Análise Política da Semana

Bolívia mostra caminho da mobilização popular, diz Rui Pimenta

Presidente do PCO criticou apoio de Lula a Rodrigo Paz e defendeu que trabalhadores brasileiros acompanhem a greve geral boliviana

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, neste sábado (30), durante o programa Análise Política da Semana, da Causa Operária TV (COTV), que a mobilização popular na Bolívia é o principal acontecimento político da semana.

Pimenta tratou, no início do programa, da perseguição judicial contra o PCO por sua defesa da Palestina. Segundo ele, o recente indiciamento dele e de Henrique Arias é apenas parte de uma ofensiva maior, com mais de duas dezenas de processos contra o Partido, dirigentes e militantes. Para o dirigente, a ofensiva tem como objetivo impedir a crítica ao sionismo e aos crimes cometidos pelo Estado de “Israel” contra o povo palestino.

“Não adianta abrir 200 processos. Se algum juiz decidir que nós temos que pagar R$240.000,00 por discutir uma posição política contra o genocídio na Palestina, isso também não vai parar o PCO. Nada disso vai deter a nossa campanha, pelo contrário. A campanha só vai crescer e vai crescer muito”, disse.

O principal tema da análise, no entanto, foi a Bolívia. Pimenta afirmou que a luta contra o governo de Rodrigo Paz mostra a falência da via institucional e aponta para a mobilização direta dos trabalhadores e dos setores populares. Segundo ele, a greve geral, os bloqueios de estradas e a participação dos mineiros com dinamite paralisaram a economia boliviana e colocaram o governo contra a parede.

“Os bolivianos olharam e falaram assim: não temos nada a esperar das instituições políticas, vamos resolver o problema nas ruas. Então, nós estamos aí com um processo gigantesco de luta. Cerca de 80 estradas importantes do país estão bloqueadas. Os mineiros compareceram às manifestações armados de dinamite. Existe uma greve geral no país que bloqueou tudo. Nesse momento, a economia boliviana está completamente paralisada.”

Pimenta lembrou que Rodrigo Paz chegou ao governo em uma eleição fraudulenta, marcada pela exclusão de Evo Morales, principal liderança popular do país. Para o presidente do PCO, impedir que Morales disputasse a eleição já bastava para retirar qualquer caráter democrático do processo eleitoral.

“A eleição democrática é quando todo mundo que quer concorrer pode concorrer. É o mínimo. Mesmo assim, a eleição pode não ser democrática, mas se você não tiver todos os candidatos, não é democrático. Porque quem tem que escolher o candidato é o povo”, afirmou.

Segundo Pimenta, o voto nulo defendido por Morales teve votação expressiva e desmoralizou a eleição. A reação popular, afirmou, veio logo após os primeiros ataques do novo governo contra a população.

O dirigente criticou setores que classificaram a mobilização como golpe de Estado. Para ele, chamar uma revolta popular de golpe é uma inversão completa dos fatos.

“Se colocar o povo todo na rua é um golpe de Estado, então o golpe de Estado é a coisa mais democrática que existe no mundo. Agora, uma coisa é certa: essa mobilização, se ela não sair vitoriosa completamente, derrubar o governo e tudo, que é bem possível de acontecer, pode não acontecer, mas pode acontecer, ela com certeza já aleijou os planos do governo.”

Pimenta afirmou que a mobilização obrigou Rodrigo Paz a frear sua política. Segundo ele, diferentemente da Argentina, onde o governo Javier Milei conseguiu avançar diante da ausência de uma reação popular de maior envergadura, a Bolívia mostra que a ação direta das massas pode conter os ataques.

“A não ser que ele consiga uma vitória esmagadora reprimindo todos os movimentos, ele tem que tomar muito cuidado com o que vai fazer, porque senão ele toca fogo no país de novo. Quer dizer, é uma maneira de conter, no mínimo, o ataque”, disse.

O presidente do PCO também criticou a posição de Lula diante da crise boliviana. O presidente brasileiro anunciou o envio de ajuda humanitária à Bolívia após conversar com Rodrigo Paz. Para Pimenta, como a escassez no país é resultado dos bloqueios organizados pela própria população, a ajuda serve para favorecer o governo boliviano contra a greve.

“Ajuda humanitária para quem, exatamente? Porque se na Bolívia está faltando, se o comércio está fechado, é porque o povo fechou. Então, não é para o povo. Ele não vai mandar comida para os piquetes de greve. É ajuda humanitária para o presidente da Bolívia, para ver se ele consegue furar o cerco que o povo fez em torno da sua política. É uma política de furar greve.”

Pimenta afirmou que a atitude de Lula deve ser criticada pela esquerda, em vez de ser encoberta em nome das eleições. Para ele, defender os trabalhadores bolivianos exige denunciar a colaboração do governo brasileiro com Rodrigo Paz.

“Os integrantes do PT, ou muita gente no PT, não gostam que a gente critique o governo. Mas o que dizer desse tipo de coisa? Segundo eles, a gente teria que não falar nada por causa da eleição. Mas não dá para não falar nada. É impossível. Senão você não defende o trabalhador boliviano.”

O dirigente relacionou a situação boliviana à crise da esquerda brasileira. Segundo ele, há uma ilusão de que seria possível mudar o Brasil por meio de acordos com o Congresso Nacional, com o Judiciário e com as instituições dominadas pela burguesia e pelo imperialismo.

“Ninguém vai mudar o Brasil por meio das instituições atuais. Sem que haja uma revolução política, não vai haver mudança no Brasil. Não adianta fazer acordo com o Congresso Nacional. O Congresso Nacional não vai mudar o país. Se mudar, vai mudar para pior.”

Para Pimenta, a experiência boliviana demonstra que a mobilização popular é o único caminho real para enfrentar os ataques. Ele afirmou que os governos do PT não mudaram a situação do País de maneira substancial justamente pela ausência de greves, bloqueios, mobilizações de rua e ação organizada dos trabalhadores.

“Esse é o único caminho. Vitorioso ou não esse movimento, é o único caminho. Nós temos dito sistematicamente que o PT está no seu quinto governo e não mudou nada de substancial no Brasil. A situação é cada vez pior do ponto de vista econômico, social e político. E tudo isso é pior pela ausência da mobilização popular.”

Outro tema tratado no programa foi a decisão de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Pimenta afirmou que a medida não tem como objetivo combater o crime, mas abrir caminho para maior intervenção dos Estados Unidos no Brasil, especialmente sobre o sistema financeiro.

“O que é o terrorismo? É aquilo que os Estados Unidos e os países europeus disserem que é terrorismo. É aquilo que não interessa a eles. Esse negócio de classificar organizações criminosas como terroristas é um passo adiante numa escalada reacionária”, afirmou.

Pimenta também criticou a nota do governo Lula sobre a decisão de Trump. Segundo ele, o governo brasileiro cedeu diante da política norte-americana ao dizer que PCC e CV praticam terrorismo. Para o dirigente, a formulação facilita o uso da lei antiterrorismo contra milhares de pessoas no País.

Ele também atacou a lei aprovada pelo governo Lula sobre facções e milícias, com penas de até 80 anos de prisão. Para Pimenta, a medida introduz, na prática, a prisão perpétua no Brasil.

“Se discute no Brasil há muito tempo se o Brasil deveria ou não adotar a prisão perpétua. Então, novidade para os brasileiros: o Brasil já adotou a prisão perpétua. Porque mesmo que você cometa um crime com cinco anos de idade e pegue uma pena de 80 anos, você vai morrer na cadeia.”

Sobre a votação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados, Pimenta adotou cautela. Ele afirmou que a esquerda não deveria comemorar antes da tramitação no Senado e da definição final da lei. Para ele, uma votação quase unânime em um Congresso reacionário precisa ser vista com desconfiança.

“Esse Congresso é reacionário, corrupto, direitista, patronal. E, de repente, votou a escala 6×1 e, a acreditar em boa parte da esquerda brasileira, é uma conquista histórica dos trabalhadores. Quer dizer, uma conquista histórica dos trabalhadores conquistada pelo Hugo Motta. Como é possível isso?”, questionou.

Nos comentários finais, Pimenta tratou da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a expulsão de Aldo Rebelo da Democracia Cristã, da campanha contra Neymar e do cancelamento da marcha do orgulho trans nos Estados Unidos. Segundo ele, esses episódios expressam, em diferentes terrenos, a interferência do Estado e do imperialismo na vida política e social.

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