O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na sexta-feira (10), que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo porque os jogadores “não se conversavam”. Durante reunião no Palácio do Planalto, também criticou o fato de atletas da Seleção terem contratado fotógrafos particulares durante o torneio.
“Cada jogador com um fotógrafo especial, cada jogador com uma câmera, ou seja, eles não conversaram que era preciso derrotar os adversários”, declarou.
A fala não explica a derrota por 2 a 1 para a Noruega. Repete a campanha da imprensa burguesa segundo a qual os jogadores brasileiros seriam vaidosos, individualistas e pouco interessados na Seleção.
O Brasil não perdeu porque havia fotógrafos acompanhando os atletas. Perdeu uma partida de mata-mata na qual desperdiçou um pênalti, criou oportunidades e cometeu erros aproveitados pelo adversário.
Ao adotar esse caminho, o governo coloca-se a reboque da ofensiva contra o futebol brasileiro.
A diferença aparece no tratamento dado aos jogadores eliminados em outros países.
Cabo Verde perdeu por 3 a 2 para a Argentina, mas seus atletas foram recebidos como heróis na Cidade da Praia. Milhares de torcedores tomaram as ruas, carregaram bandeiras e celebraram a melhor campanha da história do país.
A Federação Cabo-Verdiana convocou a população com uma mensagem simples: “Vamos receber os nossos heróis”.
O Egito também foi eliminado pela Argentina. A equipe abriu 2 a 0, sofreu a virada e deixou a Copa depois de uma partida cercada por reclamações contra a arbitragem.
Ao voltar, a delegação desfilou em ônibus aberto diante de centenas de torcedores. Mohamed Salah declarou que a campanha deveria ser o início de uma nova etapa para o futebol egípcio.
Esses países compreenderam que uma seleção nacional não deve ser medida apenas pelo resultado final.
Os jogadores representaram seu povo, enfrentaram adversários poderosos e mereceram reconhecimento.
No Brasil, ocorreu o contrário. Em vez de uma palavra de defesa diante da campanha de ataques, o Palácio do Planalto aderiu à reprimenda pública.
A concentração dos ataques sobre os atletas ajuda a retirar de cena os verdadeiros responsáveis pela desorganização.
A CBF trocou treinadores, dirigentes e dezenas de jogadores durante o ciclo. Entregou o comando da Seleção a um técnico estrangeiro depois de uma longa campanha de desmoralização do futebol brasileiro.
Os clubes europeus retiram nossos atletas cada vez mais cedo. O Brasil forma jogadores, perde-os ainda jovens e depois precisa montar uma seleção composta quase inteiramente por profissionais desligados do futebol nacional.
A FIFA controla a competição, a arbitragem e o VAR. Define regras, calendários e condições que favorecem os países imperialistas e os grandes negócios do esporte.
Nada disso aparece quando a explicação se limita a fotógrafos e falta de conversa.
A derrota vira um problema de comportamento individual. Os dirigentes, a FIFA e os capitalistas do futebol saem protegidos.
A Seleção Brasileira não pertence à CBF, aos patrocinadores ou aos jogadores individualmente. Pertence ao povo brasileiro.
Foi construída por atletas negros, pobres e trabalhadores. Tornou-se a maior campeã mundial e um dos principais símbolos internacionais do País.
Por isso, a atitude do governo tem peso político.
Cabo Verde e Egito compreenderam que uma derrota não obriga um país a humilhar seus representantes. Receberam suas seleções com orgulho porque sabem que o futebol também é parte da soberania nacional.
O governo brasileiro deveria ter feito o mesmo.
Não era necessário organizar uma festa artificial nem esconder os erros. Bastava defender os jogadores diante da campanha de desmoralização e afirmar que a reconstrução da Seleção seria feita com confiança no futebol brasileiro.



