Por vezes ouvimos falar em ideologia burguesa, pequeno-burguesa ou proletária. De maneira errônea, somos levados a crer que algo como a ideologia burguesa seria aquela que é defendida pela burguesia, e a ideologia proletária seria aquela defendida pelo proletariado. Entretanto, essa intuição é seriamente desafiada quando vemos que há proletários defendendo ideias típicas da pequena-burguesia, como o empreendedorismo ou o livre-mercado. De forma análoga, também vemos que houve grandes líderes revolucionários que vinham de berço burguês, como Engels, e que defenderam o proletariado como poucos. Assim, fica a pergunta: qual a melhor forma de analisar a relação entre ideologia e classe social?
Uma das formulações mais claras sobre esse problema foi feita por Kovalhov em seu livro “materialismo dialético e histórico”. Ele escreve:
“Karl Marx escreveu que os ideólogos dos pequenos comerciantes não têm que ser obrigatoriamente pequenos comerciantes. Por outras palavras, a posição de classe do ideólogo, do filósofo, muitas vezes é uma coisa diferente das suas simpatias e origens. Não é importante a camada social de que provém (Engels era filho de um fabricante e Meany, líder sindical reacionário dos EUA, de origem operária) mas os objetivos concretos a que aspira, que conclusões se tiram das suas ideias. Por isso, mesmo o filósofo reacionário mais decente e sinceramente enganado se mantém nosso adversário ideológico. Ele pode considerar-se a si próprio o que quiser, defensor de ideias humanistas e até defensor da classe operária, e no entanto ele exprime objetivamente interesses burgueses”.
Fica claro, assim, que o determinante ideológico não é a classe social na qual a pessoa está ou na qual ela nasceu. Isso é determinado por uma série de fatores complexos. Mas para categorizarmos uma ideologia como burguesa ou proletária, precisamos verificar quem objetivamente se beneficiará daquelas ideias. Se as ideias são concretizadas e a burguesia se beneficia, estamos diante de uma ideologia burguesa. Se as ideias são concretizadas e o proletariado se beneficia, estamos diante de uma ideologia proletária.
A importância desse debate está justamente em deslocar o foco das intenções subjetivas para os efeitos objetivos das ideias. Em vez de tomarmos como critério as justificativas individuais mobilizadas para defender determinada posição, passamos a perguntar: a quem essas ideias servem concretamente quando colocadas em prática?





