O artigo 01, 02, 03, 04… 1964, de Marcelo Uchôa, publicado no Brasil247 nesta terça-feira (31), revela que há um setor da esquerda que tem memória seletiva.
Uchôa inicia dizendo que “nessa semana, pesquisas eleitorais presidenciais demonstraram que a corrida à cadeira mais importante da República, em 2026, tende a se polarizar. De um lado, o presidente Lula, com seu projeto de defesa da soberania nacional, de distribuição social da riqueza e sua proposta civilizatória”. Esse é o momento da propaganda, de quem não consegue ver que tem algo de muito errado com a “distribuição social de riqueza”, bem como com a “proposta civilizatória”, visto que não conseguem evitar a polarização social.
Continuando se parágrafo, Marcelo Uchôa escreve que “do outro [lado], o filho que não tem nome, o 01, e sua promessa de, eleito, anistiar, indultar, enfim, isentar de punição os bandidos que atentaram contra a democracia do país, em 8 de janeiro de 2023, especialmente seu pai, o ex-presidente que hoje goza do benefício extraordinário de uma prisão domiciliar humanitária, que a ninguém mais no país seria concedida, exceto a ele, que, mesmo após condenado, crê estar sendo injustiçado por ser punido como qualquer outro que cometesse os mesmos crimes”.
O que o articulista não percebe é que a essa sua visão está longe de ser consenso entre a população, que não acha nada “civilizatório” colocar na cadeia uma mãe que pichou uma estátua com batom. E quem a mandou prender? Um juiz que figura em um mega escândalo de corrupção. E quem defende esse juiz? A esquerda, que o trata como paladino da democracia e um caçador de fascistas.
Ninguém acredita que fazer uma manifestação em uma praça pública, mesmo que tenha havido casos de vandalismo, possa ser considerado um “atentado contra a democracia”. Finalmente, os vidros foram substituídos e a estátua foi limpa com um simples jato de água.
Quanto a Jair Bolsonaro estar em prisão domiciliar, isso já era esperado, como também era esperado que os populares que participaram da manifestação no 8 de janeiro fossem punidos com requintes de crueldade.
Aliás, a prisão de Bolsonaro já tinha um benefício implícito: caso concordasse em apoiar um candidato da terceira via. A burguesia queria, desde o início, negociar.
Os abutres…
Segundo Uchôa, “é a recordação do que aconteceu no final da ditadura de 1964, quando os abutres que praticaram crimes contra o Estado Democrático de Direito, a dignidade da pessoa humana, o orçamento público e as liberdades civis e políticas em geral foram beneficiados pela Lei de Anistia de 1979, jamais pagando pelas atrocidades cometidas, comprovando o ditado: ‘crime não punido é crime repetido’”.
É preciso concordar com Uchôa, pelos menos no ditado popular, pois, como não foram punidos os golpistas de 2016, eles foram transformados em heróis da democracia e por isso tentaram outro golpe com a prisão de Jair Bolsonaro.
No que consiste o golpe? Como a burguesia não quer um candidato com votos, como Lula e Bolsonaro – difíceis de controlar –, prendeu o ex-presidente para obrigá-lo a apoiar um candidato a la Milei nas presidenciais que, com esse apoio, teria boa chance de vencer Lula, que seria devidamente desgastado com uma campanha na imprensa, como já ocorreu mais de uma vez.
A maioria da esquerda finge que não houve golpe em 2016, fala de 1964. No entanto, estes golpistas de também estiveram presentes no golpe que derrubou Dilma Rousseff. No entanto, é preciso varrer essa verdade para debaixo do tapete, pois o governo Lula, que se afastou de sua base, se apoia sobre acordos instáveis com esses golpistas para conseguir um mínimo de governabilidade.
O fim dos tempos
Uchôa joga com a carta do ‘tudo ou nada’. Apresenta o “cenário de 2026: a continuidade da reconstrução nacional ou o retorno à barbárie. Será que a história nada ensinou ao país? A não punição da ditadura de 1964 resultou na tentativa de golpe em 2023, e a impunidade em 2023 resultará na mesma agonia no futuro”.
Como sempre, vale a máxima “faça o que digo, não o que faço”. A esquerda também não puniu os golpistas de 2016 e estes estão tratando de fazer agonizar qualquer resquício de democracia para o futuro.
O STF, golpista de primeira hora, está tratando de acabar com a liberdade de expressão. A cada dia são criadas novas leis cuja única função, em nome dos direitos dos oprimidos, vão apenas produzir encarceramentos como nunca se viu neste País, onde as prisões são máquinas de tortura que matam 60 presos todos os dias e de doenças que só eram comuns nas masmorras da Idade Média.
A maioria da esquerda também se juntou à Rede Globo, golpista de 1964 e 2016, para emparedar o Congresso e aumentar mais ainda os super poderes do STF.
Aprendizagem
Marcelo Uchôa roga para que “este 31 de março, dia que rememora a passagem do golpe de 1964, sirva para refletir sobre que Brasil se quer consolidar”. Uma ótima proposta. Poderíamos começar fazendo as ligações entre os golpes de 64 e 2016. Com isso mostraríamos a todos que existe uma linha de continuidade entre esses dois eventos. O STF, por exemplo, por motivos óbvios, nunca foi molestado pelo regime militar. Mas, há um perigo aí, pois todos logo questionariam a aliança da esquerda com esses golpistas.
O articulista termina seu texto de maneira dramática, falando em “Entreguismo nunca mais. Vassalagem nunca mais. Ditadura nunca mais”. Devemos lembrar a ele sobre a política do Brasil em relação à Venezuela? E quanto ao veto do país vizinho entrar no BRICS? Sobre o apoio à ditadura judiciária? Não adianta ficar exigindo atitudes da classe trabalhadora quando esses mesmos setores não fazem o que pedem aos outros.





