Daniel Vorcaro

A delação que não delata ninguém

Ex-banqueiro afirmou à PF que acordo de R$129 milhões tinha como objetivo se aproximar de Alexandre de Moraes, mas negou contrapartida

A proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, rejeitada pela Polícia Federal na semana passada, citava o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi publicada pelo jornalista Lauro Jardim, em O Globo, neste domingo (14).

Segundo a publicação, um dos anexos da proposta tratava de um contrato de R$129 milhões envolvendo Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Vorcaro afirmou à PF que o acordo tinha como objetivo se aproximar de Alexandre de Moraes, mas declarou que não houve contrapartida. Ainda conforme a reportagem, o ex-banqueiro disse que não existiu ato de ofício capaz de comprometer o ministro.

A proposta de delação apresentada por Vorcaro foi rejeitada pela Polícia Federal. De acordo com informações publicadas pela Gazeta do Povo, a PF avaliou que os elementos apresentados eram insuficientes para justificar o acordo.

A recusa, no entanto, ocorre em um momento em que crescem as suspeitas sobre os bastidores do caso. A revelação de que Moraes apareceu em um dos anexos da delação reforça a hipótese de que o problema não está apenas no conteúdo apresentado por Vorcaro, mas também no que ele se recusa a entregar.

A delação, do modo como foi apresentada, aparece como uma blindagem a Moraes. Vorcaro cita um contrato já conhecido, de R$129 milhões, reconhece que ele servia para se aproximar do ministro, mas afirma que não houve contrapartida. Ou seja, menciona o fato mais explosivo, mas retira dele qualquer consequência direta para o ministro do STF.

O episódio reforça a suspeita de que a delação está sendo negada porque Vorcaro se recusa a delatar um setor poderoso, no qual Moraes aparece envolvido. A Polícia Federal, que atua como braço do imperialismo, pressiona para que o ex-banqueiro entregue esse setor e, com isso, atinja o ministro do STF.

A operação envolvendo Vorcaro, o Banco Master e suas conexões políticas e judiciais vem sendo acompanhada com atenção porque atinge diretamente uma zona sensível do regime político. Moraes, um dos principais nomes do STF e figura central da ofensiva da ditadura da toga dos últimos anos, aparece agora ligado, ainda que indiretamente, a um contrato milionário apresentado pelo próprio delator como uma tentativa de aproximação.

Outro ponto que aumentou a repercussão foi a decisão da Polícia Federal de impor sigilo de 100 anos sobre a lista de visitantes de Vorcaro durante o período em que ele está preso.

A lista de visitantes poderia revelar quem procurou Vorcaro depois de sua prisão e ajudar a esclarecer as tratativas em torno da delação. O sigilo, nesse caso, impede que se conheça uma parte importante dos bastidores do caso.

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