No dia 28 de maio de 2026, data em que Natália Braga Costa Pimenta completaria 41 anos, o Clube de Leitura Natália Pimenta realizou uma edição especial marcada por literatura, confraternização e homenagem. O encontro, realizado na última quinta-feira do mês, manteve a tradição do clube: reunir leitores para discutir uma obra literária.
A obra escolhida para a ocasião foi O Retrato, de Nikolai Gógol, escritor russo do século XIX. O conto serviu de ponto de partida para uma discussão sobre arte, dinheiro, decadência moral e o papel do artista diante das pressões da sociedade. O encontro também serviu de homenagem à companheira Natália, idealizadora do clube e grande entusiasta da literatura.
Henrique Áreas, um dos participantes da atividade, explicou que o clube se reúne mensalmente e que a dinâmica é simples: a cada encontro, os presentes escolhem uma obra para ser discutida no mês seguinte. Segundo ele, o clube é aberto ao público e reúne pessoas interessadas em ler, debater e apresentar suas impressões sobre os livros.
Para Henrique, o encontro cumpre também uma função mais ampla. É um “momento de confraternizar, discutir arte, literatura, um pouco de política também”, disse. Henrique lembrou que Natália era conhecida não apenas por sua atuação política e teórica, mas também por seu profundo interesse pelas artes. “Natália era uma amante da literatura”, afirmou. “Era a paixão da Natália, literatura e arte”.
A edição especial contou ainda com um marcador de páginas produzido para a ocasião, trazendo um texto de Natália. Segundo Izadora Dias, o material incluía um trecho de um escrito mais livre da companheira, ligado à ideia de desenvolver um romance ambientado nas décadas de 1930 e 1940.
Izadora lembrou que o clube reunia elementos muito caros à companheira homenageada. Antes de receber seu nome atual, a atividade tinha uma referência ao movimento surrealista. Com o falecimento de Natália, os participantes decidiram mudar o nome como forma de reconhecer sua importância. Para Izadora, o clube unia “duas coisas que ela gostava muito”: as pessoas conversando e a literatura. Logo depois, acrescentou uma terceira: as “comidinhas”.
O encontro teve pipoca, salgadinhos, coxinha, bolo de chocolate, coalhada com torradas e outros alimentos, compondo o ambiente de convivência que Natália tanto apreciava. “Natália estaria orgulhosa”, brincou Izadora.
O debate sobre O Retrato também foi marcado por intervenções dos participantes. Mauro Souza destacou que o conto de Gógol apresenta a história de um jovem pintor cuja vida se transforma depois que encontra dinheiro de maneira inesperada. A partir daí, o artista passa a se afastar da própria arte.
Segundo Mauro, a discussão abordou o problema do dinheiro como finalidade da criação artística. “O artista não pode ter o dinheiro como objeto”, afirmou, lembrando que isso não significa negar que o artista precise viver de seu trabalho. O problema, como aparece no conto de Gógol, é quando o dinheiro passa a dominar a própria atividade artística. Nesse caso, explicou, a obra mostra “como o dinheiro sendo objeto do artista faz com que ele decaia artisticamente”. Gógol foi discutido como um escritor capaz de retratar com precisão as contradições humanas e sociais. Mauro destacou ainda a riqueza dos detalhes do autor russo e classificou o conto como “uma obra muito fascinante”.
Nem tudo, porém, ficou no terreno da análise séria. A pronúncia do nome de Gógol virou uma das polêmicas bem-humoradas da noite. Entre “Gógol”, “Gogol” e outras tentativas, o debate mostrou o ambiente descontraído do clube.
Ao final, também foi anunciada a próxima leitura: Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio. A obra, composta por contos, apresenta um retrato da São Paulo boêmia, dos bares, da sinuca, dos personagens marginalizados e da vida popular da cidade.
Aberto ao público, com participação presencial e também online, o Clube de Leitura Natália Pimenta segue se reunindo toda última quinta-feira do mês.





