STF

A arte de defender o indefensável

Jornalista que até outro dia defendia a inocência de ministros do STF envolvidos no caso do Banco Master, tenta agora mudar o foco para Campos Neto

Dias Toffoli

O artigo Vocês acham que vão parar em Toffoli?, de Eduardo Guimarães, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (12), mostra o beco sem saída de uma política que desde o início demonstrava não ter futuro.

Quando escreve no olho do artigo que “Se o STF se amedrontar e entregar a cabeça dele, o próximo será Alexandre de Moraes. E depois Gilmar Mendes”, Guimarães interrompe o raciocínio para evitar escrever ali um nome: Lula.

Até outro dia, o articulista vinha defendendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, agora que este deixa a relatoria do caso (que nunca deveria ter pegado), muda o tom e tenta espalhar a sujeira no ventilador.

A Polícia Federal é outro fator que entra em cena. A instituição, que vinha sendo elogiada pelo imprensa alternativa, mostrou que está fora de controle. Pelo menos não é o Estado que a controla. É muito provável que se seja o grande capital, o FBI e talvez mesmo a CIA.

Conforme a matéria Lula desaprova investigação da PF sobre Toffoli e contato direto com o STF, de Guilherme Levorato, publicada nesta sexta-feira (13) também no Brasil247, “o presidente ficou surpreso com apuração sem autorização do Supremo e avaliou que relatório deveria ter sido encaminhado via Ministério da Justiça”.

Ainda sobre a PF, a esquerda não aprende, elogia quem grampeou o gabinete da presidenta Dilma Rousseff. Sendo assim, não adianta se supreender com o fato de “a corporação ter investigado o magistrado sem autorização do STF, a partir de mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, dono do Master”.

Essa gente foi fundamental no Petrolão, no Mensalão, na Lava Jato, no golpe de 2016… o que estava faltando? Ainda assim, houve quem rasgasse elogios a quem tem impedido até a entrada de palestinos no Brasil.

Como se não bastasse, “a atuação da PF também acabou gerando reflexos políticos sobre o próprio presidente da República. Segundo ministros do STF, a percepção dentro da Corte é de que a cúpula da Polícia Federal dificilmente teria agido dessa maneira sem respaldo de Lula, já que o atual diretor-geral da corporação é visto como alguém muito próximo ao chefe do Executivo”.

Mudando de assunto…

Diante do aprofundamento do escândalo, o melhor a fazer é apontar para outra direção. Guimarães diz que “a Polícia Federal denunciou nesta semana que o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto deixou o banco Master à vontade para construir a bomba que lesou fundos de pensão e investidores desavisados”.

E diz em seguida que “o banqueiro Daniel Vorcaro recebeu 18 avisos do Banco Central, ignorou todos e continuou construindo a sua bomba atômica financeira. Campos Neto sequer foi cobrado pela imprensa de direita, já que a de esquerda está focada em Dias Toffoli. – grifo nosso.

Que diferença faz se o escândalo começou na gestão anterior do BC? Isso não elimina o fato de haver ministros, até ex-ministros, de algum modo envolvidos com o caso, e o Supremo é defendido pela imprensa de esquerda, que agora está tendo dificuldade de se livrar do mico.

Guimarães, em seguida, diz que “a imprensa de direita não cobra porque está enrolada com o neto do economista que congelou o salário-mínimo durante a ditadura e a de esquerda não vai com a cara de Toffoli e, como fez com Dilma em 2013, tem que mostrar que não tem lado”. Dá para dizer ainda mais, que a imprensa de direita apoiou e até participou da repressão na ditadura. Mas, e daí? Aonde isso nos leva? Está na cara que não passa de uma mera distração, de cortina de fumaça.

Segundo o articulista, “a imprensa de direita tem lado e sabe muito bem qual é. Está nadando de braçada no caso Toffoli. Se o STF se amedrontar e entregar a cabeça dele, o próximo será Alexandre de Moraes. E depois Gilmar Mendes”.

Que a imprensa de direita tem lado não consiste em nenhuma novidade. A questão é: quem abriu o flanco ao apoiar uma instituição do Estado burguês. Aliás, já que se falou em ditadura, o STF nunca teve problema com isso.

Cálculos

Deixando os fatos de lado, uma vez que já não se consegue mais defender os indefensáveis ministros do Supremo, Guimarãe conclui que “empoderado, o Congresso Inimigo do Povo não vai deixar passar os ministros que Lula quiser indicar. [E que] o mais provável é que, com o Supremo emasculado, invente um crime de responsabilidade para Lula, derrube-o e torne Alckmin uma ‘rainha da Inglaterra’”. Aqui é preciso concordar, o Congresso é inimigo do povo. Mas, quem serão os amigos? Não foi justamente Gilmar Mendes, ministro do STF, que impediu Lula de se tornar ministro de Dilma Rousseff e assim o ofereceu de bandeja para Sérgio Moro?

Mostrando ressentimento, e discutindo com as sombras, o articulista escreve “vão em frente, mostrem a superioridade moral. Como em 2013. Eram todos idealistas. Tiraram a extrema-direita do sarcófago e, depois, foram sendo chutados no traseiro por ela até saírem da avenida Paulista. Dali para a presidência, foram meros cinco anos”. Mas alerta que “há um risco de não conseguirem. Temos o melhor Supremo Tribunal Federal da História, que atraiu a admiração do mundo para o Brasil. Não admira que esteja sendo esquartejado com a ajuda daqueles que deveriam aplaudi-lo…”. – grifo nosso.

Que “temos os melhor Supremo Tribunal Federal da História” nos remete à genial sátira de Voltaire: Cândido, ou O Otimismo (1759). Cândido é um jovem ingênuo que vive no castelo do Barão de Thunder-ten-tronckh. Ele é discípulo do Dr. Pangloss, um filósofo que ensina que vivemos no “melhor dos mundos possíveis”.

Pangloss é uma caricatura do filósofo G. W. Leibniz, que sustentava que Deus é onipotente, onisciente e benevolente. E, antes de criar o Universo, teria analisado todas as infinitas possibilidades e escolhera o melhor mundo possível.

Obviamente que no livro há uma sucessão desgraças, onde as personagens comem o pão que o diabo amassou, mas nada disso foi suficiente para fazer Pangloss recuar de sua visão absurda.

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