O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (6) a suspensão do chamado “Projeto Liberdade”, operação naval criada para escoltar embarcações estrangeiras no Estreito de Ormuz. A medida foi interrompida apenas 48 horas depois de ter sido apresentada pelo governo norte-americano, em mais uma demonstração da incapacidade do imperialismo de impor sua vontade à República Islâmica do Irã.
A operação havia sido anunciada como uma iniciativa “humanitária” para retirar navios mercantes supostamente presos no estreito. Na prática, tratava-se de uma nova provocação militar dos Estados Unidos contra o Irã, em meio ao bloqueio naval imposto contra embarcações e portos iranianos e às constantes violações do cessar-fogo por parte dos Estados Unidos e de “Israel”.
Trump tentou apresentar o recuo como parte de uma negociação em andamento. Em uma publicação na rede Truth Social, afirmou que havia “grande progresso” nas conversações com representantes iranianos e que a suspensão teria ocorrido a pedido do Paquistão e de outros países.
“O Projeto Liberdade será pausado por um curto período de tempo para ver se o Acordo pode ser finalizado e assinado”, escreveu Trump, ao mesmo tempo em que afirmou que o bloqueio naval norte-americano permanecerá em vigor.
A versão de Trump, no entanto, contrasta com os acontecimentos dos últimos dois dias. Segundo fontes regionais e marítimas ouvidas pela Al Mayadeen, não houve operação de escolta norte-americana no Estreito de Ormuz. A declaração do Comando Central dos Estados Unidos, que afirmou que destróieres lançadores de mísseis da Marinha norte-americana estavam atuando no Golfo Pérsico em apoio ao “Projeto Liberdade”, foi desmentida pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI).
O CGRI afirmou que as declarações dos Estados Unidos sobre a passagem de petroleiros pelo estreito eram “sem base e inteiramente fabricadas”.
“Quaisquer outros movimentos marítimos que violem os princípios declarados pelas forças navais do Corpo de Guardas da Revolução enfrentarão graves riscos, e as embarcações infratoras serão paradas à força”, declarou o CGRI.
Advertência iraniana derrubou plano dos EUA
A suspensão da operação foi anunciada logo após advertências diretas do CGRI. O porta-voz da corporação, brigadeiro-general Hossein Mohebbi, afirmou que qualquer embarcação que violasse as regras declaradas pela Marinha do CGRI seria “parada à força”.
A Press TV, em texto publicado pela HispanTV, avaliou que o “Projeto Liberdade” morreu em apenas 48 horas diante da dissuasão iraniana. O texto, assinado pela Mesa de Análise Estratégica da Press TV, classificou o recuo como a terceira retirada estratégica dos Estados Unidos em menos de um mês.
“Isso não constitui uma pausa tática isolada, como deseja que o mundo acredite, mas a terceira retirada estratégica dos Estados Unidos em menos de um mês: uma sequência de capitulações que revela uma mudança profunda e irreversível no equilíbrio de poder no Golfo Pérsico”, afirmou a publicação.
Segundo a análise, a primeira retirada foi o cessar-fogo após a guerra de 40 dias contra o Irã, na qual a máquina de guerra norte-americana e israelense não alcançou seus objetivos estratégicos. A segunda foi a extensão unilateral desse cessar-fogo após negociações em Islamabade. A terceira foi a suspensão da operação naval que pretendia forçar a abertura de Ormuz.
“O abandono silencioso do chamado ‘Projeto Liberdade’ não constitui um giro estratégico, mas uma derrota esmagadora. Marca um novo fracasso para a máquina de guerra norte-americana, apenas após a guerra de 40 dias imposta à República Islâmica, e confirma que a era da intimidação naval unilateral dos Estados Unidos no Golfo Pérsico chegou efetivamente ao fim”, destacou a Press TV.
Irã controla a passagem
O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas marítimas do mundo. Por ali passa cerca de um quinto da demanda global de petróleo. Desde o início da agressão dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã, em 28 de fevereiro, a República Islâmica passou a impor controles mais rigorosos sobre a passagem, especialmente depois que Trump anunciou um bloqueio ilegal contra embarcações e portos iranianos.
Na sexta-feira, a Marinha do CGRI afirmou que cumpriria a diretiva “histórica” do líder da Revolução Islâmica, aiatolá Saied Mojtaba Khamenei, sobre o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz. Khamenei havia declarado que estrangeiros com planos contra o Golfo Pérsico não tinham lugar na região, “exceto no fundo de suas águas”.
Na quarta-feira, o CGRI afirmou que a passagem pelo estreito será gradualmente tornada “segura e estável”, à medida que as ameaças dos agressores forem neutralizadas. Em publicação na rede X, a Marinha do CGRI agradeceu aos capitães e proprietários de embarcações que respeitaram os regulamentos iranianos.
“Agradecemos aos capitães e armadores no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã por cumprirem os regulamentos do Irã no Estreito de Ormuz e contribuírem para a segurança marítima regional. Com as ameaças do agressor neutralizadas e novos protocolos em vigor, será assegurada passagem segura e estável pelo Estreito de Ormuz”, afirmou o CGRI.
A mensagem mostra que o Irã não fechou a passagem indiscriminadamente. A política iraniana é impedir que o estreito seja utilizado contra o país, como ocorreu durante a agressão militar dos Estados Unidos e de “Israel”.
Bloqueio norte-americano impede acordo
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, deixou claro que qualquer negociação sobre a reabertura plena do Estreito de Ormuz depende do fim do bloqueio naval dos Estados Unidos. A declaração foi feita em conversa telefônica com o presidente francês, Emmanuel Macron, nesta quarta-feira.
Pezeshkian afirmou que o Irã sempre atuou como garantidor da estabilidade regional, mas que as medidas adotadas pelos Estados Unidos desestabilizaram o Estreito de Ormuz e quebraram a confiança entre os países do Golfo. Ele classificou o bloqueio naval e a apreensão de embarcações iranianas como violações do direito internacional, interferência no comércio mundial e atos de “pirataria marítima”.
O presidente iraniano também afirmou que o país dialogou com os Estados Unidos em duas ocasiões e foi atacado militarmente nas duas. Segundo ele, essas ações foram uma “facada nas costas”. Pezeshkian acrescentou que as ameaças norte-americanas e a recusa dos Estados Unidos em respeitar regras diplomáticas mínimas agravaram a situação.
O dirigente iraniano destacou ainda que “Israel” não cumpriu os termos do cessar-fogo em Gaza e no Líbano. Nessas condições, afirmou, é “natural” que a Resistência Islâmica no Líbano, o Hesbolá, atue em defesa de seu país e de seu povo.
Macron, por sua vez, declarou apoio ao caminho diplomático e reconheceu que medidas como o bloqueio naval dos Estados Unidos e os ataques israelenses ao Líbano violam o cessar-fogo. O presidente francês, um dos principais financiadores do Estado sionista, também se disse disposto a ajudar nas negociações, inclusive no levantamento de sanções e em assuntos relacionados ao programa nuclear iraniano.
Estados Unidos ficaram isolados
A análise da Press TV publicada pela HispanTV ainda apontou que o fracasso do “Projeto Liberdade” ocorreu antes mesmo de sua execução, pois os Estados Unidos não conseguiram formar uma coalizão para enfrentar o Irã no Estreito de Ormuz.
“As companhias marítimas, coluna vertebral do comércio global, ignoraram a proposta norte-americana. As seguradoras, árbitros do risco, se negaram a respaldar navios que navegassem sob bandeira norte-americana na zona conflitiva. Os aliados regionais-chave, temerosos de represálias iranianas em seu próprio território e infraestrutura econômica, se distanciaram da ofensiva norte-americana”, afirmou o texto.
A publicação acrescentou que as principais Marinhas e frotas comerciais do mundo observaram as respostas anteriores do Irã e concluíram que o custo de se alinhar aos Estados Unidos era maior que qualquer benefício. A constatação é decisiva: o imperialismo norte-americano não consegue mais impor uma operação militar de grande escala no Golfo Pérsico sem enfrentar a resistência direta do Irã.
A Press TV também destacou que a justificativa oficial usada por Trump — o pedido de um chefe militar paquistanês — mostra a necessidade urgente dos Estados Unidos de encontrar uma saída.
“Uma autoproclamada ‘superpotência’, possuidora da maior e mais tecnologicamente avançada Marinha da história, abandona uma operação militar prestigiosa — apresentada como vital para a segurança energética global — a pedido de um comandante militar estrangeiro”, afirmou a publicação.
Rezaei: EUA chegaram a um beco sem saída
Em entrevista exclusiva à Al Mayadeen, o major-general Mohsen Rezaei, membro do Conselho de Discernimento do Irã, afirmou que a luta entre a República Islâmica, os Estados Unidos e “Israel” entrou em uma nova etapa de confronto militar direto. Segundo ele, os norte-americanos pretendiam obter uma vitória rápida e depois se retirar, mas fracassaram.
“Os norte-americanos pretendiam garantir uma vitória e depois se retirar, mas chegaram a um beco sem saída e não podem mais recuar”, afirmou Rezaei.
O dirigente iraniano explicou que a maior parte do Estreito de Ormuz está sob controle iraniano e que o país não permitirá que a passagem seja novamente usada contra a República Islâmica.
“Esse estreito tem quatro lados, três sob controle iraniano e um sob Omã, portanto, pode-se dizer que ele passa pelo espaço territorial iraniano”, afirmou.
Rezaei acrescentou que, tanto na guerra de 12 dias quanto na agressão recente, o Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico foram usados contra o Irã. Por isso, afirmou, o objetivo central do país no estreito é garantir a segurança do Irã e de toda a região do Golfo Pérsico.
O general também denunciou os Estados Unidos por violarem entendimentos anteriores e atuarem de má-fé nas negociações. Segundo ele, o Irã apresentou condições para qualquer conversa, incluindo compensação pelos danos causados e liberação de recursos iranianos congelados.
“Eles tentaram um golpe militar fracassado no Irã, e nós também poderíamos ter suspendido todas as negociações com os Estados Unidos”, declarou Rezaei.
Segundo ele, comunicações indiretas por meio do Paquistão indicaram aceitação das condições iranianas pelos Estados Unidos. No entanto, declarações contraditórias de autoridades norte-americanas levaram à suspensão das conversas.
Plano de redesenhar a região
Rezaei também afirmou que Trump e o primeiro-ministro de “Israel”, Benjamin Netaniahu, pretendem redesenhar as fronteiras da Ásia Ocidental. Segundo ele, os planos incluíam a divisão de vários países da região e a entrega de áreas estratégicas à entidade sionista.
“Trump e Netaniahu querem redesenhar as fronteiras do Líbano, da Síria, da Arábia Saudita e da Jordânia, e querem que ‘Israel’ ataque novamente o Sinai egípcio”, afirmou.
O dirigente iraniano declarou que, caso a agressão contra o Irã tivesse alcançado seus objetivos, ela abriria caminho para novas ações militares contra outros países da região, incluindo o Egito. Ele afirmou ainda que existiam planos para dividir o Irã em cinco partes, o Iraque em três e a Síria em três, além de transferir o sul do Líbano até o rio Litani para a entidade sionista.
Rezaei defendeu uma estrutura regional independente, com cooperação entre Irã, Arábia Saudita, Turquia, Iraque, Egito e Paquistão, sem a presença militar dos Estados Unidos e da Europa. Segundo ele, todas as forças estrangeiras devem deixar a região.
“Nós, a Arábia Saudita e a Turquia devemos continuar avançando juntos em direção a uma estrutura regional independente”, afirmou.
O dirigente iraniano também criticou os Emirados Árabes Unidos por sua relação com “Israel” e por atividades de inteligência próximas às fronteiras iranianas. Segundo ele, mais de US$600 bilhões da riqueza iraniana fluíram para países vizinhos, incluindo os Emirados, que se desenvolveram em grande medida com recursos iranianos.
Derrota militar e impasse diplomático
Mesmo ao tentar vender a suspensão como parte de um acordo em andamento, Trump reconheceu que os combates podem continuar por “provavelmente mais duas semanas” ou “talvez três semanas”. O presidente norte-americano afirmou ainda que “o tempo não é essencial para nós”, uma tentativa de demonstrar controle sobre uma situação na qual os Estados Unidos aparecem cada vez mais pressionados.
A realidade exposta pelo recuo do “Projeto Liberdade” é outra. Os Estados Unidos anunciaram uma operação para forçar a abertura do Estreito de Ormuz, mas suspenderam o plano após as advertências do CGRI, a resistência das empresas de navegação, a ausência de uma coalizão e a posição firme do Irã. Tudo isso em apenas 48 horas.
A República Islâmica afirma que só aceitará a reabertura plena do estreito com o fim do bloqueio naval norte-americano. O CGRI, por sua vez, afirmou que a passagem segura será garantida dentro dos protocolos iranianos e com as ameaças dos agressores neutralizadas.
Como sintetizou a Press TV, o fim prematuro da operação norte-americana mostra que os Estados Unidos perderam a capacidade de intimidar o Irã no Golfo Pérsico. O “Projeto Liberdade”, apresentado como demonstração de força, terminou como mais uma grande vitória iraniana contra o imperialismo.





