A Central Obrera Boliviana (COB) decidiu, no domingo (31), manter os bloqueios de rodovias em diferentes regiões do país e rejeitou participar da mesa de negociações convocada pela Igreja Católica para tratar do conflito com o governo de Rodrigo Paz. A decisão foi tomada após várias horas de debate em uma plenária ampliada de emergência realizada em La Paz.
O dirigente do Magistério Urbano de La Paz, José Luis Álvarez, afirmou que os setores mobilizados descartaram, por enquanto, a participação em negociações.
“Os trabalhadores vão continuar com a medida de pressão. Foi decidido manter as medidas de pressão. Até agora não há possibilidade, foi descartada a negociação”, disse Álvarez.
Segundo o dirigente, a posição das organizações expressa a insatisfação com a atuação do governo durante o conflito. Os setores mobilizados avaliam que o Executivo privilegiou ações de controle e repressão, em vez de atender às reivindicações apresentadas pelos trabalhadores, transportadores, camponeses e demais organizações em luta.
A plenária ampliada da COB também aprovou a abertura de corredores humanitários para permitir a passagem de produtos essenciais, como medicamentos e oxigênio destinados a centros de saúde e à população mais afetada. A direção da central ainda não informou a data nem as condições para a aplicação da medida.
A decisão da COB ocorre no momento em que os bloqueios se ampliam no país. Segundo o último relatório da Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), a Bolívia registra 89 pontos de bloqueio ativos em seis departamentos. Outros informes da ABC e da Polícia indicam que o número se aproxima de 100 pontos. O conflito já completa 31 dias.
La Paz segue como o departamento mais afetado, com mais de 20 pontos de bloqueio. Também há cortes em Cochabamba, Chuquisaca, Oruro, Potosí e Santa Cruz. Beni, Pando e Tarija registram circulação parcial, com desvios obrigatórios e restrições em alguns trechos.
As principais rotas que ligam o ocidente, os vales e parte do oriente boliviano permanecem interrompidas. Em La Paz e El Alto, a situação foi agravada pela greve indefinida do transporte urbano e pela falta de combustíveis nas estações de serviço. As duas cidades também enfrentam dificuldades no abastecimento de alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais.
Os comerciantes também aderiram às mobilizações e alertaram para o risco de falta de mercadorias em mercados populares e centros de abastecimento, caso os caminhões de carga continuem parados nas estradas. A COB, por sua vez, convocou uma marcha nacional em apoio às bases mobilizadas.
Os transportadores mantêm a paralisação denunciando que o governo descumpriu acordos anteriores. Entre as reivindicações do setor estão compensações econômicas pelos danos causados aos motores dos veículos pela má qualidade da gasolina importada distribuída no país e a apresentação dos relatórios técnicos prometidos pelo governo em conjunto com a Universidade Estatal.
A tentativa de negociação conduzida pela Igreja Católica, pela Vice-presidência e pela Defensoria do Povo permanece sem avanço. A Defensoria alertou que ameaças, insultos e declarações de confronto feitas por porta-vozes do governo dificultam qualquer aproximação com a direção operária e do transporte.
O governo Rodrigo Paz defende a Lei 1720 e sustenta que mecanismos de exceção constitucional podem ser usados como último recurso para preservar a ordem interna. Para os setores mobilizados, a posição do governo aprofunda o conflito e fortalece a exigência de renúncia do presidente.
Em Patacamaya, as 77 comunidades da província Aroma, no departamento de La Paz, decidiram em assembleia popular manter e ampliar o bloqueio indefinido até que Rodrigo Paz apresente sua renúncia. As comunidades também rejeitaram negociações com o governo.
Em Caracollo, representantes de cinco departamentos — La Paz, Oruro, Cochabamba, Chuquisaca e Potosí — ratificaram a exigência de renúncia do presidente e decidiram manter os bloqueios de estradas nessas regiões. Os representantes afirmaram que qualquer iniciativa de negociação precisa ser aprovada pelas bases, e que uma decisão isolada de dirigentes será considerada uma traição às reivindicações dos setores mobilizados e do povo boliviano.





