Guerra no Oriente Próximo

CGRI: Irã negocia como vencedor; EUA, como perdedor

General Yadollah Javani afirmou que o Irã derrotou os objetivos militares dos EUA e de “Israel” e entrou nas negociações em posição de força

O general de brigada Yadollah Javani, vice-líder do birô político do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), afirmou no sábado (30) que o Irã saiu vitorioso do confronto imposto pelos Estados Unidos e por “Israel” e passou a negociar a partir de uma posição de força. A declaração foi feita no momento em que os EUA mantêm o bloqueio naval contra embarcações iranianas no Estreito de Ormuz, apesar de Donald Trump ter anunciado publicamente que a medida seria suspensa.

Segundo Javani, a guerra foi imposta ao povo iraniano depois que o inimigo calculou que poderia obter uma vitória militar rápida, em poucos dias. O objetivo da ofensiva, afirmou, era destruir a infraestrutura nuclear iraniana, atingir a rede de mísseis e de defesa aérea integrada do país, reduzir sua capacidade de dissuasão e provocar a queda da República Islâmica.

O dirigente do CGRI afirmou que o cálculo fracassou diante da resistência nacional iraniana. Para ele, a mobilização do povo e das Forças Armadas alterou a situação no campo militar e consolidou a posição do Irã sobre o Estreito de Ormuz, que classificou como um bem geoestratégico decisivo.

Javani disse que o Irã garantiu um “direito legítimo e indiscutível do povo iraniano” após cinco séculos. O general também defendeu que as conquistas obtidas sejam preservadas por meio de direção eficaz, prontidão operacional e controle permanente do corredor marítimo.

De acordo com Javani, o Irã negocia como a parte mais forte e como vencedor no campo militar. O país já apresentou, segundo ele, as condições para resolver a crise atual. A responsabilidade passou a ser dos Estados Unidos, que devem decidir se prolongam o confronto ou aceitam os direitos afirmados pelo Irã.

O oficial do CGRI afirmou ainda que há uma visão estratégica unificada entre as Forças Armadas iranianas, os órgãos diplomáticos e a população em torno da defesa dos direitos nacionais. Para Javani, o outro lado está diante da escolha entre “o ruim e o pior”: continuar a guerra e assumir novos custos ou aceitar as condições apresentadas pelo Irã.

O general também advertiu que as frentes militares e operacionais iranianas permanecem em plena prontidão. Segundo ele, qualquer novo erro de cálculo ou ação hostil terá uma resposta “mais decisiva, contundente e além de tudo o que já foi visto”.

A agressão militar conjunta dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã começou em 28 de fevereiro e durou cerca de 40 dias antes do início das negociações entre iranianos e norte-americanos. Mesmo após o cessar-fogo mediado pelo Paquistão, em 8 de abril, os EUA mantiveram a pressão militar e naval contra o país, incluindo o bloqueio marítimo anunciado por Trump em 13 de abril.

No sábado, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, confirmou que o bloqueio naval contra o Irã continuava em vigor. Ao falar com jornalistas durante o fórum de segurança Diálogo Shangri-La, em Singapura, Hegseth afirmou que a medida “está muito em vigor”.

A declaração contradisse Trump, que havia publicado na sexta-feira (29), na Truth Social, que o bloqueio naval “será agora levantado”. Na mesma mensagem, o presidente norte-americano acrescentou que a decisão final viria após uma reunião na Sala de Situação da Casa Branca.

Segundo a agência iraniana Tasnim, o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) continuou emitindo alertas na linha do bloqueio. Marinheiros iranianos relataram que navios que tentaram atravessar a área depois do anúncio de Trump receberam ordens de navios de guerra norte-americanos para recuar imediatamente, sob ameaça de fogo real.

O major-general Mohsen Rezaei, integrante do Conselho de Discernimento do Irã e assessor do Líder da Revolução Islâmica, denunciou que Trump está sabotando as negociações.

“Como previsto, o presidente dos Estados Unidos trai a diplomacia pela terceira vez”, escreveu Rezaei no X. “Ao continuar o bloqueio marítimo e fazer exigências excessivas nas negociações, ele provou mais do que nunca que não é um homem de negociação e persegue outros objetivos”.

Rezaei já havia afirmado à rede chinesa CGTN que o Irã “romperá o bloqueio, seja por meio de negociação ou, se não, por ação direta”. Ele também disse que os norte-americanos não têm escolha a não ser negociar e que a continuação da guerra os levaria a “um túnel muito escuro”.

O anúncio contraditório de Trump seguiu um padrão repetido desde o início da guerra contra o Irã. Em 16 e 17 de abril, o presidente norte-americano afirmou que o Irã havia “aceitado tudo”, incluindo a suspensão por tempo indeterminado de seu programa nuclear e a retirada, pelos EUA, de urânio enriquecido iraniano.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, respondeu na ocasião que Trump havia feito “sete afirmações em uma hora, todas falsas”. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, também declarou que o urânio enriquecido iraniano “não vai ser transferido para lugar nenhum”.

Em 23 de maio, Trump voltou a afirmar que um acordo estava “em grande parte negociado” e que os detalhes seriam anunciados “em breve”. No dia seguinte, porém, publicou uma mensagem orientando os negociadores a “não se apressarem para fechar um acordo”. Em 28 de maio, negociadores iranianos e norte-americanos chegaram a uma minuta preliminar de entendimento por 60 dias, mas o próprio Trump reteve a aprovação final, afirmando a mediadores que precisava de “alguns dias” para avaliar.

A posição iraniana permaneceu baseada em linhas vermelhas públicas. O Irã exige a liberação de aproximadamente US$24 bilhões em ativos soberanos congelados, com metade disponível imediatamente após o anúncio de qualquer acordo. O país também separa essa exigência do tema nuclear.

Sobre o urânio enriquecido, Baghaei afirmou que o material é “sagrado para nós como o solo do Irã” e que sua transferência ao exterior está “completa e irreversivelmente” descartada. As autoridades iranianas afirmam que a questão nuclear não está sobre a mesa nesta fase das conversas, centradas no fim da guerra e na suspensão do bloqueio.

O controle do Estreito de Ormuz também passou a ocupar o centro da crise. O Quartel-General Central Khatam al-Anbiya afirmou no sábado que a gestão do Estreito está sendo exercida “com plena autoridade” pelas Forças Armadas iranianas.

“Todos os navios, embarcações comerciais e petroleiros devem transitar exclusivamente pelas rotas designadas e obter permissão da Marinha do CGRI”, afirmou o comando iraniano. O órgão advertiu ainda que qualquer violação das regras “colocará seriamente em risco a segurança de sua passagem”.

O comando militar iraniano também enviou uma advertência às forças navais estrangeiras na região. “Qualquer ação de embarcações militares destinada a interferir na gestão do Estreito de Ormuz ou criar perturbação na navegação será alvo das Forças Armadas da República Islâmica do Irã”, afirmou.

A Marinha do CGRI informou que 20 navios comerciais atravessaram o Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas após obter autorização e coordenar a passagem com a força iraniana. Segundo o setor de relações públicas da Marinha do CGRI em Hormozgan, o “controle e monitoramento inteligente” do Estreito ocorre “com plena autoridade” e qualquer violação receberá “resposta esmagadora”.

O Irã havia lançado oficialmente, no início do mês, um novo mecanismo de controle do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. Pelo sistema, embarcações que pretendem atravessar a região recebem instruções por meio do endereço oficial [email protected], com regras de passagem e exigência de autorização.

O Parlamento iraniano também deve votar em breve uma lei para formalizar a gestão do Estreito de Ormuz pela República Islâmica. Alireza Salimi, integrante da Mesa Diretora do Parlamento, afirmou no sábado que todos os detalhes do plano serão aprovados pelo Legislativo.

Salimi destacou que o Estreito de Ormuz é compartilhado por águas territoriais do Irã e de Omã, sem direito de decisão por parte de outros países. “Quando Trump e outros dizem que o Estreito de Ormuz deve ser aberto, essa questão diz respeito a nós, e não permitiremos que eles decidam”, afirmou.

O deputado disse ainda que as decisões sobre a gestão do Estreito “não são táticas nem temporárias”, mas “definitivas e permanentes”. Segundo o presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento, Ebrahim Azizi, o novo mecanismo inclui uma rota designada e cobrança por “serviços especializados”.

O vice-comandante do Exército iraniano para Coordenação, contra-almirante Habibollah Sayyari, também advertiu os inimigos do país contra nova agressão. “O inimigo deve saber que qualquer agressão contra o território do país será enfrentada com uma resposta ainda mais contundente que antes”, declarou.

“Hoje, o Exército da República Islâmica está firme e resoluto contra qualquer movimento hostil do inimigo”, disse Sayyari. O comandante afirmou que as forças militares iranianas estão equipadas com sistemas de defesa avançados e tecnologia moderna.

As declarações foram feitas após autoridades norte-americanas reconhecerem que o Irã manteve grande capacidade militar apesar dos ataques dos Estados Unidos e do regime sionista. Autoridades citadas pela CBS News afirmaram que o Irã conserva capacidades militares substanciais. O Washington Post também publicou que as alegações públicas de Pete Hegseth sobre o “sucesso americano” na agressão não correspondiam integralmente à situação no terreno.

O porta-voz do Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas do Irã, general de brigada Reza Talaei-Nik, afirmou que o país destruiu, durante os 40 dias da agressão recente, os VANTs mais avançados do inimigo em quantidade “mais de 16 vezes” superior ao número derrubado durante a guerra imposta de 12 dias.

Talaei-Nik também anunciou a criação de um centro de apoio a VANTs no Ministério da Defesa, voltado a serviços civis para órgãos governamentais e militares. Segundo ele, o país aprovou uma legislação para regular o uso civil dessas aeronaves, utilizadas em mapeamento, registro de terras, hidrográfia, geologia, imagem, resgate, monitoramento ambiental, mineração e agricultura.

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