O artigo “[Até o diabo está com medo, ministro Flávio Dino, publicado por Moisés Mendes no Brasil 247 nesta sexta-feira (25), talvez seja uma das expressões mais acabadas de um problema que há anos domina boa parte da esquerda brasileira: a política do medo.
O ponto de partida do artigo é uma declaração de Flávio Dino durante uma sessão do Supremo Tribunal Federal. Em meio ao enfrentamento entre André Mendonça e Alexandre de Moraes, Dino afirmou: “Não tenho medo de nada nem de ninguém”. A partir daí, Mendes constrói uma extensa enumeração de setores da população que supostamente estariam tomados pelo medo de uma nova ascensão da direita. Segundo ele, “o Brasil todo sente medo”.
O primeiro problema está justamente na tentativa de transformar um ministro do STF em símbolo de coragem política. Um juiz não precisa parecer valente, destemido ou heroico. Isso é ridículo. A criação de figuras providenciais no interior do Judiciário apenas substitui a mobilização política da população pela esperança de que algum integrante das instituições do Estado detenha a direita.
Durante anos, Alexandre de Moraes ocupou esse papel para amplos setores da esquerda. Agora que sua situação política se tornou mais complicada, procura-se projetar sobre Flávio Dino uma imagem semelhante. É uma concepção profundamente institucional da política propor que diante do suposto perigo representado pela direita, o trabalhador deve confiar no Supremo, nos ministros, na Polícia Federal e em outras instituições do Estado.
Mendes, no entanto, vai além. Pobres, professores, estudantes, negros, mulheres, gays, travestis, índios, sem-terra, sem-teto, ambientalistas, jornalistas e até os rios e as matas aparecem no artigo como personagens de uma grande sociedade dominada pelo medo.
Mas qual seria a política decorrente disso? A direita não pode ser combatida transformando a população numa multidão apavorada à espera de proteção institucional. Se existe um perigo político, é preciso organizar a classe trabalhadora e combatê-lo.
O fascismo nunca foi obra de um indivíduo. Na Alemanha, Hitler não simplesmente decidiu tomar o poder e impor sozinho uma ditadura. O nazismo contou com a cooperação de setores empresariais alemães.
Na Itália, os esquadrões fascistas de Mussolini, utilizados na violência contra organizações socialistas e sindicatos, receberam dinheiro e apoio material de grandes proprietários de terras. O fascismo cresceu no interior de uma intensa crise social e política e foi utilizado contra o movimento operário.
Por isso, apresentar Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato de direita como alguém que, sozinho, pode instaurar o fascismo obscurece justamente o problema de se explicar que forças econômicas, políticas e institucionais estariam dispostas a sustentar uma transformação desse tipo.
Mendes em seu artigo menciona índios que estariam com medo do que pode acontecer num eventual novo governo de direita. Mas deveria falar do que já acontece hoje. Este Diário tem denunciado frequentemente as perseguições e assassinatos de lideranças indígenas.
O relatório mais recente do Conselho Indigenista Missionário sobre 2025 registrou aumento dos conflitos territoriais, da violência contra pessoas e das situações classificadas pela entidade como omissão do poder público. O documento menciona, entre outros casos, o assassinato de Vitor Braz, do povo Pataxó, na Bahia, e de Vicente Fernandes, Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul.
A Funai é uma verdadeira nulidade. A questão do índio só vai ser resolvida com as tribos se armando e enfrentando o latifúndio e seus capangas. Mas, como falar sobre essa perspectiva quando o PT lança uma Simone Tebet ao Senado?
A política do medo tem sua função. Em vez de discutir terra, salário, emprego, moradia, jornada de trabalho, serviços públicos, organização sindical e condições concretas de vida, desloca-se o centro da discussão para a ameaça de perder aquilo que existe.
O artigo segue esse método. Em determinado momento aparecem o ProUni, o Pé-de-Meia, o Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo, que entram no argumento não como ponto de partida para reivindicar muito mais, mas como coisas que podem ser retiradas. O trabalhador é convidado menos a lutar por novas conquistas do que a sentir medo de perder as atuais. Uma política completamente defensiva.
Não se vê reivindicações que realmente entrem em choque com interesses poderosos, é mais conveniente organizar o discurso em torno de uma ameaça permanente. A política deixa de ser “é preciso conquistar” e passa a ser “cuidado para não perder”. Em vez de se potencializar a capacidade de mobilização dos trabalhadores, o que se oferece é a proteção contra um inimigo assustador.
Em vez de aumento geral dos salários, redução da jornada, emprego, direito à terra, moradia e ampliação dos direitos políticos, ganham espaço propostas de proibição, censura ou endurecimento de punições. A esquerda passa a competir com a direita para demonstrar quem é mais capaz de regular comportamentos, vigiar discursos ou apelar ao aparato repressivo do Estado.
Mendes termina seu artigo evocando novamente o medo do fascismo e imaginando um futuro no qual métodos de perseguição e violência seriam aperfeiçoados. E qual política deriva daí?
Se alguém acredita realmente que existe uma ameaça política grave, a resposta racional não é ensinar milhões de pessoas a tremer diante dela. Muito menos apresentá-las como dependentes da valentia de Flávio Dino ou de qualquer outro ministro do Supremo.
Nenhum Flávio Dino, ou qualquer ministro é capaz de enfrentar o capital, pois fazem parte do aparato do Estado, que essencialmente defende os interesses da classe dominante. A única política possível é a organização da classe trabalhadora. Os trabalhadores são a única força que a burguesia realmente teme, pois é a única capaz de vencê-la.





