No últimos 2 anos todas as Universidades palestinas foram explodidas pelas bombas de israel com financiamento dos estados unidos. Além das Universidades, a entidade sionista também teve como alvo as escolas palestinas, destruindo toda a infraestrutura educativa de Gaza. Em apenas 2 anos, o imperialismo sanguinário e a besta sionista conseguiram destruir milênios de História, incluindo sítios arqueológicos e até mesmo locais de peregrinação cristã, como o Mausoléu de São Pedro Simão e a centenária Igreja de São Porfírio, contradizendo a narrativa neopentecostal de que israel teria qualquer relação com a fé cristã e a desculpa bíblica para justificar a colonização da Palestina. Nesse momento, em primeiro de dezembro de 2025, a Universidade Islâmica de Gaza retoma suas atividades em um prédio ainda com marcas de destruição e dezenas de professores a menos, professores esses que foram martirizados por israel, como o médico dr. Adnan Al-Bursh, torturado brutalmente até a morte nas masmorras sionistas.
Apesar da destruição brutal e sistemático genocídio contra o povo palestino, essa realidade ainda não é suficientemente amplificada nas Universidades e escolas brasileiras. Por conivência, complacência ou cumplicidade, muitos professores e professoras não abordam essa realidade em suas aulas e locais de trabalho, como se pudéssemos nos dar o privilégio do silêncio ou da apatia moral pelo mero fato da distância geográfica ou até com base em argumentos alienantes como “já temos problemas para nos preocupar aqui”, mais uma vez ignorando a relação que há entre o genocídio do povo palestino e as armas que israel testa nos povos do Levante – testando bombas em Gaza, drones que atingem veículos em movimento no Líbano (matando famílias inteiras quase diariamente), armas químicas tanto em Gaza quanto no Líbano, e até mesmo bombas nucleares táticas testadas no Iemen – e as armas utilizadas pelas polícias militares contra a população negra e periférica no Brasil. Isto é, nosso país segue importando armas israelenses e vendendo nosso petróleo para a entidade sionista, em um acordo que sela a marca do velho Estado genocida. Como, então, silenciar sobre o escolasticídio, ecocidío e genocídio do povo palestino, sendo uma agente da Educação? Levando em conta que israel eliminou 24% de toda a população jovem de Gaza, é preciso que a juventude brasileira tenha contato com essa realidade para que possa então ter o direito de se posicionar e demonstrar solidariedade internacional.
É nesse sentido que no dia 27 de novembro de 2025 tive a chance de abordar a Causa Palestina e como ela se insere na luta antirracista, à convite da professora Francisca Lúcia de Jesus Bernardino, que atua como apoio da gestão da Escola de Ensino Médio Integral Matias Beck (EEMTI Matias Beck), localizada no histórico bairro do Mucuripe em Fortaleza, Ceará. A atividade se inseriu na semana temática da Consciência Negra, cujo tema na escola era “Vida loka é quem estuda!”. O objetivo da ação era demonstrar a dimensão do racismo no contexto do Levante (racismo anti árabe e islamofobia) e sua relação com os processos de necropolítica contra as populações não brancas no Brasil, sobretudo as populações negras e indígenas, conectando realidades geograficamente distantes mas atravessadas pelos mesmos processos de colonização e genocídio. A ação foi proposta na forma de roda de conversa, onde no pátio central da escola, organizamos as cadeiras em círculo e no centro do círculo foi montada uma grande mesa com imagens impressas demonstrando o antes e depois dos bombardeios israelenses em Gaza, mapas da Palestina, imagens de pessoas que tiveram suas vidas interrompidas pela brutalidade sionista, como a criança Hindi Rajab, que com 6 anos foi morta com 355 tiros pelo exército genocida de israel, bem como também imagens que demonstram a dimensão que a doutrinação tem nas ideologias racistas, como a famosa fotografia de crianças israelenses escrevendo mensagens em mísseis que seriam lançados contra as crianças palestinas. Além das imagens, na mesa central também haviam livros como “A destruição da Palestina é a destruição do mundo”, a HQ “Notas sobre Gaza”, “Contra o sionismo: retrato de uma doutrina colonial e racista”, “Laboratório Palestina”, “Notas sobre Gaza”, “O Hamas conta seu lado da história”, “Gaza terra da poesia” “Gaza através da tragédia”, “Palestina um século de Resistência”, “Sumud em tempos de genocídio” e dois dossiês sobre a Resistência palestina. A ideia é que as obras ficariam disponíveis para estudantes folhearem durante toda a atividade, ajudando a despertar a curiosidade e desmistificar dúvidas. A roda de conversa terminaria com uma proposta de ação prática de demonstração de solidariedade global: a confecção de cartazes com mensagens de apoio ao povo palestino, com foco nas noções de Resistência e Ancestralidade. Havia também uma bandeira palestina estendida no pátio.
Assim, toda a comunidade escolar foi convidada a participar, o que incluia o corpo docente, funcionárias e funcionários e estudantes da EEMTI Matias Beck. Os objetivos eram também desconstruir estereótipos sobre árabes e muçulmanos e construir percepções contextualizadas historicamente e calcadas na noção de Resistência desses povos, explicitando o conceito de “Ideologia”, e como é a ideologia sionista que formulou a identidade, no imaginário geral do senso comum, entre terrorismo e povos árabes, demonstrando que o terrorismo é antes sionista e imperialista. Assim, foi falado sobre a origem dos povos árabes, a religião muçulmana, quais são os países árabes, etc. Dessa forma, a roda de conversa objetivava despertar solidariedade internacional e a consciência da interconexão de todas as opressões em curso no mundo desde o colonialismo.
A metodologia utilizada foi o formato de aula aberta, partindo dos saberes prévios dos estudantes. Através da conversa conectamos os pontos de contato entre mundo árabe e Ceará; desde o cuscuz e o café saboreados no cotidiano até os elementos constitutivos da estética do Cangaço, os instrumentos musicais e ritmos, como o repente e o aboio, ambos com influências da musicalidade árabe. Além disso, falamos também sobre a resistência negra no Brasil, durante a Revolta dos Malês, na qual o Islã ajudou a unificar pessoas de diferentes povos e origens africanas, vivendo sob a mesma opressão colonial. Abordamos também o fato da colonização ter se dado no Brasil (e ainda estar em curso) contra os indígenas originários daqui, do mesmo modo que a opressão na Palestina acontece contra os originários daquele território.
O início da fala tratou da história da colonização da Palestina, evidenciando o sionismo como uma doutrina racista, e assim levando ao entendimento do conceito de ideologia – sendo o racismo uma manifestação ideológica de superioridade, com base na ficção (e portanto ideologia) de “raça”. Foram mostradas imagens ao longo da roda de conversa para trabalhar as noções de colonizador x originário, antes x depois do genocídio cometido por israel contra a milenar civilização Palestina, resistência legítima x terrorismo, ideologia x realidade (materialmente determinada e constituída), demonstrando com artefatos, objetos e imagens que os palestinos são o povo originário da Palestina e não os israelenses, uma história recente de colonização mas cuja Ideologia em muito se assemelha à ideologia colonizadora europeia do séc. XVI que invadiu nosso território. Falamos também sobre a substituição de nomes originários por nomes colonizados, o que ocorreu desde a nomeação do Brasil até os nomes inventados pelos colonizadores para os povos indígenas, assim como as cidades palestinas tiveram seus nomes substituídos por nomes hebraicos, daí a importância de nomearmos essas cidades milenares: Ramallah, Gaza, Jericó, Al-Khalil, Jaffa, Nablus. Também falamos sobre o termo “Oriente Médio”, termo definido pelo colonizador europeu, que por uma questão política e anticolonial durante toda a roda de conversa, utilizei o termo “Levante”, explicando também que existem países árabes na Ásia, como no Continente Africano.
Por fim, falamso também de como israel instrumentaliza a Educação para fins de doutrinação na ideologia racista sionista, e como a ideologia, de forma geral, sempre se pode notar na forma constiuída de um discurso transmitido pelas instituições, sobretudo a Escola – isto é, como o racismo é ensinado desde a infância, tanto aqui como lá.
A atividade teve ao fim falas de professores da escola e através dessas falas pude ter conhecimento que a escola teve uma eletiva ministrada pelo professor de História inteiramente sobre a história da Palestina e do seu atual genocídio perpetuado por israel. Tivemos também a participação do artista e professor sírio Jihan Katish, que falou sobre sua experiência enquanto sírio e refugiado político no Brasil, abordando aspectos como o preconceito e a xenofobia.
Ao fim da atividade, com o material cedido pela escola, propûs que fizessemos cartazes para pregar na escola, e que suas mensagens chegariam até o povo palestino! Isso conectou os e as estudantes tão fortemente às pessoas que leriam as mensagens, que espontaneamente os estudantes pesquisaram em seus celulares as traduções, em árabe, das mensagens escritas em português, e chegaram a escrevem em árabe nos cartazes, frases como “Vocês não estão só”, “Palestina livre”, e “Liberdade!”. Assim, as e os estudantes tiveram contato com o fato de que a Resistência é legítima, não só por que o artigo 51 da Carta da ONU assim o afirma, mas porque resistir à uma opressão colonial, que invade seu território e rouba suas terras, é natural. A noção de território conecta, para o imaginário de boa parte desses jovens, aquilo que eles vivenciam ao que é vivenciado pela juventude palestina. Sabemos que boa parte dos bairros de periferia têm sido invadidos pela mesma lógica colonial: jovens nascidos em um bairro são impedidos de frequentar outros bairros, existe uma contenção e controle de fronteiras invisíveis, assim como na Palestina ocupada por israel existe também o mesmo controle manifestado fisicamente, com check points, muros e soldados munidos com fuzis que impedem o livre trânsito do povo palestino em seu próprio território. Quando perguntados sobre o que lhes vêm à mente quando pronuncio a palavra “Gaza”, alguns estudantes responderam: “guerra!”. Ao que respondi com outra pergunta: “Vocês acham impossível que, no futuro, quando alguém pronunciar a palavra ‘Fortaleza’, o que venha à mente seja também ‘guerra’?”. O silêncio das e dos estudantes diante dessa pergunta revela que eles e elas reconhecem como guerra também o que se passa em seus territórios, e que nesse sentido sua realidade e a realidade da juventude palestina estão conectadas.
A atividade reverbera a necessidade de levarmos a Causa Palestina para as escolas, mobilizando estudantes secundaristas na luta internacionalista em apoio ao povo palestino, gerando conexão e consciência da relação entre as opressões racistas do capitalismo global aqui e lá, a partir das noções e sentimentos de solidariedade, empatia e compaixão, desmistificando a farsa sionista neopentecostal de que israel teria qualquer semelhança com os valores cristãos ou com a história do Cristianismo. Assim, relembramos que Jesus, cujos ensinamentos são seguidos por boa parte da classe estudantil nas escolas públicas hoje no Brasil, era um palestino, e que seu local de origem hoje sofre um apagamento histórico e é alvo de um terrorismo colonial.
A roda de conversa foi um momento extremamente necessário e enriquecedor, todas as pessoas tiveram suas consciências tocadas pela realidade do genocídio israelense em curso contra o povo palestino e foram convidadas a serem também parte desse movimento global de solidariedade internacional, afinal, as e os estudantes reconhecem que, caso estivessemos no lugar dos palestinos, também gostaríamos que o mundo inteiro se levantasse para nos defender. Que essa proposta reverbere também em outras escolas públicas Brasil afora, que professoras e professores possam reconhecer que falar do genocídio do povo palestino atualmente em curso é não só uma obrigação moral e pedagógica, mas que ter conhecimento dessa realidade é um direito da classe estudantil brasileira, que têm o direito de saber a verdade, sendo a escola o local por excelência de transformação das consciências e da sociedade. Agradeço imensamente ao convite feito pela professora Francisca Lúcia, da escola EEMTI Matias Beck, bem como a toda a gestão da escola, nominalmente a diretora Virgínia Vialagran e as coordenadoras Elisonete Costa e Sâmia Araujo, que acolheram a atividade e a escola agora conta com um mural logo em sua entrada em apoio ao povo palestino! Saúdo a iniciativa da escola e que essa atividade se multiplique Brasil afora.









