A primeira-dama Janja Lula da Silva defendeu, na quinta-feira (6), que o Discord seja retirado do ar no Brasil. A declaração foi feita durante a cerimônia de sanção do Projeto de Lei nº 3.066/2025, no Palácio do Planalto, sob a justificativa de proteger crianças e adolescentes.
“Não posso aceitar uma menina de 13 anos se mutilar ao vivo na internet no Discord e morrer. Não consigo admitir um país desse. Esse não é um caso isolado, são muitos e muitos casos. A gente precisa atuar junto ao Judiciário para tirar essa rede horrorosa do ar”, declarou.
O caso citado por Janja é evidentemente grave. Mas a conclusão tirada pela primeira-dama não tem qualquer relação com uma política de esquerda. Proibir uma plataforma utilizada por milhões de pessoas porque crimes foram cometidos por alguns de seus usuários é simplesmente censura.
Se alguém utiliza uma rede social para praticar um crime, cabe investigar e, havendo crime de fato, responsabilizar quem o praticou. Outra coisa completamente diferente é impedir milhões de pessoas de utilizar um meio de comunicação por causa dos atos de terceiros.
Censura não é política de esquerda
A declaração é mais uma manifestação do identitarismo de Janja, política que procura apresentar medidas repressivas e autoritárias como se fossem iniciativas progressistas em defesa de algum setor da população.
O mecanismo é sempre semelhante. Apresenta-se um problema real — neste caso, crimes e abusos envolvendo crianças e adolescentes — e, em nome de combatê-lo, reivindica-se o aumento dos poderes da polícia, do Judiciário e do Estado para controlar a população.
Foi exatamente o que aconteceu quando o X foi bloqueado no Brasil. Na ocasião, boa parte da esquerda apoiou a suspensão da plataforma recorrendo aos mesmos argumentos moralistas: seria necessário combater as “fake news”, o “discurso de ódio”, o racismo e a extrema direita.
A experiência demonstrou o absurdo dessa política. A censura não deixou de ser censura porque atingia naquele momento uma rede social associada por parte da esquerda aos bolsonaristas, embora milhões de cidadãos de todas as correntes políticas a utilizassem. Da mesma maneira, não passa a ser progressista porque Janja apresenta o bloqueio do Discord como uma medida de proteção às crianças.
O próprio fato de setores da direita utilizarem exatamente os mesmos métodos deveria servir de advertência. Censurar publicações, perseguir pessoas pelo que dizem e defender a proibição de meios de comunicação são métodos tradicionais da direita e da extrema direita. Não há nada de socialista ou progressista nisso.
Em entrevista à TV 247 nessa sexta-feira (7), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), criticou diretamente a proposta:
“Eu acho isso uma atitude profundamente antidemocrática. No Brasil a censura tem atingido proporções monstruosas já, né? Um monte de gente sendo condenada aí à prisão por ter falado A, B e C e não são só os bolsonaristas, como nós sempre falamos, né? Não vai dizer que a coisa é só contra os bolsonaristas. Combater o racismo não é censurar fulano que fez isso. Eu acho assim, se um cidadão comete um crime e ele publica isso aí na rede social, a polícia tem que ir atrás dele e abrir inquérito por esse crime. Agora, ficar proibindo as coisas tudo, plataformas inteiras, etc. e tal, porque supostamente pessoas cometeriam um crime, é como se você proibisse a utilização das ruas de São Paulo, porque todo dia nessas ruas se cometem crimes, não faz sentido. Eu vi que a Janja pediu o cancelamento da plataforma, agora a AGU já está aí pedindo, eu acho absurdo isso. Acho que é um desserviço, é um ataque às liberdades democráticas. Não faz sentido nenhum.”
A comparação feita por Pimenta expõe o problema de maneira simples. Crimes acontecem em ruas, escolas, estádios, bares, universidades e praticamente qualquer outro espaço social. Ninguém propõe, por isso, fechar as ruas ou proibir a existência das escolas. O responsável pelo crime é que deve responder pelo que fez.
Presente para a direita
Além de profundamente antidemocrática, a iniciativa é politicamente desastrosa para o próprio governo Lula.
O Partido Novo imediatamente explorou a declaração. “Janja é a cara desse governo: gasta muito e quer censura”, afirmou o representante dos banqueiros, acrescentando que “ordenar a desativação de uma rede social é coisa de ditadura”.
O Novo não se tornou, evidentemente, defensor das liberdades democráticas. O problema é outro: a política adotada por Janja permite que a direita pose como defensora da liberdade diante de milhões de pessoas que serão diretamente atingidas pela censura.
A esquerda entrega de bandeja à direita uma questão extremamente popular.
Isso é particularmente grave em um ano eleitoral. O Discord possui forte presença entre o público jovem, justamente um dos setores sobre os quais o Estado brasileiro vem impondo uma sequência de restrições relacionadas à Internet e aos celulares.
O governo Lula já patrocinou a proibição do uso de celulares nas escolas. A medida foi apresentada, mais uma vez, sob o argumento de proteger crianças e adolescentes. Na prática, colocou o Estado na posição de decidir quando e como os estudantes podem utilizar seus próprios aparelhos.
Agora aparece a proposta de simplesmente retirar do ar uma rede social inteira.
Para um adolescente, a mensagem é bastante concreta: o governo proibiu o celular na escola e agora pessoas ligadas diretamente ao governo querem proibir uma das redes que ele utiliza.
Qualquer pessoa minimamente preocupada com a campanha de Lula deveria perceber o tamanho do problema.
Identitarismo trabalha contra Lula
A política identitária produz esse resultado repetidamente. Seus representantes apresentam suas próprias posições como se fossem “a esquerda” e, com isso, fazem com que medidas policialescas, moralistas e profundamente impopulares sejam identificadas pela população como políticas esquerdistas.
Depois, quando cresce a rejeição a essas medidas, quem recolhe politicamente o descontentamento é a direita.
A declaração de Janja é especialmente prejudicial porque ela possui uma posição de enorme visibilidade no governo. Embora não tenha sido eleita para cargo algum, suas declarações são inevitavelmente associadas ao presidente da República. Ao defender a censura de uma plataforma inteira, portanto, não prejudica apenas a imagem dos setores identitários, mas o próprio Lula.
E faz isso diante justamente da juventude, que deveria ser conquistada pela esquerda com uma política de ampliação das liberdades, não tratada como um grupo de pessoas incapazes de decidir por si próprias e que precisam ser permanentemente vigiadas pelo Estado.
A juventude precisa ter o direito de utilizar a Internet, os celulares e as redes sociais. Crimes praticados nesses meios devem ser tratados conforme a legislação brasileira, e seus responsáveis investigados individualmente. Transformar cada problema social em justificativa para aumentar a censura apenas fortalece o aparato repressivo do Estado.
A esquerda deveria defender incondicionalmente as liberdades democráticas da população. Bloquear redes sociais, confiscar celulares de estudantes e colocar milhões de jovens sob tutela estatal é justamente o contrário disso.


