Em sua coluna intitulada “O passo necessário e urgente na luta contra a delinquência bolsonarista”, publicada no Brasil 247, Bepe Damasco faz uma apologia aberrante da censura, aprofundando a falência política da esquerda, que nunca deveria ter adotado essa bandeira e agora se encontra em um verdadeiro “globo da morte”, em que não consegue mais abandonar essa política desmoralizante e que só serve como adubo para o crescimento da extrema direita.
O primeiro parágrafo de seu terrível texto já apresenta toda a estrutura da catástrofe política que é a posição desse setor esquerdista: “não é apenas de disputa política que se trata. O buraco é bem mais embaixo. Repetindo a necromilitância da pandemia, bolsonaristas vêm atuando intensamente nas redes sociais, através de fake news, para prejudicar o socorro às vítimas da tragédia climática do Rio Grande do Sul. Agem como cúmplices do desastre ambiental”.
Primeiramente, é preciso esclarecer bem o que está sendo aqui classificado como “necromilitância” e “fake news” pelo articulista: trata-se das críticas feitas por alguns bolsonaristas à atuação de instituições governamentais no atendimento às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul, o qual, ainda que não seja pelos motivos e da forma como é dito pelos bolsonaristas, está sendo terrível e vergonhoso. O autor está tão vidrado no problema eleitoral que não consegue visualizar o problema político gigantesco que ele está provocando com sua política: sua atuação é no sentido de promover a perseguição aos que criticam o governo na Internet.
A tese também é um tanto quanto esdrúxula. Por que é que comentários feitos nas redes sociais atrapalhariam o trabalho de resgate dos governos? Isso simplesmente não se sustenta. Se estão sendo ditas mentiras, o governo tem toda a capacidade de ir aos meios de comunicação que tem a sua disposição (Internet, televisão, rádio, jornais impressos, etc.) e desmentir o que está sendo dito, esclarecendo a população.
Além disso, um destaque à classificação de “cúmplices do desastre ambiental”, que coloca a culpa da catástrofe em todos menos nos verdadeiros culpados: o governador Eduardo Leite, que vendeu o Estado aos bancos. Infelizmente, essa política do PT o coloca em frente ampla com os maiores inimigos do povo gaúcho e brasileiro. O tal “desastre ambiental” não é o verdadeiro responsável pelo ocorrido. Os responsáveis são os que desmontaram e que não desenvolveram o sistema do Estado de combate às enchentes – fenômeno extremamente comum naquela região. A ideia de que é um problema da “natureza” e das pessoas que criticam o governo na Internet isenta de responsabilidade os verdadeiros criminosos.
Para Damasco, a solução é clara: “se o Brasil um dia deixar de ser uma terra sem lei na internet, com o regulação da atuação das big techs, e passar a punir de forma severa, ampla e exemplar as postagens criminosas que inundam as redes socais, esses cães hidrófobos serão condenados à irrelevância e ao desaparecimento”. Não se sabe o quanto essa punição seria “severa”. No Canadá, já é possível pegar uma pena de prisão perpétua por coisas ditas nas redes sociais. Será que é disso que fala o autor? Ou devemos ir além e pedir a pena de morte dos web-mentirosos?
A defesa da censura já está tão introjetada na política de certas pessoas que as suas colocações já se assemelham às de defensores do AI-5 no período da ditadura militar. Punição “exemplar” é algo que deveria impactar e assustar o restante das pessoas, então talvez estejamos falando de tortura? Não é possível saber, mas deve-se esperar o pior de alguém que se coloca da forma como faz Damasco.
Para ele, no entanto, “não basta pedir que a Polícia Federal investigue essas pessoas e que elas sejam responsabilizadas criminalmente”, ele também afirma que “é preciso expô-las publicamente”, ou seja, é preciso aliar a política de censura e perseguição com a cultura de cancelamento. Além de tudo, o articulista tem a coragem de invocar a Polícia Federal para a discussão. Algo totalmente impensável para alguém de esquerda, ainda mais alguém que vivenciou e observou todo o processo de golpe de Estado contra o PT nos últimos anos, além dos outros episódios de perseguição à esquerda protagonizados por esse órgão comprovadamente comandado pelo imperialismo norte-americano e pelo Mossad.
Ele completa, proclamando a mais nociva ilusão da esquerda pequeno-burguesa dos últimos anos: “esse passo precisa ser dado, afinal, todo mundo sabe que várias lideranças do fascismo nativo estão envolvidas na propagação de fake news”. Um grupo de pessoas totalmente desorientadas está fazendo o trabalho sujo do imperialismo e da direita, defendendo a censura no Brasil, por acreditar na falsa ideia da luta contra o fascismo.
A cegueira política é ainda agravada pelo fato de que a direita tradicional e o bolsonarismo estão num namoro à luz do dia desde que a Resistência Palestina desferiu um ataque decisivo contra o Estado fictício de “Israel” no 7 de outubro no ano passado. Infelizmente, a incapacidade de setores da esquerda de enxergarem um palmo diante de si irá colocar toda a sociedade brasileira afundada numa ditadura total.





