Brasil

Acabou a química de Lula por Trump?

Jornalista tenta provar que a tal ‘química’ entre Lula e Trump não era amor, mas chantagem. No entanto, Lula já vinha cedendo para Biden

A amizade entre Lula e Trump abriu uma crise silenciosa na esquerda. Esta vinha fazendo uma intensa campanha “contra o fascismo” quando, de repente, a frase “Trump é meu amigo” estragou a brincadeira.

Então, é preciso uma pequena operação de salvamento, uma explicação do inexplicável, como o artigo Não era química. Era chantagem contra Lula, de Reynaldo José Aragon Gonçalves, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (2).

Tomando o título como partida, que Lula estivesse sendo chantageado, é preciso considerar duas coisas: 1) o Brasil sempre foi ameaçado pelos Estados Unidos e, 2) Lula, nesta última eleição, teve inicialmente contato com Joe Biden. Sendo assim, por que centrar a análise apenas em Donald Trump?

Foi durante o governo Biden, em 2024 – com ou sem chantagem – que Lula exigiu as atas das eleições da Venezuela. Foi também em 2024 que Lula bloqueou a entrada da Venezuela no BRICS.

A desculpa foi uma “quebra de confiança”, uma vez que a Venezuela não apresentou as atas do resultado de suas eleições. Mas nenhum país soberano deve ser obrigado a isso. No mais, o Egito e a Arábia Saudita, que são ditaduras, não foram barrados de entrar no bloco. Onde está a coerência?

Em agosto de 2024, o embaixador não compareceu à celebração dos 45 anos da Revolução Sandinista. O governo nicaraguense, com toda razão, leu isso como desrespeito e uma interferência política.

Atritos com Venezuela e Nicarágua são uma novidade sob os governos petistas. Terá sido coincidência que os países que dois mais agredidos pelos EUA, tirando Cuba, tenham sido hostilizados pelo petista?

Aragon Gonçalves diz que “o que se apresentou como distensão diplomática em 2025 era, na verdade, uma operação de teste. Entre encontros, negociações e sinais públicos de aproximação, Washington buscava medir até onde o Brasil estaria disposto a ceder em áreas estratégicas. O resultado está claro agora: não houve concessão no núcleo da soberania nacional. E, por isso, a pressão voltou, mais organizada, mais técnica e mais perigosa”.

Fica difícil entender o porquê da pressão ter voltado “mais organizada, mais técnica e mais perigosa” se a postura contra a Venezuela causou danos até dentro da base petista. As recentes declarações de Lula de que a liberdade de Nicolás Maduro, bem como de sua esposa, Cília Flores, não é prioridade, foram um aprofundamento de acordos anteriores.

O articulista sustenta que “a chamada “química” entre Lula e Trump foi mal interpretada desde o início. Quando Trump mencionou uma suposta afinidade após o encontro com Lula no entorno da ONU, parte do debate público tratou aquilo como sinal de distensão. Era uma leitura superficial. Naquele momento, a investigação comercial contra o Brasil já estava aberta havia meses, e o país já havia sido enquadrado em áreas sensíveis como pagamentos eletrônicos, comércio digital, tarifas e propriedade intelectual. A estrutura de pressão não foi desmontada. Apenas ficou menos visível”.

Todos sabem dos jogos de Donald Trump, de sua dissimulação, mas, na verdade, se houve má interpretação dos fatos, Lula também deve ser responsabilizado, pois seu comportamento, seus discursos, levaram a isso.

No que diz respeito à gestão Trump, Gonçalves diz que “a questão deixou de ser se Lula seria atacado e passou a ser até onde ele cederia para evitar a escalada”. Lula já cedeu bastante, como vimos nos exemplos acima envolvendo a Venezuela. E, pode ser forçado a mais, visto que é um governo fraco desde o início, pois não busca apoio em sua base. Basta comparar o apoio popular que o governo Maduro conquistou na Venezuela, e muito da postura firme do país de não ceder frente ao imperialismo.

Para beneficiar Lula, o autor diz que “os movimentos posteriores confirmam isso. A mudança de tom não veio de uma reconciliação estratégica, mas de uma acomodação tática de interesses. Houve necessidade de reduzir custos imediatos, especialmente para setores econômicos impactados pela tensão. A linguagem suavizou. O objetivo permaneceu”. Em outras palavras, o governo cedeu.

Tentando salvar pelo menos um pouco do resta, Gonçalves diz que “como o Brasil não cedeu no essencial, a pressão voltou. Mais organizada, mais precisa e mais difícil de ser ignorada”. Outra leitura possível seria a de que os EUA, uma vez que colocaram o pé na porta, agora estão exigindo mais.

Explicações

O texto de Aragon Gonçalves, são quase 15 mil caracteres, vai ser basicamente uma lista de tipos de pressão que o País sofre dos Estados Unidos como as “tarifas direcionadas e restrições a setores específicos. Pode avançar no campo financeiro, afetando percepção de risco, custo de crédito e fluxos de capital”, ou com o uso da imprensa com “narrativas de instabilidade, questionamentos institucionais e amplificação de conflitos internos”.

Há ainda explicações do tipo “a coerção contemporânea não depende de um único movimento decisivo. Ela opera por acúmulo. Por pressão contínua. Por redução gradual de margem”, e que “a sequência dos fatos não deixa espaço para dúvida. A aproximação entre Lula e Trump não produziu estabilidade porque nunca teve esse objetivo. Foi uma tentativa de ajuste sem confronto aberto. Um teste de limite”.

Porém, o que Gonçalves vai insistir é que “Lula não cedeu. E é por isso que o Brasil ainda respira”. Esse é o intuito do texto, dizer que a firmeza de Lula é que “o Brasil ainda respira porque não cedeu”.

Resta saber se alguém vai se convencer. Gastou-se muita energia na política diversionista da luta da ‘democracia contra o fascismo’, e tanto a “química” quanto a “amizade” continuam sem explicação.

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