A direção do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil encerrou, na quarta-feira (5), a greve dos trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) após o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) aceitar encaminhar à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) um projeto para permitir a transferência dos empregados da companhia para outros órgãos públicos.
A medida, apresentada como uma vitória dos ferroviários pela burocracia sindical e pelo PSOL, não atende à reivindicação central levantada pela categoria: a reestatização das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade.
As três linhas continuam concedidas ao grupo Comporte Participações, controlador da Trivia Trens. O acordo simplesmente cria uma saída para os trabalhadores atingidos pela privatização, permitindo que sejam aproveitados em outros órgãos ou entidades estaduais.
Dessa maneira, o governo preservou a entrega das linhas à iniciativa privada e conseguiu desmontar a greve fazendo uma concessão secundária à burocracia sindical.
A manobra teve como ponto de apoio o Projeto de Lei nº 730/2025, apresentado pelo deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL).
O projeto prevê a possibilidade de absorção por outros órgãos da administração pública estadual dos empregados da CPTM afetados pelas privatizações.
Essa reivindicação foi incorporada à negociação pela burocracia sindical apesar de não resolver o problema colocado pela greve. A reivindicação dos ferroviários era manter o transporte nas mãos do Estado, e não privatizá-lo e transferir os trabalhadores para outros setores do serviço público.
Foi justamente essa alternativa psolista que o governo aceitou, obviamente porque ela é absolutamente compatível com a privatização das linhas da CPTM.
Na noite de quarta-feira, Tarcísio enviou à Alesp um projeto autorizando a absorção dos trabalhadores das Linhas 10-Turquesa, 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade por órgãos e entidades da administração estadual, por meio de redistribuição, cessão, aproveitamento ou remanejamento.
Para o governo, é um acordo extremamente favorável. A empresa privada continua com as linhas e o Estado fica responsável por encontrar destino para milhares de empregados da CPTM – se é que isso será realmente garantido, haja vista o extenso histórico de golpes contra os trabalhadores.
A greve aconteceu em um dos piores momentos para o governo desde a entrega das linhas.
A Trivia assumiu integralmente a operação das Linhas 11, 12 e 13 em 21 de julho. Nos dias seguintes, ocorreram falhas, atrasos e até um incêndio em uma composição da Linha 12-Safira.
A situação obrigou a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) a determinar que a CPTM reassumisse temporariamente a operação por 90 dias.
Ou seja, poucos dias depois de entregar o serviço à iniciativa privada, o próprio governo precisou recorrer novamente à empresa estatal para manter os trens funcionando.
Era uma situação extremamente favorável aos ferroviários. A greve atingiu um setor fundamental dos transportes paulistas no exato momento em que a privatização demonstrava seu fracasso diante de milhões de passageiros.
Em vez de utilizar essa força para exigir a reversão da privatização, a burocracia sindical aceitou um acordo que mantém intacta a política de Tarcísio.
Por sua vez, como um verdadeiro oportunista pelego e eleitoreiro, o deputado Guilherme Cortez, candidato do PSOL a deputado federal, passou a reivindicar para si os méritos do acordo.
Satélites do partido teleguiados por George Soros, como a Mídia Ninja, também apresentaram o encerramento da greve como uma vitória dos trabalhadores.
É uma falsificação completa e uma inversão do resultado da luta.
Tarcísio não devolveu as linhas à CPTM. O contrato com a Trivia não foi cancelado. A política de privatização não sofreu qualquer alteração.
O que o governador fez foi aceitar uma proposta que lhe permite continuar privatizando sem enfrentar imediatamente o problema político provocado pela situação dos trabalhadores da empresa estatal.
O PSOL, portanto, forneceu a fórmula para salvar a privatização. A burocracia sindical utilizou essa concessão para encerrar a greve e Cortez agora procura obter dividendos eleitorais apresentando a capitulação como uma conquista sua.
A aliança entre o PSOL e Tarcísio produziu um resultado bastante concreto: o governador fica com a privatização e o deputado tenta ficar com os votos. O povo fica com um serviço que será mais caro e incompetente e os ferroviários ficam de mãos abanando, por ora sem garantias concretas de remanejamento no emprego, manutenção dos mesmos salários e direitos.
Comprovando que suas críticas ao PSOL não são sérias, o MRT, por meio do Esquerda Diário, comemorou o acordo.
O sítio declarou que a greve teria “dobrado o governo do privatista Tarcísio de Freitas, que foi obrigado a enviar projeto de lei para a Alesp garantindo o emprego dos trabalhadores da CPTM”.
Que bela tentativa de copiar Cortez e apresentar a traição como uma conquista! Não houve qualquer recuo do governo na privatização.
Os ferroviários demonstraram força. Quem impediu que essa força fosse utilizada até o fim foram as direções que aceitaram trocar a luta contra a privatização por uma promessa de realocação dos empregados, a partir de uma aliança de Tarcísio com o PSOL.
Portanto, a direção sindical encerrou uma greve que estava exercendo forte pressão sobre o governo em troca de uma medida que sequer está aprovada, pois os compromissos deverão ser incluídos em acordo coletivo até 19 de agosto, quando está prevista uma nova audiência no TRT-2.
Além disso, o projeto enviado pelo governo ainda precisa tramitar pelas comissões da Alesp, ser aprovado pelos deputados e sancionado. Não existe prazo definido para a votação.
Enquanto isso, o fato consumado é a concessão das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade à Trivia.
O episódio mostrou não uma vitória sobre Tarcísio, mas a maneira pela qual a burocracia sindical e a esquerda pequeno-burguesa podem atuar para retirar os trabalhadores de uma luta justamente quando sua mobilização começa a colocar em risco os planos da direita e dos capitalistas.
A greve poderia ter sido ampliada, recebendo o apoio dos metroviários e de outras categorias, até obrigar o governo a reestatizar as linhas. Em seu lugar, prevaleceu a saída parlamentar e pelega do PSOL para entregar a ferrovia aos capitalistas.





