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Palestina

Leia entrevista exclusiva com membro do birô político do Hamas

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO, entrevistou o doutor Bassem Naim em visita ao Catar

No dia 14 de fevereiro de 2024, no Catar, a delegação do Partido da Causa Operária (PCO) visitou o birô político do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). Na ocasião, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO, entrevistou o doutor Bassem Naim, ex-ministro da Saúde da Faixa de Gaza e um dos membros do birô.

Formado na Alemanha com doutorado em cirurgia, Naim trabalhou no hospital al-Shifa, na Cidade de Gaza, já tendo também ocupado o cargo de ministro da Saúde. Seu filho Assam Naim, militante das brigadas al-Qassam, foi assassinado aos 17 anos. Na atual etapa do conflito, ele perdeu sua mãe e outros sete membros de sua família.

Ao longo da entrevista, o dirigente do Hamas fala não só sobre a situação atual do povo palestino, como também sobre a vida em Gaza antes do 7 de outubro e sobre o apoio que a resistência recebe da população.

Naim afirma que, para ele, a vitória da causa palestina está próxima: “vocês verão palestinos que perderam suas casas, filhos, famílias, e [que] saíram dos escombros levantando o sinal de vitória e dizendo: ‘Alhamdulillah [graças a Deus], estamos aqui e continuaremos’.”

Ele também aborda algumas das calúnias que a ocupação sionista já lançou contra o Hamas, explicando a farsa por trás delas.

Abaixo, você confere a transcrição da entrevista na íntegra. Você também pode acessar a gravação da entrevista por meio deste link ou por meio do link ao final deste artigo.

Doutor Bassem, qual é a situação humanitária em Gaza neste momento? Muito obrigado por me entrevistar. Eu acho que não existe palavra melhor para descrever a catastrófica situação no terreno do que a da decisão do TPI, Tribunal Penal Internacional, que descreveu que o que “Israel” comete em Gaza é um genocídio. Quando se fala em genocídio, você pode imaginar que eles estão atingindo tudo para exterminar qualquer existência palestina. Existência humana, existência institucional, existência cultural, existência religiosa.

Portanto, depois de cerca de 130 dias de agressão israelense contra o nosso povo na Faixa de Gaza, e a propósito, ao mesmo tempo, na Cisjordânia, estamos falando de cerca de 30 mil palestinos mortos. A maioria deles são crianças e mulheres. Milhares ainda estão sob os escombros. Cerca de 70 mil palestinos feridos. A maioria deles também são mulheres e crianças.

A propósito, esta é a primeira vez na história das guerras que mulheres e crianças são mortas mais do que homens e que os feridos são apenas o dobro das pessoas mortas. Geralmente é de um para cinco, ou um para seis. Nesse caso, podemos falar de um para dois, o que reflete a agressividade de atingir toda a sociedade.

E quando falam de alvos militares ou quando falam de alvos precisos, trata-se apenas da habitual propaganda israelense. Eles destruíram quase todos os hospitais, especialmente no norte da Faixa de Gaza, está tudo destruído. O sistema de saúde está totalmente colapsado. Eles destruíram cerca de 70% das casas residenciais, todas as universidades, a maioria das escolas, cerca de 1.100  das 1.200 mesquitas. As três igrejas foram atacadas. A infraestrutura, quero dizer, instalações de água, poços, tudo o que está vivo ou tudo o que pode ajudar as pessoas a sobreviver foi alvo. Incluídos nestes grandes alvos que eu mencionei agora.

Se você entrar em detalhes, você ouvirá muitas histórias muito, muito dolorosas e marcantes. Uma deles, por exemplo, [ouvi] ontem. Estavam sitiando o hospital Nasser há três semanas. Atiradores mataram dentro do hospital dúzias de palestinos que se deslocavam dentro do hospital, seja pessoal médico ou pessoas deslocadas, negando ao hospital qualquer contato com o exterior. Sem água, sem remédios, sem combustível, nada. Ontem, pediram a uma das pessoas refugiadas dentro do hospital que usasse o que chamamos o guarda pó da Covid. E colocaram na cabeça dele um sinal amarelo. E pediram-lhe que dissesse às pessoas no hospital que tinham de evacuar o hospital. E então disseram a ele que depois de contar isso às pessoas, para voltar até eles para dizer qual foi a resposta. E quando ele voltou eles o assassinaram. Esta é uma entre milhares de histórias.

Se você entrar em detalhes, ouvirá a famosa história da criança Hind. Talvez você tenha ouvido sobre isso. Esta menina de seis anos, que ficou presa num carro e as ambulâncias foram lá para resgatá-la. Eles mataram os dois trabalhadores da ambulância e a garota. Mais uma vez, não há palavras para descrever a situação atual, a situação da saúde no país. As pessoas estão realmente morrendo de fome no norte da Faixa de Gaza. Às vezes passam dias sem nenhuma comida, sem nenhum remédio. Não está disponível. Sem água, sem combustível.

Portanto, sempre dissemos que “Israel” está travando duas guerras. Uma é pelos tanques, jatos e marinha, e a outra é matando de fome e sufocando as pessoas no país. A situação é muito, muito séria. Agora, em Rafá, eles estão se preparando para a operação militar em Rafá. Em Rafá, agora, vivem cerca de um milhão e 400 mil palestinos que se deslocaram  do norte para o sul aos quais foi solicitado pelos israelenses: “vocês têm que sair do norte e ir para o sul”, onde deveria ser seguro. Agora, eles estão atacando Rafá.

Antes de 7 de outubro, os residentes de Rafá eram cerca de 250 mil. Agora, estamos falando de um milhão e 400 mil. O que é inimaginável. Mas, apesar disso, eles estão procedendo, apesar das decisões do TPI de parar a agressão, de parar este cerco de Gaza, para permitir a entrada de ajuda para proteger os civis. Apesar de todos os apelos da comunidade internacional, eles continuam.

Há dois dias, eles iniciaram ou lançaram a operação através de um primeiro ataque. Eles mataram cerca de 100 e feriram centenas. Mais uma vez, a situação no terreno é muito, muito grave. O que indica a seriedade é que a OMS [Organização Mundial da Saúde], talvez há alguns dias, declarou que se a guerra terminasse hoje, sem uma intervenção internacional, um quarto dos palestinos que vivem dentro da Faixa de Gaza podem morrer por causa da fome ou por causa de novas doenças infecciosas. Milhares e milhares de palestinos sofrem de doenças infecciosas por causa da ausência de medicamentos, por causa de abrigos superlotados, por causa da falta de higiene, falta de comida, falta de água saudável. É muito sério.

Você diria que a guerra é uma guerra contra a população civil desarmada? Acho que este não é um plano oculto. Os israelenses, desde o primeiro dia, disseram: “temos dois objetivos principais. Um, esmagar a resistência, e o segundo, expulsar todos os palestinos da Faixa de Gaza”. E então eles repetiram isso de maneiras diferentes. Alguém disse que temos que lançar bombas atômicas ou nucleares sobre os habitantes de Gaza. Um deles disse que temos de converter a Faixa de Gaza em um parque de estacionamento ou num parque infantil.

Há alguns dias, eles organizaram uma grande conferência em Jerusalém com a participação de autoridades, cerca de 30 membros do Knesset e ministros que estavam falando sobre planos, como reassentar, como reconstruir assentamentos na Faixa de Gaza. Penso que esta é uma parte crucial e central desta agressão. E estes não são planos novos, estes planos são dos anos 70 e 80. E onde houver uma oportunidade de implementá-los, eles tentam usá-los. E temos a certeza de que estes planos não se aplicam apenas à Faixa de Gaza. Se terminarem a sua missão de agressão na Faixa de Gaza, irão para a Cisjordânia e iniciarão imediatamente o mesmo plano que já implementaram na Cisjordânia.

Você sabe que cerca de 62%, 65% da Cisjordânia já foi confiscada pelos assentamentos ou pelos colonos. Agora estão comprimindo os palestinos nas cidades e convertendo todas estas cidades em prisões. E temos a certeza de que começarão a apertar cada vez mais os palestinos, como fazem em Gaza, para que os palestinos decidam, pela força ou “voluntariamente”, ir embora. Talvez para a Jordânia.

Novamente, estes são planos anunciados e declarados publicamente. (Bezalel) Smotrich, há alguns meses, disse que os palestinos têm uma de duas opções: ir embora ou serem assassinados. E ele falou sobre a Jordânia como parte do grande Estado de “Israel”. Portanto, sim, esta é uma parte central da agressão israelense hoje.

Uma das características mais terríveis do conflito são as crianças. Por que tantas crianças [assassinadas]? Olha, eu acho que por dois motivos. Em primeiro lugar, temos sempre que lembrar que cerca de 75% dos habitantes de Gaza têm menos de 18 anos, são crianças, o que significa que, quando eles atacam casas residenciais, escolas, 100% [de chance], vão atacar muitas crianças. Em segundo lugar, eu acredito que “Israel” sempre falou sobre o conflito demográfico. Hoje, dentro das fronteiras da Palestina histórica, do rio ao mar, existem sete milhões de judeus e também mais de sete milhões de palestinos. E sabemos que há outros sete milhões de palestinos no exterior, na diáspora. Portanto, este conflito demográfico é também uma parte central e crucial de toda a história do conflito.

Hoje, por exemplo, eles estão tentam arduamente empurrar a existência palestina em Jerusalém para fora da cidade, porque sabem que, assim, talvez poderão controlar a área pela força. Mas, mais cedo ou mais tarde, não conseguirão exterminar a existência dos palestinos, a menos que matem o máximo que puderem de palestinos.

Portanto, eu penso, novamente, é porque a maioria das pessoas em Gaza são crianças, cerca de 70% a 75%. E segundo, porque eles ameaçam o futuro da existência dos palestinos dentro da Faixa de Gaza.

Então você acha que eles matam intencionalmente as crianças? Claro. Olha, em muitos casos, por exemplo, um dia eles invadiram o Hospital Al-Rantisi. Este é um hospital pediátrico, hospital Infantil. Eles forçaram as famílias a evacuar os hospitais, incluindo os refugiados, e forçaram as famílias a deixarem bebês em incubadoras para trás. E quando as famílias vieram depois de duas semanas para procurar os filhos, encontraram-nos mortos dentro das incubadoras porque eles fecharam o fornecimento de oxigênio. Sim, está claro. Eles veem as crianças como alvo. E até mesmo na CIJ, eles dependeram de declarações oficiais do residente, do primeiro-ministro, do ministro da Defesa, de que todos os palestinos dentro da Faixa de Gaza, incluindo as crianças, são terroristas e têm de ser atacados.

Portanto, é uma guerra de extermínio de todo um povo. Claro, é genocídio. Para exterminar totalmente a existência. Como se pode converter a Faixa de Gaza em uma área de estacionamento, ou um pátio, ou um espaço vazio para novos colonatos sem exterminar as pessoas de lá?

Esta situação em Gaza é o clímax de uma situação de longa data. Como eram as condições de vida em Gaza antes do 7 de outubro? Fui ministro da Saúde durante anos e lutávamos todos os dias pela sobrevivência do povo. Talvez a melhor descrição de especialistas jurídicos, especialistas jurídicos internacionais, incluindo especialistas da ONU, descreveram Gaza como a maior prisão ao ar livre. Alguns, incluindo até especialistas judeus, descreveram Gaza como um campo de concentração. Como é possível ter cerca de 2,3 milhões de palestinos em uma pequena faixa de 360 quilômetros? Esta é uma das áreas mais populosas da Terra, fronteiras fechadas, controladas rigidamente pelos israelenses.

Em algum momento, tivemos oficiais do lado israelense que são especialistas em nutrição. E eles calculavam quantas calorias um palestino precisa diariamente. E com base nisso [eles permitiram que alimentos e outras coisas entrassem em Gaza]… Quer dizer, eles lidavam conosco como uma fazenda de animais e controlam até a nossa comida, os nossos remédios. Conheço, como ministro da Saúde, muitas pessoas que morreram dentro de Gaza porque lhes foi negada a permissão para deixar a Faixa de Gaza para receber tratamento em Jerusalém ou em Hebron, ou mesmo na Jordânia, ou no Egito.

Quero dizer, era tão terrível. Sem horizonte, sem futuro, situação de saúde catastrófica, sistema educacional catastrófico. Porque, mais uma vez, não há segurança, mais de sete mil itens não eram autorizados, eram impedidos de entrar em Gaza sob o pretexto de dupla utilização.

Mais uma vez, foi catastrófico. Era tão frágil que a ONU, talvez em 2018, ou em 2016, disse que até 2020, Gaza seria inabitável. Ninguém imaginava que Gaza poderia ir além de 2020. Talvez devido à firmeza, à resiliência do povo, e alguma ajuda de fora, nós fomos capazes de continuar. Mas quando se trata de muitos detalhes, era tão sufocante que ninguém de fora poderia imaginar que as pessoas conseguiriam sobreviver.

E mesmo nesta situação, houve ataques israelenses em Gaza. Esta era a cena habitual desde que vencemos as eleições em 2005 e formamos nosso primeiro governo em 2006. Você via todo an incursões, às vezes grandes, outras menores, mas houve em 2006, em 2008, 2011, 2012, 2014, 2017-18, 2020-21 e entre elas havia sempre ataques de vez em quando. Portanto, ninguém em Gaza tem a sensação de segurança… Sempre dizemos que a única certeza em Gaza é a incerteza. Em nenhum momento você pode ter certeza de que na próxima hora poderei fazer isso ou aquilo, ou amanhã poderei planejar isso ou aquilo. Você não pode. De novo: a única certeza em Gaza era a incerteza. 

Nesse espírito, qual era a economia em Gaza? Não há economia em Gaza. Era apenas dia após dia de sobrevivência: 85% dos habitantes de Gaza dependiam da ajuda alimentar internacional. Mais de 80% vivem abaixo da linha da pobreza. Entre os jovens, a taxa de desemprego é de 65%. A taxa de desemprego total fica em torno de 50%. Não se pode falar de economia.

Veja, eles visavam a economia diretamente, destruindo até pequenas empresas e pequenos locais de trabalho. Em 2014, por exemplo, depois de anunciarem o cessar-fogo, enquanto partiam, destruíram mais de 70 pequenas empresas perto das fronteiras. Que eram capazes de oferecer alguns locais de trabalho ou oportunidades de emprego para as pessoas dentro de Gaza. Podia ser uma fábrica de gelo ou fábrica de sorvetes, ou uma fábrica de biscoitos. Estou falando de fábricas muito, muito simples e muito pequenas.

O dinheiro que entra ou sai de Gaza era controlado pelos israelenses. Trabalhadores, água, eletricidade. Olha, desde 2006, não tivemos nenhum dia com eletricidade por 24 horas. O tempo todo, foram seis horas, sete horas, oito horas. Como você pode construir uma economia sem eletricidade? E o combustível também era controlado pelos israelenses. Portanto, se você fala de conexão à Internet, de energia elétrica para as empresas, combustível para as padarias, tudo estava totalmente controlado. Mesmo o autorizado a entrar em Gaza, como abastecimento de alimentos, também era controlado pelos israelenses. Eles garantem que será suficiente apenas para um dia, dois dias, três dias no máximo.

A propaganda imperialista e sionista diz que, enquanto os soldados do Hamas estão seguros nos túneis, o povo comum sofre na superfície e que o Hamas usa as pessoas como escudos humanos. Isso é verdade? Em primeiro lugar, “Israel” é uma potência ocupante e, como potência ocupante, pela lei internacional, tem deveres claros que devem ser respeitados. Em primeiro lugar, proteger os civis e não atacar os civis com punições coletivas. “Israel” não tem o direito de negar às pessoas de Gaza hoje alimentos e medicamentos. Nem de atacar hospitais e ambulâncias e até mesmo o armazenamento de alimentos.

Segundo, todos esses túneis são túneis militares para fins militares. Não se pode falar de túneis que possam abranger milhares ou milhões de pessoas. Estas são apenas rotas para se mover no subsolo, para mover-se em operações militares. Não temos a capacidade de construir esses túneis de proteção para milhares e milhares. Talvez você tenha visto alguns desses túneis. É apenas uma maneira de se mover.

Terceiro, há muitos abrigos coordenados com a ONU. Quero dizer, da ONU com os israelenses, e estes seriam lugares seguros para os quais as pessoas poderiam se mudar. Todos esses abrigos, sem quaisquer exceções, foram atacados e muitas pessoas mortas dentro das escolas, dentro dos abrigos, dentro dos hospitais. Muitos dos nossos colegas foram presos enquanto coordenavam com a ONU a sua evacuação forçada de hospitais.

E como posso usar meu povo como escudo humano enquanto eles atacam, por exemplo, quando atacaram o Hospital Batista no início da agressão e mataram mais de 500 palestinos de uma só vez? As pessoas procuraram refúgio no Hospital Batista e milhares de pessoas estavam lá quando eles atacaram o hospital com uma das bombas mais agressivas e brutais. Como você pode proteger seu povo? Se eles têm foguetes que podem penetrar 30 a 40 metros abaixo do solo. Mesmo se você os tenha?

Novamente, se falarmos sobre escudo humano, nós acusamos “Israel” de que eles estão usando nosso povo como alvo nesta batalha militar. Eles estão usando nosso povo para pressionar a resistência. Dissemos sempre: por favor, proteja ou mantenha as pessoas seguras em algum lugar e estamos prontos para continuar lutando. E se aceitarmos este argumento, então isso significa que também a resistência tem o direito de atacar todas as cidades dentro de “Israel”. Porque todos esses assentamentos e quibutes são bases militares.

Hoje, por exemplo, o edifício principal das FDI [Forças de Defesa de “Israel”], o Quiriá fica no meio de Telavive. A estação de rádio do exército fica no topo de um dos maiores edifícios de Telavive. Todos estes assentamentos e colonos na Cisjordânia estão entre os civis, o nosso povo e o povo deles. Se for assim, significa que eles estão usando o seu próprio povo.

Mesmo os civis que estavam perto das fronteiras no dia 7 de outubro, eles estavam perto de complexos militares. Mais uma vez, acho que é como você disse, é uma propaganda israelense para se livrar de sua responsabilidade como potência ocupante de proteger os civis.

Olha, você pode ouvir todos os dias declarações de Guterres, o secretário-geral da ONU, ou outro, Josep Borrell. Ninguém está falando sobre o Hamas usar o povo como escudo humano. Eles estão pedindo a “Israel”, como potência ocupante, para evitar atingir civis. 

Olha, eu conheço muitos casos em que “Israel” conseguiu matar alguém dentro de seu quarto, sozinho. Quer dizer, quando eles querem fazer uma operação muito precisa, eles têm toda a facilidade para fazê-la. E há muitos casos em que líderes ou combatentes foram assassinados sozinhos dentro do seu quarto. Às vezes, sua esposa ou filhos não foram nem feridos, o que significa que o que eles estão fazendo quando jogam essas enormes bombas nos bairros, no acampamento da praia ou no campo de refugiados de Jabalia; eles não estão mirando na resistência ou nos combatentes da resistência. Eles querem atingir a população civil para os pressionar, para os colocar sob pressão.

Os combatentes do Hamas têm suas famílias na superfície? Todas as nossas famílias estão acima do solo. Você pode contar a todo o mundo que desde o birô político até aos líderes militares, todos perderam parte a família. Eu mesmo perdi vários, eu sou civil por definição, como ministro da Saúde e membro político do gabinete. Minha mãe, minha sobrinha, meus netos foram mortos durante a atual agressão. E o Sr. Ismail Hanié, o chefe do Birô Político, perdeu pelo menos de 60 a 70 membros de sua família, próxima ou extensa, incluindo dois de seus netos. Todas as famílias estão na superfície.

O povo de Gaza, em geral, apoia a luta armada? Olha, talvez se eu disser que sim pode ser visto como tendenciosos, mas temos pesquisas feitas por órgãos neutros, apoiados por instituições ocidentais. Uma delas ficou muito famosa, feita dois meses depois de 7 de outubro, mostrou claramente que 80% apoiam a totalmente resistência. Algumas pequisas dizem que é acima de 90% que apoiam a resistência e a veem como a única maneira de alcançar nossos objetivos nacionais.

Agora, estamos falando quatro meses ou quatro meses e meio depois [de 7 de outubro]. Se todas estas milhões de pessoas dentro da Faixa de Gaza ou mesmo na Cisjordânia não apoiassem a resistência, tenho certeza de que encontrariam uma maneira de levantar suas vozes, de falar contra ou sair às ruas pedindo para parar esta guerra. Mas, certo, algumas vozes aqui e ali, esporádicas. Mas nós não ouvimos grandes massas movendo-se contra a resistência ou contra este caminho para alcançarmos os nossos objetivos.

Você acredita que a causa palestina está a caminho da vitória? 100%, sim. Primeiro, infelizmente, fomos enganados, traídos durante 30 anos pelo chamado “processo de paz”. E não foi mais que um “processo”. Ninguém estava planejando seriamente alcançar a paz. Quero dizer, os palestinos deram à comunidade internacional e aos norte-americanos e aos israelenses uma oportunidade de chegar a uma solução para este conflito.

Perdemos 78% de nossas terras históricas para alcançar esta paz. Mas quem destruiu o processo de paz ou a paz? Quem matou Yitzhak Rabin? Não foram os palestinos. Quem matou Yasser Arafat? Não foram os palestinos. Quem claramente, publicamente, falou sobre minar o chamado “processo de paz” ou a solução dos dois Estados? Foi Netaniahu, a partir de 1996, quando minou todos os chamados tratados de Hebron. Quero dizer, em nenhum momento os israelenses levaram a sério a existência de um Estado palestino.

Você não vai encontrar nenhum partido israelense, incluindo os esquerdistas, que afirme claramente em seu estatuto: “nós somos a favor de uma solução de dois Estados, um Estado palestino e um Estado israelense”. Em momento algum nenhum partido em “Israel”, incluindo o esquerdista, apoiou um Estado palestino independente. Alguns deles estavam falando sobre um órgão autônomo governamental, um estado menor. Mas ninguém estava falando sobre um estado independente e soberano para os palestinos, mesmo com fronteiras de 67.

Mas o que é também importante em relação à sua pergunta: estudamos a história de muitas pessoas em todo o mundo que alcançaram os seus objetivos nacionais. No Vietnã, na Argélia, na África do Sul, em diferentes áreas. Esta é a única forma de atingir os objetivos nacionais. Infelizmente, estas potências coloniais são tão brutais e tão agressivas que não são uma organização de caridade que, de repente, virão dizer: “desculpe por tê-los  incomodado durante alguns anos, estamos de saída”. Eles não irão embora a menos que sejam forçados a sair. E eu estive na Argélia na semana passada. Os franceses em dois dias mataram 45 argelinos que protestavam pacificamente, pedindo a independência. No Vietnã, na África do Sul, mesmo na América Latina, existem muitos países, eles alcançaram seus objetivos somente desta forma.

Esta não é a nossa escolha. Se alguém puder nos ajudar a alcançar nossos objetivos de forma pacífica, por favor! Mas se não, não podemos continuar a viver nestas condições desumanas. Portanto, quando Smotrich disse que os palestinos têm duas opções, sair ou serem mortos, nós também respondemos. Também temos duas opções: viver aqui com liberdade e dignidade, ou ser mortos aqui de forma livre e digna. Mas não há outra escolha.

Temos certeza de que alcançaremos nossos objetivos e essa é a natureza das coisas. E temos também a certeza de que este projeto artificial das potências coloniais aqui – quer dizer, “Israel” não está profundamente enraizado aqui no terreno, eu sei que a maioria dos israelenses tem dois passaportes -, quando que eles se sentirem pressionados e sob pressão, eles irão embora. Vocês verão palestinos que perderam suas casas, filhos, famílias, e saíram dos escombros levantando o sinal de vitória e dizendo: “Alhamdulillah [graças a Deus], estamos aqui e continuaremos”. Você não encontrará esse espírito do outro lado. Tenho certeza. Mais pressão e eles vão embora. Porque não estão profundamente enraizados.

Temos aqui nossos avôs e bisavôs vivendo aqui por centenas de anos. Todas a manhãs estou sob ocupação. Quando eu me pergunto por que estou aqui, não há resposta, porque é natural estar aqui. Estou aqui porque estou aqui. Mas tenho certeza de que o israelense se pergunta todas as manhãs por que está aqui. Ele estava em Londres. Ele estava em Roma. Ele estava em Washington. Ele estava em algum lugar de Moscou. E ele veio para cá para ter uma vida melhor.  E não para ficar o tempo todo sob ameaça de ser agredido ou chantageado por motivos políticos.

E vemos que “Israel”, já antes do 7 de outubro, estava tão profundamente fragmentado social e politicamente e no nível civil que mesmo sem o 7 de outubro entraria em colapso  por dentro.

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