Universidade Marxista

Aula 3: o 4 de Fevereiro e o ‘Por Agora’

Curso exclusivo segue narrando a História da Revolução Bolivariana de uma forma que nunca antes foi debatida no Brasil

Na terceira aula do curso “A História da Revolução Bolivariana”, Henrique Simonard mergulhou nas entranhas da esquerda venezuelana, traçando um panorama detalhado do período que vai da queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, em 1957, até o fatídico golpe de 4 de fevereiro de 1992, liderado por Hugo Chávez. Simonard utilizou uma técnica de “linhas do tempo paralelas” para explicar como a esquerda, sistematicamente excluída do poder pelo Pacto de Puntofijo, buscou alternativas que variaram entre a via parlamentar, a guerrilha foquista e, finalmente, a infiltração estratégica nas Forças Armadas.

Simonard explicou que, após a queda de Jiménez em 1958, os partidos tradicionais (AD, COPEI e URD) selaram o Pacto de Puntofijo com o objetivo explícito de isolar o Partido Comunista Venezuelano (PCV). Embora o PCV fosse a força mais organizada e tivesse desempenhado um papel crucial na derrubada do ditador, ele representava um risco aos interesses norte-americanos. Nesse cenário, emergiu a figura de Fabrício Ojeda, um jornalista que Simonard descreveu como o grande articulador da Junta Patriótica. Ojeda vivia uma vida digna de filme: era repórter credenciado no Palácio de Miraflores e entrevistava o ditador Jiménez enquanto, simultaneamente, organizava a conspiração para derrubá-lo. Após a vitória da democracia burguesa e a subsequente traição do novo regime contra a esquerda, Ojeda renunciou ao seu mandato de deputado em 1962 com uma frase que marcaria época: “Vou para as montanhas”.

A aula dedicou um tempo significativo para analisar por que a guerrilha venezuelana, inspirada no sucesso de Cuba, falhou miseravelmente entre 1962 e 1966. Simonard pontuou que, diferentemente da ilha caribenha, a Venezuela de Rómulo Betancur possuía estabilidade econômica graças ao petróleo e havia iniciado uma reforma agrária que esvaziou o apoio camponês aos guerrilheiros. Além disso, a pressão da União Soviética para que os movimentos baixassem as armas — para não “atiçar” os Estados Unidos em seu quintal — gerou uma crise profunda. Foi nesse momento que Douglas Bravo, líder das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), rompeu com o marxismo tradicional de Moscou e começou a cozinhar uma ideologia nacionalista própria, baseada no que chamou de “Teoria Cívico-Militar”.

Henrique Simonard detalhou como Douglas Bravo, percebendo que a guerrilha isolada no campo não venceria, iniciou a Operação Aquarium. Esta tática consistia em infiltrar jovens militantes e captar oficiais de baixa patente dentro da Academia Militar venezuelana. Simonard explicou o peso dessa mudança estratégica:

“Douglas Bravo, o ‘Fidel venezuelano’, foi obrigado a reconhecer que a guerrilha não daria certo sem o apoio de Cuba e sob a sabotagem da União Soviética. Ele então rompe com o marxismo ortodoxo e começa a desenvolver uma ideologia nacionalista, apelando para líderes históricos como Bolívar e Ezequiel Zamora. Sua grande sacada foi a infiltração assídua nas Forças Armadas, aproveitando o Plano André Bello de 1971, que modernizou o exército e enviou jovens oficiais, como Hugo Chávez, para estudar em universidades civis repletas de professores de esquerda. Chávez é filho direto desse fracasso da guerrilha; ele foi captado por esse movimento de infiltração enquanto ainda era um jovem oficial do interior, impactado pelos abusos que via o exército cometer contra camponeses na fronteira com a Colômbia.”

O curso avançou para a fundação do MBR-200 (Movimento Bolivariano Revolucionário 200). Simonard explicou que o movimento se baseava na “Árvore das Três Raízes”: o pensamento de Simón Bolívar (unidade latino-americana), Simón Rodríguez (educação e eleição popular) e Ezequiel Zamora (luta camponesa e “horror à oligarquia”). Chávez e seus companheiros usavam a figura de Bolívar como um “código secreto” para conspirar dentro dos quartéis sem levantar suspeitas. No entanto, foi o Caracazo de 1989 que acelerou o processo. Simonard narrou que Chávez, embora doente e fora de Caracas naqueles dias, ficou traumatizado ao ver seus companheiros de farda serem obrigados a massacrar o povo — resultando em cerca de 3 mil mortes. Esse evento destruiu a última gota de legitimidade do regime e convenceu o MBR-200 de que o golpe era inevitável.

A aula culminou na narrativa do golpe de 4 de fevereiro de 1992. O plano, que envolvia o sequestro do presidente Carlos Andrés Pérez (CAP), vazou, e CAP conseguiu fugir para a televisão para denunciar os rebeldes. Chávez, ilhado no Museu Histórico Militar, decidiu se render para evitar um banho de sangue, mas impôs uma condição: falar em rede nacional. Henrique Simonard destacou que esse minuto de discurso transformou um fracasso militar em um triunfo político absoluto.

Simonard encerrou a aula lendo o famoso discurso de Chávez, onde o comandante assumia toda a responsabilidade pelo movimento e proferia a frase que mudaria a história da Venezuela: “Companheiros, infelizmente, por agora, os objetivos que nos traçamos não foram alcançados na capital… já é tempo de refletir, e virão novas situações”. Simonard concluiu que, ao assumir a culpa e pedir que seus soldados baixassem as armas, Chávez virou o “herói máximo” da população, o capitão que o povo esperava para quebrar as cadeias do pacto de Puntofijo, pavimentando o caminho que o levaria à presidência em 1998.

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