Seria a obesidade produto do sofrimento? Ou do isolamento? O isolamento é produto do sofrimento ou da obesidade? O sofrimento é fruto da obesidade ou do isolamento? Esses questionamentos circulares são profundamente discutidos em “A baleia” (2023), do diretor Darren Aronofisky, estrelado pelo consagrado Brendan Fraser. O filme lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator na cerimônia de 2024, e causou polêmica, como em todos os filmes deste diretor conhecido por “Cisne negro” (2010), que à época rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Natalie Portman, e “Réquiem para um sonho” (2000), com Jared Leto, Ellen Burstyn e Jennifer Connelly.
Obesidade caricata (sem spoilers)
Um Brendan Fraser irreconhecível, no bom sentido
Se em “Requiem para um sonho” Aronofsky retrata o abuso de drogas, e em “Cisne negro” o enlouquecimento pela autocobrança, em “A baleia” ele segue acompanhando o fluxo de más atitudes e pensamentos autodestrutivos que alimentam e causam, ao mesmo tempo, o sofrimento de Charlie (Brendan Fraser), um professor de língua inglesa que sofre de obesidade severa e vive seus últimos dias abusando da má alimentação e se entregando ao próprio mal. A não aceitação de um passado traumático vai sendo revelada como a causa do problema, e assim vamos entendendo o que ocorreu e como ele se afundou numa falta de soluções que ele próprio se permitiu criar.
O filme reproduz o que foi uma peça de teatro, e, por isso, existe integralmente na casa do protagonista, mais recorrentemente em sua sala, na qual as pessoas que contracenam entram e saem, fazendo da porta como que a entrada para o palco. Três personagens lidam com ele: a irmã de criação, que é enfermeira, Liz (Hong Chau); a filha, Ellie (Sadie Sink); e o missionário cristão Thomas (Ty Simpkins). As relações são contraditórias com os três. A enfermeira é preocupada e cuidadosa com ele, mas se penaliza de sua compulsão e permite que coma mal. A filha é amada intensamente por ele, mas é mau-caráter e despreza o pai. O missionário o quer bem e ele o recebe para não estar só, mas ele o visita na condição de trazer a palavra de deus e a salvação, a contragosto da enfermeira e, de certa forma, de Charlie próprio.
O mal que vem da desgraça (com spoilers)
Irmã de criação é quem se importa com Charlie
Trajetória redentora passa por reencontro com a filha, antes da morte certa
Lidar com os males da vida é um problema que, se mal resolvido, pode levar a males piores. Charlie é mal resolvido em diversas frentes. Perdeu o apreço da família quando se assumiu homossexual, largou a esposa e se envolveu com um aluno. Depois, perdeu o marido por ele se suicidar ao ser marginalizado pela família. Diante da solidão, mergulhou na serotonina da gordura e do açúcar, o que foi fatal para sua condição já de sobrepeso, atingindo a obesidade severa. Durante esse processo, mesmo tendo dinheiro para fazer um tratamento, abandonou-se ao problema e escondeu de Liz os seus recursos, para que ela não acionasse o sistema de saúde (nos Estados Unidos, não há sistema público).
Tudo isso explica que Charlie escolheu um destino trágico, percebendo que a vida sem o marido já não fazia sentido. E foi morrendo lentamente, enquanto ministrava suas aulas pela internet, provavelmente desde quando já estava tão gordo que não podia se locomover. Durante o filme, as câmeras são praticamente estáticas sobre ele, raramente seguidas por longos planos-sequência de quando ele se locomove com um andador, o que transmite a lentidão provocada por seu peso. Quando ele come, acompanhamos o grotesco processo causado pela compulsão, de quem come praticamente empurrando a comida, abrindo mão da higiene e da própria degustação.
A relação com a filha é degradada e ele não a via por anos, até que, durante o processo retratado pelo filme, ele a reencontra para fazer suas redações de escola. Ela é má aluna, relapsa, grosseira e, no limite, mau-caráter, fazendo fotos com piadas sobre ele na internet. Mas ele a ama, e a ajuda como num processo redentor de reencontro com a filha, antes da morte que é certa. O missionário, que o encontra por acaso, traz-lhe uma palavra de Deus que ele recebe com apatia. A enfermeira faz o que pode, mas não tem controle sobre ele, e o estado em que ele está é mostrado como irreversível.
Num dado momento, ele recupera sua relação com a filha, a duras penas e parcialmente, e ela lê um trecho de uma velha redação sua sobre Moby Dick, que trata justamente de uma baleia. Assim se faz o elo entre ele o título do filme. Ele se levanta, vai abraçá-la, e seu corpo não aguenta. O coração para.
Assinatura de Aronofsky torna-se cansativa
Filme longe de ser o melhor do diretor, apesar do prêmio
“Cisne negro” é o ponto alto de Aronofsky
“O lutador” é um interessante filme, assim como “Réquiem para um sonho”
O diretor deste filme é conhecido por promover histórias de sofrimento e com ares de grotesco. E, embora seja um filme de brilhante atuação de Brendan Fraser, possui altos e baixos num roteiro para lá de simples, justamente para dar mais tempo de tela para o sofrimento que para o fio narrativo.
A garota é má por ser. O homem é desleixado e desesperançoso praticamente por ser, embora mal explicado que seja pela falta do marido. A enfermeira deixa ele fazer o que quer e não chama o serviço de saúde, nem que seja para financiar o pagamento depois – além do que, nos Estados Unidos, exista o serviço de caridade para o lugar do sistema público – não se sabe por quê. O missionário não tem razão de ser na história, exceto ser a ponte da explicação para o suicídio do marido de Charlie, que não suportou o abandono pela família fanática religiosa.
O Oscar de Fraser mascara um filme ruim, em que o grotesco é tratado pornograficamente, sacrificando um tempo precioso para a história. Longe das melhores produções de Aronofsky, com a trajetória complexa e cheia de circuitos mentais de Nina Sayers (Natalie Portman), a bailarina adoecida de “Cisne Negro”; ou a depressão pela decadência de Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke), de “O lutador” (2008). Ou ainda o afundamento nas drogas de Sara Goldfarb (Ellen Burstyn), Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly) em “Requiem para um sonho”.
Em todos esses, a diferença para “A baleia” é que o sofrimento é acompanhado de um fio narrativo claro e instigante, o que é abandonado no filme de 2023.