Imprensa burguesa

A ‘defesa da democracia’ do Estadão

Estadão se diz muito preocupado com a democracia, mas deixa claro que o sonho da burguesia é um candidato neoliberal da terceira via

Estadão

As eleições têm um efeito interessante: fazem a burguesia repetir seu eterno discurso de que está preocupada com a democracia, com a sociedade, etc., e não consigo própria. O editorial do Estadão, sob o título O Brasil precisa de reformas, não ruínas, publicado neste domingo (3), não foge à regra.

O texto inicia dizendo que “há algo de inquietante no espírito do tempo político brasileiro. De diferentes matizes ideológicos, ganha força um discurso que flerta com a ideia de que o sistema está esgotado e, por isso, mereceria ser implodido”, o que é natural, a burguesia quer conservar as coisas como estão, afinal lucra com isso.

“Esse impulso”, continua o editorial, “classificado como ‘antissistema’ e hoje em voga tanto na retórica bolsonarista quanto em setores do lulopetismo, constitui um risco real para a democracia”. Nesse trecho, nota-se que a classe dominante não quer com bolsonarismo, assim como não quer o petismo, e sonha com uma terceira via: um governo sem base social – ao contrário dos dois caos apresentados – e fácil de ser controlado.

O problema das instituições

Em sua análise, o Estadão aponta que “de um lado, multiplicam-se ataques demolidores ao Supremo Tribunal Federal, distintos do necessário debate sobre sua reforma e correção. De outro, o esforço do PT para posar como alternativa ao ‘sistema’ soa como deboche diante de um presidente em terceiro mandato e de um partido em seu quinto ciclo no poder”.

Nota-se aí que a burguesia sente a necessidade de fazer mudanças no Supremo Tribunal Federal, mas não quer destruir a instituição que foi útil, inclusive com o apoio do Estadão, pela interrupção no “ciclo de poder” petista. Portanto, não se deve acreditar que um jornal golpista leve a sério a questão da democracia.

“A pergunta elementar”, continua o jornal, “raramente enfrentada com a seriedade devida, permanece no ar e deve ser dirigida à direita reacionária, mormente bolsonarista, à esquerda demagógica, mormente petista, e ao Centrão fisiológico: destruir o sistema para colocar o quê em seu lugar?”. Ao elencar três setores do espectro político, o Estadão se mostrar fora da disputa, ou como um elemento neutro cuja única função seria analisar os dados da realidade.

Ocorre que se trata de um jornal burguês, e o que se pode ler dessa colocação, é que a burguesia busca um regime estável que a própria situação política brasileira não é capaz de oferecer, dada a polarização social. Especialmente porque, isso não é segredo, o que se espera de um novo governo é que ataque sem piedade todas as conquistas sociais que ainda restam, bem como a privatização e o saque das riquezas nacionais em prejuízo do povo.

Continuando o raciocínio, o trecho do editorial diz que “a história política, no Brasil e no mundo, oferece uma resposta incômoda: a ruína de sistemas institucionais, ainda que imperfeitos, raramente dá lugar a arranjos mais virtuosos. Com frequência, abre caminho para aventuras autoritárias, quando não para experiências abertamente totalitárias. O vazio institucional não é ocupado pela virtude, mas pela força.”

O que dizer da posição do Estadão quando da “ruína”? Esteve ao lado das “aventuras autoritárias” e “totalitárias”. Obviamente, a burguesia prefere não ter que recorrer a esse tipo de expediente, pois sabe que é custoso manter o regime funcionando, prefere as ditaduras liberais que se costuma denominar democracias.

Nada de polarização

O Estadão recorre a opiniões de especialistas para dizer que “ao contrário da narrativa catastrofista, o sistema político brasileiro não está em colapso”, e que “ao longo dos últimos 30 anos, construiu-se um arcabouço que, com limitações características de regimes imperfeitos, produziu avanços relevantes. Reformas eleitorais, mecanismos de controle, leis de responsabilidade fiscal e instrumentos de transparência ilustram um processo contínuo de aperfeiçoamento democrático”.

As reformas eleitorais que o jornal comemora, são imposições autoritárias que concentram o poder nas mãos de poucos partidos e deixa de fora a maioria da esquerda.

A lei de responsabilidade fiscal foi introduzida por Michel Temer após o golpe contra Dilma Rousseff, que foi planejado e orquestrado pelo imperialismo norte-americano. Por isso o Estadão diz que “não se trata de idealizar o sistema, mas de reconhecer que ele funciona e tem resistido a crises severas”.

O editorial parece querer colocar panos quentes na situação política, enquanto tenta chutar para fora Lula e Flávio Bolsonaro, pois insiste em dizer que “democracias maduras não são imunes a crises, mas capazes de enfrentá-las sem colapsar. O Brasil demonstrou esse atributo. E é justamente isso que expõe a inconsistência da agenda de aventureiros, no caso bolsonarista, e de oportunistas, no lulopetista”.

Como todo farsante, o Estadão não consegue se conter e acaba exagerando na interpretação. Diz que “cabe ainda a questão levantada por [Fernando] Abrucio: onde estavam, em momentos decisivos para a democracia brasileira, os atores que hoje brandem a bandeira antissistema? Como se posicionaram diante da ditadura de 1964 ou de autocracias mundo afora?” A esquerda estava contra a ditadura, enquanto o Estadão, Bolsonaro e o restante estavam com os militares.

O jornal sustenta que “O Brasil não precisa de salvadores da Pátria, mas de instituições mais eficientes, regras claras e lideranças comprometidas com o aperfeiçoamento democrático”, mas a burguesia precisa, pois a crise do capital se aprofunda.

Quanto ao “aperfeiçoamento democrático” estamos presenciando isso no mundo todo, com o aumento de leis cada vez mais repressivas, de modo que o grande capital ainda não se sente a necessidade de soltar seus cães fascistas da coleira.

O editorial finaliza dizendo que “entre a reforma e a ruína, a escolha não deveria ser difícil. Fiel à sua tradição, [o Estadão] não tem apreço por aventuras” (é verdade, prefere a estabilidade das ditaduras); e que “sociedades estáveis e prósperas privilegiam reformas graduais e pactuadas. Mudanças incrementais, não rupturas, definem as democracias mais avançadas. É assim que deve ser no Brasil”.

Como falar em sociedades estáveis e prósperas quando o brasileiro é esfolado vivo pelos burgueses? As famílias estão endividadas até o pescoço, ainda mais com uma política de juros criminosa e apoiada por uma imprensa que é contra programas sociais.

Pelo editorial, nota-se que a burguesia não quer polarização, mas isso não é uma questão de querer. A aposta em um governo neoliberal pode convulsionar o País e o tiro pode muito bem sair pela culatra.

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