A transexual Roberta Santana registrou boletim de ocorrência contra a atriz Cássia Kis, na Decradi na segunda-feira (27), após uma discussão em banheiro feminino de um shopping. Uma divergência sobre o uso de banheiro feminino foi transformada em caso de polícia, mais uma expressão da política direitista do identitarismo.
Segundo relato de Santana à coluna de Fábia Oliveira, do Metrópoles, ela esteve na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância acompanhada da vereadora Benny Briolly (PT). A reportagem afirma que o registro da ocorrência foi formalizado como injúria por preconceito e ameaça supostamente motivadas por “transfobia”. A própria denunciante declarou que foi à delegacia “atrás de Justiça” e que pretendia levar o caso “até o final”.
A confusão teria começado no fim de semana, dentro do banheiro feminino de um shopping no Rio de Janeiro. Roberta relatou que chegava ao trabalho quando foi impedida por funcionários do local de utilizar o espaço e, em seguida, teria sido constrangida por Cássia Kis. E qual foi o “crime” da atriz? Conforme a versão publicada, antes de entrar em uma cabine, Roberta teria ouvido comentários ofensivos. Depois, ao sair do local, afirmou ter visto a atriz discutindo com uma funcionária do banheiro e decidiu perguntar se aquelas falas eram dirigidas a ela.
Ainda de acordo com a denúncia, Cássia Kis teria reclamado da presença de “um homem no banheiro das mulheres” e dito que “o Brasil está perdido”. Roberta respondeu que era uma transexual e que tinha direito de usar o banheiro feminino. A discussão, segundo o relato levado à imprensa, teria continuado em outra área do shopping, com elevação do tom de voz por parte da atriz – o que também não é crime. Roberta afirmou ter se sentido humilhada e classificou a situação como “violência verbal”.
O caso mostra como uma disputa concreta sobre privacidade é imediatamente levada para o terreno penal. Em vez de se tratar o conflito como uma questão social e política, a resposta apresentada pelo identitarismo é acionar delegacia, Ministério Público, assessoria jurídica e campanhas de pressão. Nesse sentido, o identitarismo procura impor sua posição por meio do aparato repressivo do Estado burguês.
Essa política é parte de um ataque mais amplo ao direito das mulheres. Qualquer discordância sobre temas como banheiro, vestiário, esporte feminino ou espaços reservados a mulheres passa a ser tratada como crime ou ameaça. O resultado é que uma atriz, por ter manifestado incômodo diante da presença de um homem em banheiro feminino, é alvo de denúncia policial. A divergência deixa de ser debatida publicamente e passa a ser encaminhada para uma delegacia especializada, com a previsão de punição exemplar.
Mulheres têm direito de querer sua intimidade preservada em um banheiro somente para mulheres, sem transexuais, e a defesa desse direito não deve ser tratada como crime.


