O pré-candidato ao Senado por São Paulo pelo Partido da Causa Operária (PCO), Ednelson Cesaretti, afirmou que a candidatura do partido representa uma alternativa de esquerda diante da submissão da chapa governista a políticos da direita. A declaração foi dada na noite de segunda-feira (3), durante entrevista ao programa Mesa de Debates – De tudo, um pouco, transmitido pelo YouTube.
Professor da rede pública municipal e militante do PCO desde 1995, Cesaretti recordou que atua há três décadas nas mobilizações dos professores, dos servidores públicos e dos trabalhadores em geral. Segundo ele, sua pré-candidatura não resultou de uma iniciativa individual, mas de uma decisão coletiva tomada pelo partido como parte de sua intervenção nas eleições.
Ao apresentar o sentido político da candidatura, o professor denunciou o apoio de setores do PT e de outros partidos que integram o governo a nomes como Simone Tebet e Marina Silva. Cesaretti lembrou que ambas apoiaram o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e a perseguição política que levou à prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. Também citou Márcio França e o vice-presidente Geraldo Alckmin como representantes da velha política do PSDB incorporados à coligação governista.
“A chapa governista do Partido dos Trabalhadores, juntamente com outros partidos de esquerda que fazem parte do governo, abdicou de lançar candidaturas próprias para apoiar elementos da direita que estão dentro do governo, como Simone Tebet e Marina Silva. Há anos, inclusive na época do golpe de 2016, elas se colocaram totalmente a favor da perseguição ao governo do PT, inicialmente com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e, depois, com todo o processo que acabou na prisão de Lula. Diante dessas candidaturas governistas, a candidatura do PCO é a candidatura de esquerda, em defesa dos interesses dos trabalhadores e com independência em relação aos patrões.”
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Defesa de Lula contra o golpe
Questionado pelo apresentador Guilherme sobre a posição do PCO diante dos governos petistas, Cesaretti explicou que o partido não abandonou sua oposição à política de conciliação com a burguesia. A defesa de Dilma e Lula, acrescentou, decorreu da necessidade de enfrentar a ofensiva golpista comandada pelo imperialismo, pela imprensa capitalista e pelo Judiciário.
Cesaretti recuperou a sequência iniciada com o Mensalão e aprofundada pela Operação Lava Jato, que culminou no golpe de 2016 e na prisão de Lula. Embora o PCO não tivesse apoiado a eleição de Dilma, colocou-se na linha de frente contra sua derrubada porque identificou que o objetivo da direita era impor um programa de ataques ainda mais duros aos trabalhadores.
O pré-candidato também lembrou que muitos dirigentes petistas subestimaram tanto a possibilidade do golpe quanto a prisão de Lula. Enquanto integrantes do próprio PT acreditavam que o ex-presidente permaneceria preso por poucos dias, militantes do PCO organizaram atos permanentes por sua liberdade e passaram dois anos consecutivos, durante o réveillon, diante da sede da Polícia Federal em Curitiba.
“Nós do PCO fomos o setor da esquerda que mais decididamente atuou para chamar a esquerda a defender a soltura de Lula”, declarou. Para Cesaretti, a prisão foi uma operação política impulsionada pelo imperialismo e por seus representantes no País.
O apoio eleitoral a Lula contra Jair Bolsonaro seguiu o mesmo critério. Cesaretti ressaltou, porém, que a expectativa de que o governo pudesse se deslocar para a esquerda foi frustrada desde a montagem do ministério, com a entrega de cargos a integrantes dos setores que haviam apoiado o golpe.
Na avaliação do militante, a política de frente ampla impediu que o governo se apoiasse na mobilização popular e nos sindicatos. Em vez de recorrer à força organizada dos trabalhadores, entre eles os milhões reunidos em mais de 3.000 sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), Lula aprofundou os acordos com a direita.
“Em vez de se apoiar nos sindicatos, o governo procurou se apoiar na política de alianças, na política de frente ampla. Isso só foi se aprofundando. Nos momentos em que Lula tentou impor uma política diferente, todo esse setor pressionou o governo a manter uma política neoliberal, uma política de ataque às condições de vida dos trabalhadores.”
Cesaretti ressalvou que as decisões eleitorais do PCO são tomadas coletivamente, em congressos e conferências. A posição do partido no segundo turno, portanto, será definida após a votação de outubro pelos organismos partidários.
Um candidato ao Senado que defende o fim do Senado
Um dos pontos centrais da entrevista foi a defesa de um sistema parlamentar com apenas uma câmara. Cesaretti afirmou não haver contradição entre disputar uma cadeira no Senado e defender a extinção da instituição. Pelo contrário: sua candidatura utilizará o processo eleitoral para denunciar o caráter antidemocrático da segunda câmara.
Segundo o pré-candidato, o Senado viola o princípio de “cada homem, um voto” porque todos os estados elegem três senadores, independentemente de sua população. Roraima, um dos estados menos populosos do Brasil, possui o mesmo número de representantes que São Paulo, o mais populoso.
Cesaretti caracterizou a instituição como um instrumento das oligarquias e do grande capital. Citou a presença, em Brasília, de representantes da Federação Brasileira de Bancos, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e da Confederação Nacional da Indústria, que mantêm pressão permanente sobre os parlamentares.
“Quando você tem duas câmaras, essa segunda câmara, que é o Senado, joga no lixo o princípio de cada homem, um voto. Uma decisão tomada por um Congresso que conseguisse minimamente defender os interesses dos trabalhadores poderia ser revertida. O Senado é um mecanismo totalmente voltado para defender os interesses do imperialismo, um grande covil de oligarquias.”
O número reduzido de senadores, prosseguiu, facilita o controle exercido pelo poder econômico. O PCO defende não apenas o fim do Senado, mas uma ampliação da representação na Câmara dos Deputados, medida que aumentaria as possibilidades de pressão popular sobre os eleitos.
Submissão ao imperialismo
Ao tratar da soberania nacional, Cesaretti criticou a posição do governo Lula diante das agressões dos Estados Unidos aos povos da América Latina e do Oriente Médio. Ele mencionou a Venezuela, a Bolívia, o Irã e a Palestina como exemplos de situações nas quais o governo brasileiro se recusou a organizar uma oposição consequente ao imperialismo.
Sobre a Venezuela, o pré-candidato condenou a ausência de uma resposta firme de Lula diante da invasão norte-americana e do sequestro do presidente do país. Também criticou o silêncio do governo diante do levante dos trabalhadores bolivianos e das agressões contra o Irã. Em relação à Palestina, afirmou que o governo não procurou mobilizar a população brasileira contra o genocídio promovido por “Israel”.
“Não temos um governo soberano. O governo Lula transformou-se em um governo submisso aos interesses do imperialismo, pressionado principalmente pela ala democrata do poder nos Estados Unidos, mas também abaixando totalmente a cabeça para o governo Trump”, disse.
Cesaretti também classificou como “um verdadeiro absurdo” a possibilidade, noticiada recentemente, de o governo norte-americano enviar um representante para acompanhar e interferir nas eleições brasileiras. Ele vinculou a ameaça à falta de uma política firme do Brasil em defesa da soberania de outros países: ao tolerar a ingerência imperialista contra os povos vizinhos, o governo abriu caminho para que Washington tentasse impor o mesmo tratamento ao Brasil.
Partido operário e programa revolucionário
Durante a entrevista, Cesaretti apresentou ainda um breve histórico do PCO. A organização surgiu no fim da década de 1970 como a corrente Causa Operária e participou da fundação do PT. Dentro do partido, defendeu a formação de uma organização operária independente da burguesia.
A corrente acabou expulsa do PT depois de combater a escolha do latifundiário José Paulo Bisol como candidato a vice-presidente na chapa de Lula em 1989. Para Cesaretti, a perseguição à Causa Operária antecipou o caminho que o PT percorreria nas décadas seguintes, aprofundando cada vez mais sua política de conciliação com a burguesia.
Depois da expulsão, a organização iniciou a campanha por sua legalização como partido. Militantes percorreram dezenas de municípios e estados para recolher os apoios necessários, até que o Partido da Causa Operária foi legalizado em 1995.
Cesaretti afirmou que o PCO participa das eleições para defender um programa revolucionário e explicar à população as causas dos problemas econômicos e sociais do País. O partido, ressaltou, não alimenta ilusões de que a simples vitória eleitoral possa resolver os problemas da classe operária.
Ao responder a uma pergunta sobre a unidade da esquerda, o professor apontou a adesão de várias organizações à política chamada de identitária como um dos obstáculos à ação comum. Segundo ele, essa política separa as lutas dos negros, das mulheres e dos homossexuais da luta geral dos trabalhadores contra os capitalistas e os banqueiros.
Cesaretti citou como exemplo um documento distribuído pela Prefeitura de São Paulo às escolas municipais para tratar da xenofobia. Segundo o professor, o texto utiliza 16 vezes a palavra “crime” e expressa uma orientação policial, baseada na punição, no cancelamento e no silenciamento dos adversários, em lugar da organização política dos trabalhadores.
No encerramento, o pré-candidato convidou o público para a convenção eleitoral do PCO, marcada para sábado (8), a partir das 10 horas, na Casa de Portugal, em São Paulo. O ato lançará as candidaturas de Rui Costa Pimenta à Presidência da República, Izadora Dias ao governo paulista e Ednelson Cesaretti ao Senado.





