porque tudo isso é uma grande mistificação.

Primeiro, religião é uma coisa muito variável. Quando você fala religião aqui no Brasil, por exemplo, ou nos países ocidentais, as pessoas têm aquela imagem muito negativa, porque a religião em países como o Brasil, na América Latina, está associada em geral a uma política reacionária. Então você fala “o regime é religioso”, todo mundo pensa que é uma ditadura com aquele moralismo religioso do catolicismo, do protestantismo. Nós vimos muito disso. Apesar de uma certa mistificação que aconteceu no Brasil, a Igreja Católica no Brasil apoiou a ditadura. Em muitos setores, os mais direitistas da ditadura eram setores ligados à religião católica. TFP, por exemplo, e o regime todo tinha aquela aquele ar de bênção da religião católica. O islamismo não é a mesma coisa que o catolicismo, não é a mesma coisa que o cristianismo em geral. Nós temos que entender que cristianismo é religião de países opressores, não é religião de países oprimidos. A sede do catolicismo é Roma, um país imperialista. A sede do protestantismo, nós podemos dizer que seja, vamos supor, os Estados Unidos também um país imperialista. Essas religiões, elas têm, evidentemente, um caráter reacionário de aliança com o poder estabelecido, com as piores práticas possíveis dos regimes políticos. O islamismo não é assim. O islamismo é a religião — em todos os lugares é a religião de países oprimidos. A sede do islamismo não é um país imperialista. São países em geral oprimidos pelo imperialismo. Há vertentes do islamismo que têm um caráter muito reacionário? Sim, é o caso, por exemplo, do wahabismo na Arábia Saudita. Mas mesmo lá, mesmo na Arábia Saudita, surgiram forças que se voltaram contra o imperialismo, porque é da natureza dos países atrasados na medida em que a religião se identifica com a identidade nacional desses países, ela tende a assumir um caráter revolucionário.

A religião xiita, diferente da maioria dos países islâmicos, ela já é uma religião dissente. Ela é uma religião dissidente. Ela é uma religião que condena a vertente principal do islamismo como sendo reacionária. E ela sempre foi uma religião progressista. O clero xiita no Irã foi a coluna vertebral da oposição ao regime do Chá. E é por isso que a revolução adquiriu essas características. Eu não diria, eu não concordaria com a ideia de que o regime iraniano é uma teocracia, mesmo nos termos que eu estou colocando aqui. Eu acho que nós temos que entender as formas ideológicas e políticas pelo que elas são na realidade e não por um pensamento pré-estabelecido. Nós temos que entender que o clero xiita, ele foi o principal setor da revolução islâmica. Quando você vê uma revolução nacionalista, normalmente você vai ver que os líderes eles fazem parte de uma determinada camada intelectual da população. Podem ser militares, podem ser intelectuais de diversa origem, mas é uma camada média de intelectuais. E nesse caso o clero xiita é que veio a ser a coluna vertebral da revolução islâmica. Por isso é uma revolução islâmica também. A presença do clero desde o primeiro momento era muito importante. Nós temos que entender esse clero não como a gente vê o clero no Brasil, por exemplo, como uma camada conservadora, mas o clero xiita no Irã são aqueles militantes da revolução islâmica. Eles foram com o passar do tempo se formando numa camada militante de luta contra o regime político do chá e contra a opressão nacional iraniana. Vocês podem ver, por exemplo, que o Ali Khamenei, que foi assassinado recentemente pelo imperialismo, ele era um militante que esteve preso, foi torturado nas prisões do chá. Ele não era um padre como a gente normalmente costuma pensar. O clero xiita é um pouco como o Hamas. São pessoas que têm uma ideologia religiosa, mas são militantes, são pessoas que estão na luta. E o setor, o conselho que elege ou escolhe o líder supremo do Irã e o próprio líder supremo — isso é como se, vamos supor que a gente tirasse a aparência religiosa. Isso seria como o Conselho Supremo da Revolução Iraniana. Não é que é um regime que fez uma revolução e foi dominado pelo clero, é um regime que fez uma revolução e os setores revolucionários eles mantêm uma influência decisiva sobre o regime político. Nós podemos chamar isso de teocracia? Podemos chamar de teocracia, mas seria totalmente equivocado ver a coisa desse ponto de vista.

Mais fraco ainda é a alegação de que o Irã não tem democracia. Como todo regime revolucionário, o regime revolucionário exclui os contrarrevolucionários do regime. Está aí a falta de democracia. A falta de democracia consiste em que os contrarrevolucionários não podem participar livremente do regime. Mas o Irã é um país que tem eleições para presidente, que tem parlamento, que tem instituições representativas — não é certamente um regime ao estilo das chamadas democracias imperialistas. Que também nós não vamos fazer uma apologia desse tipo de democracia. Isso daí seria uma farsa total. Então, se nós formos nos basear numa concepção puramente jurídica da democracia, nós vamos nos equivocar de uma maneira muito perigosa. Nós temos que considerar que a democracia do regime está na relação que o regime tem com a população. Um regime social, um regime anti-imperialista, por definição, é um regime democrático. Agora, um regime como o brasileiro, por exemplo, onde o capital estrangeiro domina o regime, onde as instituições de países estrangeiros dominam o regime, onde as eleições são ganhas na base da quantia de dinheiro que você investe para poder eleger alguma coisa, alguma pessoa e onde a participação popular é nenhuma, onde o parlamento vota as coisas sem nenhuma consulta popular, sem nenhum debate e onde a imprensa é totalmente controlada pelo grande capital. Isso não é uma democracia. Nós não podemos ter uma visão da democracia que seja puramente jurídica. “Ah, então você tem eleições, você tem três poderes, é uma democracia.” Isso é uma concepção totalmente falsa de democracia. O regime da Venezuela, por exemplo, é muito mais democrático do que o brasileiro, independentemente da forma jurídica do regime. E o regime iraniano também é muito mais democrático do que o brasileiro. O regime brasileiro, a democracia aqui, ela não passa de uma fachada, de uma cobertura, de um verniz para a população achar que está realmente participando no destino, nas decisões sobre o destino do país, quando isso não é verdade.

Acho que quando nós olhamos um fenômeno como o Irã, que nos obriga a pensar onde se apoia o regime político para enfrentar todo o imperialismo mundial, você precisa ter um apoio. Onde é que está apoiado esse regime? Esse regime está apoiado no povo iraniano. Evidentemente, sem a unidade, uma ampla unidade do povo por trás do regime político, o enfrentamento que está se dando com os Estados Unidos nesse momento seria totalmente inviável, seria, na verdade, impensável. Queria chamar atenção sobre isso. A grande questão aqui, na minha opinião, a grande questão da guerra é a seguinte. Por que essa guerra? Essa guerra ela é interessante porque ela tem um significado abertamente contrarrevolucionário. Todas as guerras do imperialismo são contrarrevolucionárias, sem dúvida nenhuma. Mas essa daqui ela é declaradamente contrarrevolucionária. A guerra ela existe porque o Irã é o centro do eixo da resistência no Oriente Médio. Particularmente o apoio que o Irã deu à Palestina é um dos grandes problemas que motivaram essa guerra. O imperialismo não pode conviver com uma estrutura tão revolucionária como nós estamos vendo nesse momento em torno do Irã: Hesbolá, a resistência iraquiana, o Iêmen, a resistência palestina, Hamas, a jihad islâmica. O imperialismo não pode permitir esse tipo de coisa. Sem falar que isso daí ameaça diretamente a existência dessa verdadeira base militar imperialista que é o Estado de Israel, que é o sionismo. É uma ameaça direta à existência dessa estrutura política que foi colocada lá para patrulhar, policiar os povos árabes. É daí que veio a agressão. A agressão é uma agressão direta à revolução. O que nós estamos vendo na Palestina hoje, a luta dos palestinos é uma revolução. O movimento no Líbano do Hesbolá é um movimento revolucionário. O movimento do Iêmen nem precisa dizer, porque o próprio governo iemenita é o resultado de uma ampla mobilização revolucionária no Iêmen.

O imperialismo decidiu atacar diretamente o centro desse movimento revolucionário que se expande pelo Oriente Médio. Essa é a causa da guerra e mais absolutamente nada. Todas as explicações sobre o poderio nuclear, a bomba atômica iraniana e tudo mais, tudo isso são explicações falsas. O problema é esse. É preciso esmagar a revolução que se desenvolve naquela região do mundo impulsionada pelo Irã. Uma coisa que eu achei assim absolutamente espantosa nesse conflito é que a posição da maioria da esquerda brasileira — a maioria dos que eu li — todo mundo obviamente, a esquerda foi obrigada a se posicionar contra o imperialismo a favor do Irã. Não tem, não daria para ter outra posição, seria inimaginável, seria uma coisa suicida, autodestrutiva, você se considerar neutro, ficar do lado do imperialismo. Mas todos eles repetem uma frase que para mim é uma das coisas mais espantosas que eu já ouvi. Eles falam o seguinte: “O regime político iraniano não é a favor dos trabalhadores e não é anti-imperialista”. Eu acho espantoso que alguém seja capaz de formular essa tese, porque se as pessoas que estão enfrentando com mísseis, que estão colocando em xeque o imperialismo, não são anti-imperialistas, então eu pergunto: quem será anti-imperialista no mundo? Se essas pessoas que estão impulsionando uma revolução não são revolucionários, quem são os revolucionários? Então, o que que é ser um revolucionário? O que que é ser anti-imperialista se as pessoas que estão lutando contra o imperialismo não são anti-imperialistas? Para mim não faz nem sentido essa frase, mas mostra o desnorteamento da esquerda.

Se existe uma força anti-imperialista no mundo, é a República Islâmica do Irã. O pessoal fala assim: “Nós não apoiamos o regime político, não apoiamos o governo, nós apoiamos o povo iraniano”. Isso é uma abstração. Não é o povo iraniano em abstrato que está lutando contra o imperialismo. Não é o povo iraniano de maneira abstrata que construiu túneis subterrâneos, bases de lançamento de mísseis justamente para enfrentar o imperialismo. Não é o povo iraniano que investiu na construção de uma capacidade bélica para impor uma derrota ao imperialismo. Quem fez isso foi a República Islâmica do Irã. Nós podemos não ter um acordo 100% com a ideologia dos iranianos, mas uma coisa nós temos que reconhecer. Essa é uma das lutas mais impressionantes contra o imperialismo que nós já vimos desde o surgimento do imperialismo no final do século XIX. Eu acho que se a situação ela se mantiver da maneira como está, o Trump ontem estava fazendo novas ameaças contra os iranianos. Acho que isso daí não vai mudar em nada o quadro, aparentemente não vai mudar o quadro político, mas se a situação se mantiver e os Estados Unidos, Israel — que é o cachorro dos Estados Unidos — forem obrigados a recuar diante da resistência iraniana, nós vamos estar assistindo aqui ao fenômeno político de luta anti-imperialista, de derrota do imperialismo mais importante desde a guerra do Vietnã e provavelmente até mais importante do que a própria guerra do Vietnã. A guerra do Vietnã foi uma resistência sacrificadíssima do povo vietnamita. Uma luta de uma guerra de guerrilhas. Aqui nós temos um enfrentamento militar mais de tipo tradicional. E o Irã está mostrando uma capacidade de enfrentar o imperialismo que nenhum país demonstrou até hoje. Nós não vimos isso daí em nenhum país do mundo.

Nós podemos estar bem próximos aí de uma situação que seja um ponto de inflexão na situação política internacional. Uma derrota do imperialismo diante do Irã é um recuo e um reconhecimento de um fracasso extraordinário. Logicamente que a imprensa burguesa e a imprensa imperialista vão tentar mistificar os acontecimentos como eles já estão fazendo. A imprensa fala aí que a capacidade militar do Irã já foi quase toda destruída, esse tipo de coisa. Já o Trump fala que saiu vitorioso; só ninguém explica por que eles não conseguem abrir o estreito de Ormuz com toda essa capacidade. Agora começa a aparecer na imprensa outra declaração no sentido de que a capacidade do Irã não foi destruída, que de um modo geral uma boa parte da capacidade de lançamento de mísseis continua intacta. Eu vi até a notícia, que é uma notícia sobre declarações do próprio das próprias Forças Armadas norte-americanas, de que os Estados Unidos bombardeiam um sítio de lançamento de mísseis iraniano e em algumas horas o negócio está funcionando de novo. Os iranianos não dão sinal nenhum de que eles estão prontos a sequer fazer um acordo. Vamos ver, a situação é complexa. Um tema que eu não vou abordar aqui, mas que a gente sempre tem que ter presente, é que o imperialismo é uma força muito poderosa e por isso mesmo, a realização iraniana é uma grande proeza, é uma coisa extraordinariamente importante, pode ser um ponto decisivo no enfraquecimento do imperialismo mundial. Muito obrigado, companheiros.

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