Rio de Janeiro

Madonna libertou o Brasil da extrema direita?

Esquerda pequeno-burguesa, hipnotizada pelo identitarismo, elegeu Madonna a salvação do País

Após ter escolhido o filme da boneca Barbie, símbolo da futilidade e da mulher objeto, como expressão da “luta contra o patriarcado”, coisa que parecia já o fundo do poço, a esquerda pequeno-burguesa conseguiu se afundar ainda mais nesse buraco: transformou a diva do neoliberalismo, a cantora pop Madonna, em “exemplo de luta contra o extremismo”.

Esse é o título de coluna publicada no portal Brasil 247, assinada por Tiago Barbosa: A lição de Madonna ao Brasil para a luta contra o extremismo. Não que o autor de tal artigo tenha sido o único a falar coisas extravagantes sobre o show da cantora em Copacabana, mas vamos nos ater, por enquanto, aos argumentos usados por ele.

Vejamos por que, segundo Barbosa, a cantora seria esse “exemplo contra o extremismo”: “Madonna destroçou essa ideia medieval de país – e fez de uma forma brutalmente corajosa e ousada para frisar a naturalidade de atitudes demonizadas sob fundamentalismos“. Estamos procurando essa coragem e ousadia de Madonna e não achamos nada. Nos parece que o conservadorismo da direita nacional – que sempre foi muito hipócrita, pois o Brasil é, em geral, um país liberal nos costumes – está introjetado, em primeiro lugar, na cabeça do próprio colunista, a ponto de ele ter achado fantástico Madonna fazer o circo que ela faz há quatro décadas!

Quando Madonna apareceu nos anos 80, suas insinuações sexualizadas já não tinham nada de subversivo. Entretanto, elas serviam para disfarçar o conteúdo extremamente reacionário de seu produto. Aparência chocante, com semi nudez, insinuações de sexo etc. para levar adiante uma versão cultural da colonização neoliberal que o imperialismo estava impondo ao mundo.

Mas 40 anos depois, o que pode haver de corajoso nisso? Absolutamente nada. É a cabeça do colunista que está cristalizada, ele ainda crê que mostrar os peitos e as nádegas, rebolar e fazer gestos obscenos é grande coisa.

Madonna veio até o Brasil, país super liberal nos costumes, mesmo com todo o discurso bolsonarista, ganhou milhões, apoiada pelo Banco Itaú, rede Globo e toda a burguesia pró-imperialista nacional para fazer o que ela faz há 40 anos! Precisa de alguma coragem para fazer isso?

O colunista do Brasil 247 está influenciado pela própria demagogia bolsonarista. Não é porque os bolsonaristas falam em Deus, família e pátria que eles realmente acreditam nisso. Bolsonaro tem apoio entre os evangélicos, mas também tem apoio em muita gente que adora ver uma mulher nua na televisão. Inegavelmente, um setor importante dos bolsonaristas ligado aos evangélicos gostaria de ver o Brasil regressando à Idade Média, mas isso não quer dizer que o Brasil está nessa via.

Quem manda no Brasil não são os evangélicos bolsonaristas, quem manda no Brasil é outro tipo de obscurantista, os que trouxeram e financiaram Madonna: a Globo, o Itau e a burguesia que distribuiu dinheiro nesse circo. Esses obscurantistas não ligam se uma gringa decadente vem ao Brasil fazer orgias, desde que isso sirva para sua política, desde que sirva para enganar os bobos que acreditam na sua manobra política. No entanto, enquanto financiam o rebolado decadente e fora de moda de Madonna, estão preparando as piores atrocidades contra o povo.

E a esquerda pequeno-burguesa, totalmente hipnotizada pelo identitarismo, novamente cai no golpe da burguesia e acredita que tudo isso é contra a extrema direita. A vedete do imperialismo neoliberal tornou-se exemplo de luta antifascista, ou seja, um empreendimento do Itau e da Globo seria a nossa esperança antifascista.

E, sobretudo, o resgate das cores, da bandeira e da camisa do Brasil – uma releitura dos símbolos nacionais (roubados pelo bolsonarismo) à luz do apreço à diversidade, representada pela vigorosa Pabllo Vittar“. O que é mais delirante: crer que Madonna, Globo e Itau são antifascistas, ou acreditar que essa tríade vestir a bandeira do Brasil é resgatar as cores nacionais? De repente, seria melhor entregar a bandeira do Brasil para Joe Biden, para que intermediários?

Quem sai ganhando, se é que a manobra tem algum efeito, não é o povo, os trabalhadores, nem a esquerda.

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