Polêmica

A fogueira contra a biologia

Movimento identitário quer colocar na cadeia todo mundo que não aceita suas ideias que se chocam com a realidade

No dia 28 de março de 2026, o portal Poder360 publicou o artigo O corpo como sentença: a fogueira contra Erika Hilton, assinado pela professora da UnB, Berenice Bento. No texto, a articulista abandona qualquer vestígio de rigor científico para defender a tese de que a biologia é uma “invenção política”. Bento utiliza o habitual arsenal de jargões universitários para atacar a realidade material, tratando a diferenciação sexual — um fato da natureza — como um mero “dispositivo de exclusão”. Ao tentar blindar a deputada Erika Hilton de críticas, a autora acaba por liquidar o conceito de mulher e substituir a luta contra a opressão real por uma metafísica.

O ponto mais escandaloso do texto de Bento é a negação aberta da biologia básica. Em um esforço para desvinculá-la da realidade, a autora afirma:

“O dimorfismo é filho da modernidade: nasce na Europa… Não foi a ciência biológica que definiu que mulheres são radicalmente diferentes dos homens, mas interesses políticos…”

A afirmação beira o ridículo. Bento quer convencer o leitor de que, antes da modernidade europeia, a humanidade não percebia que existiam machos e fêmeas na espécie humana. O dimorfismo sexual é uma realidade biológica de milhões de anos, presente em inúmeras espécies e fundamental para a reprodução da vida. Tratá-lo como uma “invenção europeia” é um “terraplanismo” das ciências sociais. Para a autora, a ciência não passa de uma opinião a ser descartada quando atrapalha a narrativa identitária.

Bento tenta validar sua ideologia subjetiva utilizando-se de uma analogia historicamente desonesta com a escravidão negra:

“As mulheres negras escravizadas tinham os mesmos atributos biológicos das mulheres brancas livres… Sua pele, seu cabelo e outros fenótipos, no entanto, as interditavam de pertencer ao mundo dos seres humanos.”

Aqui, a autora ignora propositalmente que a opressão das mulheres negras foi baseada em critérios materiais e biológicos. Elas não eram “desumanizadas” por um discurso, mas exploradas economicamente por sua força de trabalho e por sua capacidade biológica de parir novos escravos para o senhor. Tentar equiparar a situação da escravidão com a “identidade de gênero” de Erika Hilton é uma ofensa à história da luta negra.

A articulista utiliza o conceito de “misoginia” de forma totalmente vaga e relativa para interditar o debate. Segundo ela:

“Ao agredir a congressista pela suposta ausência de um órgão definidor do seu ser, se reiterou um dos elementos estruturantes da misoginia: definir a mulher pela vagina.”

Para Bento, constatar que uma mulher é definida por sua biologia é “misoginia”. No entanto, a “misoginia real” atinge as mulheres justamente por sua condição biológica de fêmeas. A opressão é material: desigualdade salarial, falta de direitos reprodutivos etc. Transformar a “misoginia” em uma categoria abstrata serve apenas para silenciar críticos e rotular o senso comum do povo como “ódio”.

Finalmente, Bento exibe o desprezo da pequena burguesia acadêmica pela realidade vivida pela maioria da população:

“Não há uma única molécula envolvida nos processos de definição das identidades de gênero. Deixem a biologia fora dessa discussão.”

Dizer que “não há uma molécula” envolvida no sexo é um delírio idealista. A classe trabalhadora, que lida com a dureza da vida material, sabe que o sexo não é um desejo ou “uma construção de gênero”, mas uma realidade física. Ao mandar “deixar a biologia fora”, Bento confessa que sua ideologia não sobrevive ao confronto com os fatos. Ela prefere o misticismo acadêmico, onde a identidade flutua acima da matéria, à análise científica da sociedade.

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