Oriente Próximo

Como a CIA abandonou seus espiões infiltrados no Irã

Investigação da agência Reuters mostrou que falhas de comunicação da inteligência norte-americana ajudaram o Irã a identificar informantes

A Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) abandonou agentes infiltrados no Irã depois que falhas em seu próprio sistema de comunicação ajudaram a inteligência iraniana a identificar e prender informantes. A informação foi revelada por uma investigação da agência Reuters, baseada em dezenas de horas de entrevistas com seis iranianos condenados por espionagem entre 2009 e 2015, além de conversas com ex-funcionários de inteligência dos EUA.

Um dos casos relatados é o de Gholamreza Hosseini, engenheiro industrial iraniano que, no fim de 2010, foi detido no aeroporto Imam Khomeini, em Teerã, quando se preparava para viajar a Banguecoque, onde se encontraria com seus contatos da CIA. Antes de embarcar, seu cartão foi recusado em um caixa eletrônico. Pouco depois, um agente de segurança pediu seu passaporte e o retirou do local.

Segundo Hosseini, ele foi levado a uma sala VIP vazia e orientado a sentar-se em um sofá de frente para a parede. Em um instante em que não viu câmeras, retirou do bolso um cartão de memória com informações secretas, colocou-o na boca, mastigou-o e o engoliu. A tentativa de destruir o material, no entanto, não impediu o interrogatório.

“Essas são coisas que nunca contei a ninguém no mundo”, disse Hosseini à Reuters. Ao perceber que os agentes iranianos já pareciam saber de tudo, ele chegou a cogitar que a própria CIA o havia traído.

De acordo com a investigação, não se tratava de uma traição deliberada, mas de negligência da CIA. A agência norte-americana havia fornecido a Hosseini um sistema de comunicação clandestino com falhas, que facilitou sua identificação pelos órgãos de inteligência do Irã. Hosseini permaneceu preso por quase uma década e afirmou que, mesmo após sua libertação em 2019, nunca mais recebeu contato ou ajuda da CIA.

O caso não foi isolado. A Reuters entrevistou seis ex-informantes iranianos da CIA. Todos relataram que, após a prisão, não receberam assistência da agência norte-americana, nem para si nem para suas famílias. Embora tenham admitido que a CIA não havia feito promessas formais de resgate, todos acreditavam que, em algum momento, os EUA os ajudariam.

A reportagem mostrou ainda outros episódios de imprudência. Um dos homens afirmou que a CIA o orientou a entregar informações na Turquia, em um local que a própria agência sabia estar sob vigilância iraniana. Outro, ex-funcionário do governo iraniano, contou que viajou a Abu Dabi para solicitar visto norte-americano e que um agente da CIA tentou obrigá-lo a espionar para os EUA. Ao retornar ao Irã, foi preso.

James Olson, ex-chefe de contrainteligência da CIA, afirmou desconhecer os casos específicos, mas reconheceu que expor informantes de forma desnecessária seria uma falha profissional e ética.

“Se somos descuidados, se somos imprudentes e nos enganaram, então a culpa é nossa”, disse Olson. “Se as pessoas pagaram o preço por confiar em nós o suficiente para compartilhar informações e pagaram uma pena, então falhamos moralmente”, acrescentou.

A ofensiva de contrainteligência iraniana ocorreu em 2009, em meio a uma ampla operação para desmontar redes de espionagem dos EUA. Segundo declarações de três ex-funcionários de segurança nacional norte-americanos e levantamentos citados pela Reuters, a ação resultou na prisão de dezenas de informantes da CIA. O próprio Irã divulgou, por meio de sua imprensa estatal, que havia conseguido capturar vários agentes ligados à inteligência dos EUA.

A falha técnica estava em uma plataforma de comunicação clandestina usada pela CIA até 2013. No caso de Hosseini, o sistema funcionava por meio de um sítio rudimentar de notícias de futebol em persa, chamado Iraniangoals.com. Ao digitar uma senha na barra de busca, surgia uma janela secreta de mensagens pela qual o informante podia enviar dados e receber ordens.

Segundo Hosseini, o sistema foi apresentado a ele em agosto de 2008, durante reunião em um hotel de Dubai com agentes da CIA. O que ele não sabia era que a ferramenta fornecida pela principal agência de espionagem dos EUA possuía vulnerabilidades que poderiam revelar os usuários.

A Reuters localizou o sítio Iraniangoals.com em um arquivo da Internet e pediu a dois especialistas independentes em segurança digital, Bill Marczak, do Citizen Lab da Universidade de Toronto, e Zach Edwards, da Victory Medium, que analisassem a plataforma. Segundo os dois, as falhas poderiam ter exposto pelo menos 20 espiões iranianos e, possivelmente, centenas de informantes em outros países.

A existência da plataforma foi confirmada à Reuters por quatro ex-funcionários norte-americanos. Em 2018, o Yahoo News já havia informado que um sistema clandestino de comunicação da CIA, baseado na Internet, havia contribuído para a prisão e a execução de dezenas de espiões da agência no Irã e na China.

A espionagem contra o Irã tem sido uma prioridade dos EUA, especialmente no que diz respeito ao programa nuclear da República Islâmica. O Irã afirma que seu programa nuclear tem fins exclusivamente energéticos. Mesmo assim, a CIA colocou o país entre seus alvos mais importantes.

Além da área nuclear, Hosseini afirmou que a CIA lhe pediu informações sobre a rede elétrica iraniana. Segundo seu relato, os agentes queriam identificar pontos críticos que, se atingidos por mísseis ou sabotadores, poderiam causar apagões prolongados e paralisar partes do país.

A operação norte-americana também foi prejudicada pela ausência de representação diplomática dos EUA no Irã desde 1979, quando estudantes iranianos ocuparam a embaixada dos EUA em Teerã, conhecida no país como “ninho de espionagem”. Sem presença diplomática, a CIA passou a recrutar possíveis informantes fora do Irã ou pela Internet, o que aumentou a dependência de sistemas clandestinos vulneráveis.

Segundo a Reuters, a perda de redes de espionagem no Irã continuou a atingir a CIA anos depois. Mensagens internas citadas pelo New York Times indicaram que a direção da agência advertiu sobre a perda da maior parte de sua rede no país e sobre falhas persistentes nos métodos de trabalho.

Para Hosseini, o episódio deixou uma marca na imagem dos EUA diante dos próprios agentes que aceitaram trabalhar para a CIA.

“É uma mancha para o governo dos Estados Unidos”, afirmou.

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