Para incentivar os companheiros a publicarem contos e crônicas, resolvi divulgar minha prosa. Todo conto sempre remete a outras histórias; inspirado nos quadrinhos e na literatura de Dennis Cramer e no título do conto de Eça de Queiroz, escrevi o conto “Singularidades de uma rapariga descalça”.
Singularidades de uma rapariga descalça
… achei, este é trecho que eu queria te mostrar:
“Yeah, I miss losing my naïve innocence, it was such fun. Evervthing was so new to me then, so dangerous ’n’ naughty. I’ve tried so hard not to lose that sense of wide-eyed wonder and freshness. I noticed one day while I was in the forest that each barefoot step is totally unique. No two steps c’n ever feel the same. The gentle snap of a twig, a leaf, a pile of leaves, a puddle, a rock… each step is sorta like a sensory painting. I mean, just like the eyes see each painting as unique in subject, mood, color ’n’ composition, the bared foot feels each unique tone, temperature, texture, ’n’ composition. I c’n experience more amazing sensual experiences from one attentive barefoot walk than my eyes could ever manage no matter how many paintings I stared at. Barefooting is an art, and I love my art; even if it is offtimes dangerous. The best art is dangerous isn’t it? I mean it stirs something deep, dark, repressed, forgotten, ’n’ vital! I’ve learned to enjoy the thorns, barbs, ’n’ shards just like an art lover c’n enjoy a painting of hell, death, sorrow, or sadism. Barefoot suffering is sorta like a symphony in a minor key or a tragic play.” Mara explained this to Vol with effusive delight. “Y’know.”
Era setembro no hemisfério sul, contrariamente ao sucedido em Lisboa, seria primavera… Mathilda leu atentamente, contraída em silêncio, e eu compreendo tocar a carne viva e algumas lembranças.
A mocinha chama-se Mara… treze… isso mesmo… creio que não… não sei se é bem isso. Por quê? Porque o autor, o Dennis Cramer, transformou-se na Mara.
Ouça… Flaubert teria dito Madame Bovary sou eu; em uma de suas histórias em quadrinhos, Franco Saudelli desenhou uma Bionda travesti bastante parecida com ele mesmo; Dennis Cramer transformou-se em Justine Mara Andersen, sua Barefoot Justine. Isso não é raro… lá no Brasil, o José Mojica Marins transformou-se no Zé do Caixão; aqui em Portugal, o Fernando Pessoa fez algo parecido… você pode garantir, com absoluta certeza, que ele não está lá sentado no banco vestindo-se de estátua diante de Camões?
Por que não? Agora há pouco lá no Rocio e subindo as ladeiras aqui no Chiado, eu vi mais de um artista de rua vestido de estátua. O Fernando Pessoa sentado ali em vez de ser uma estátua vestida de gente é uma pessoa vestida de estátua.
Isso mesmo… em minha Buenos Aires querida, igualmente à Mafalda!
Hoje não… quem sabe ela fica na ladeira somente durante a manhã… você está com ciúmes?
Se ela fosse parecida com a Justine Mara? Nunca a vi assim, mas talvez os cabelos… ambas têm cabelos castanhos claros e encaracolados… com certeza nunca vi a moça do acordeão descalça, senão me lembraria.
Prestar atenção? Sempre presto atenção nisso.
A noite cai em Lisboa – a noite tomba na Torre do Tombo –, fosse em livro, seria possível ler tudo depois, mas não naquela hora, quando a noite, Lisboa – a Torre – e minha amiga materializam-se… substancializada, sua pele brilha nos finais das tardes – era um final de tarde –, ela quem também havia subido as ladeiras, assim fui eu horas atrás, antes daqueles fados…
Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano, / Já que minha presença não te agrada, / Que te custava ter-me neste engano, / Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada? / Daqui me parto, irado e quase insano / Da mágoa e da desonra ali passada, / A buscar outro mundo, onde não visse / Quem de meu pranto e de meu mal se risse.
Sim, isso é possível… é possível quando ela me disse, no subsolo do Chiado entre os mortos de Lisboa afundados no Tejo, na mesma lama dos dinossauros, ela me perguntava se eu não queria ver os CDs da ECM em promoção… ECM-new series, além do mais e do Tejo.
Mirante, naquela tarde estive na Noosfera, verificava quantos frutos do mar caberiam num rosto… subverter a linguagem depois do barroco português e a musa incurável… naquele contexto, BD não significava bondage, significa Banda Desenhada; próximos a Camões cercado de poetas, Tank Girl e os Vingadores, fazia tempo e eu não via o Doutor Estranho tão esbelto e cheio de si. Caso queira se situar, falava da loja de histórias em quadrinhos em que encontrei os contos do Dennis Cramer, aqueles relidos para Mathilda… se fosse menino, seria Mathias… nasceu menina, Mathilda com THC, segundo ela contava. E assim, depois dos frutos do mar seria a vez das saladas de alface americano, mozarela de búfala, kani, pedaços de abacaxi, molho de iogurte… Mathilda era morena, nem Leonor, nem pastel de santa clara salpicado de açúcar de confeiteiro no Miradouro Adamastor, diante do Tejo, das Tágides e porque não do tédio mortal das tardes portuguesas, eu vi tabletes de haxixe da cor dos doces de leite, pareciam tabletes de chicletes em duas dimensões; já os de pólen são semelhantes a paralelepípedos… ninguém para vender apenas ervas, ervas, ervas.
Conheci Mathilda entre “Orlando Furioso” traduzido em decassílabos e “Black Hole”, as viagens à Lua e aos pântanos, ela a trabalhar com CDs, coisas já bem raras, então… não sei bem abordar uma mocinha de Portugal. Sem fado, sem foda, só não me fodo pois tenho minha pistola de raios que o partam para disparar contra os gigantes emergentes do mar. Enfim fumo… sob o olhar vigilante do gigante de pedra, encantado com a nicotina, pavio para queimar as bolinhas de haxixe dispersas pela seda. Esperaríamos o cair da noite, quando a noite cai tal qual tombavam os titãs diante dos deuses do Olimpo, dos ciclopes e dos hecatonquiros… já mencionei isso antes, mas quase tudo se perdoa… a filha de um amigo avisou ser droga de rua, mas quase sempre há haxixe no Miradouro Adamastor…. minha ex-mulher recomendava coisa parecida, em Paris tu peut trouvé la memé chose dans Belle Ville.
Isso eu li na história em quadrinhos do Brian Bolland “Uma questão filosófica”, uma continuação da história anterior… nossa questão filosófica começa com esse desenho, por sua vez inspirado em uma fotografia de Man Ray. A segunda parte, portanto, pode ser terceira se tudo começa com a fotografia… a história anterior chama-se “Amarrada”. Quando pela primeira vez busquei pela fotografia na internet, não encontrei nada semelhante à foto do Man Ray aludida pelo Bolland; o que encontrei se parecia com as galerias de fotos do hogtied.com.
Amarrada por Man Ray havia somente a fotografia do tronco da mulher sem pernas, sem braços, sem cabeça… sem perna qual Victoria Modesta, mas sem as duas pernas; sem os braços, feito a Vênus de Milo, evidentemente; sem cabeça tanto quanto a Vitória de Samotrácia. Quase escrevo sem cabeça igual nos quadrinhos do Robert Crumb… enfim, não sabia se a foto do Man Ray existiu ou se tudo não passava de invenção do Bolland, “Amarrada” seria seu “Necronomicon”.
Se a tal foto fosse invenção, aquela do tronco amarrado fora pretexto; sendo pretexto, o desenho do Bolland completaria o tronco?… seria a fotografia do tronco a parte tomada pelo todo?… seriam os pintos de Mappelthorpe pintos ou partes de homens; as bocetas de Richard Kern, bocetas ou partes de mulheres; os pés em Ed Fox, Elmer Batters ou Franco Saudelli, partes ou todos?
Na HQ, a questão filosófica cuida de responder o que se faz para amarrar alguém, fazendo da composição de Man Ray, de texto referente antes a si mesmo enquanto arte, objeto destinado a lembrar de algo já acontecido, ele é testemunho de uma performance. Signo de si mesma, a imagem da moça amarrada impõe-se no desenho da fotografia; na foto, suas origens confundem-se com seus fins… enquanto isso, o quadrinho distancia-se gradativamente da realidade das coisas ao sobrepor-se à moça e sua fotografia. Amarrada, não no estilo dos quadrinhos de John Willie, ela lembra dos quadrinhos de Franco Saudelli porque está nua – em John Willie, elas estão quase sempre vestidas –, porque está descalça – em John Willie, elas estão sempre de saltos altos – … por tudo isso, por onde passeia a imaginação de Boland?
Na série “A atriz e o bispo”, outro trabalho seu, nenhuma mulher está amarrada; a atriz aparece nua, quase nua, fantasiada, não aparece… quando está nua ou quase, há bastante ênfase nos pês: (1) close nos pés passeando descalços sobre o gramado em dois momentos da história; (2) na banheira, ela se vale dos dedos dos pés para abrir torneiras; (3) quando escorrega descalça nas poças d’água na cozinha; (4) na abertura da história A coisa no barracão, sentados sobre o sofá, o bispo admira os pés da atriz pousados descalços sobre seus joelhos. Se o autor e o bispo admiram as mesmas coisas, talvez a foto da Man Ray não chamasse tanto a atenção de Boland se, mesmo de corpo nu, a modelo não estivesse descalça.
Isso é quase filosofia… BDSM, ECM… Mathilda, magérrima, ainda não me dizia “nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos” jantando comigo e à espera dos doces. Mas não esperava por isso… se sairmos agora estaremos na cidade do Porto de madrugada, ainda dá tempos de beber algumas garrafas de vinho antes de dormir em algum hotel perto da ferrovia.