Península Arábica

A luta contra o imperialismo está reunificando o Iêmen

O Iêmen está dividido desde que o Ansar Alá tomou o poder em 2014. Agora, após os bombardeios dos EUA e da Inglaterra, o país caminha para a unificação

A guerra civil no Iêmen estava quase vencida no ano de 2023. O Ansar Alá, nome oficial dos “hutis”, tomou o poder em 2014 por meio de uma guerrilha revolucionária. O governo que existia desde a década de 1990 foi derrubado em 2012 pela primavera árabe e em 2 anos a guerrilha que existia desde 2004 foi vitoriosa. O imperialismo então fortaleceu ainda mais a luta contra o Ansar Alá e assim o país se manteve dividido até os dias de hoje. O sul, com uma população menor, segue sendo governado pelos fantoches da Arábia Saudita. Mas a Operação Dilúvio de al-Aqsa pode acabar também com isso.

O que aconteceu desde 2014 em diante foi que o imperialismo formou uma coalizão com mais de dez países liderados pela Arábia Saudita, o vizinho ao norte do Iêmen. Foi uma guerra sanguinária que levou a mais de 300 mil mortes em números oficiais. O Iêmen se tornou o país com a maior crise humanitária do planeta e isso se manteve até mesmo em 2023. No entanto, o Ansar Alá foi capaz de vencer a guerra, suas armas se tornaram cada vez mais poderosas e finalmente eles conseguiram atacar as refinarias sauditas e dos Emirados Árabes.

Com a capacidade de retaliar e destruir a economia saudita, o rei Bin Salman decidiu recuar. Um mês após o primeiro ataque em 2022, um cessar-fogo foi acordado. No ano seguinte, quando Arábia Saudita e Irã reatam laços, o Iêmen também pode reatar laços com os sauditas. O Irã é um antigo aliado do Ansar Alá e proveu o governo do Iêmen com muitas das armas que foram utilizadas na guerra, principalmente a tecnologia dos drones suicidas. No mês de setembro de 2023, finalmente, depois de 8 anos de guerra, uma delegação do Iêmen visitou a Arábia Saudita para começar as conversas de paz.

A guerra na Faixa de Gaza que levantou um confronto em todo o Oriente Médio paralisou um pouco essas conversas de paz. Então a situação ficou paralisada como estava até 2023. Cerca de 80% da população na região mais próxima do Mar Vermelho vive sob o governo central do Ansar Alá. Os demais 20% vivem governados pelo partido ligado aos sauditas. Anteriormente o governo ficava na própria Arábia Saudita mas agora se localiza na cidade de Aden, mas as ações do Ansar Alá mudaram muito a correlação de forças.

O Ansar Alá declarou apoio total à Palestina, uma das causas mais populares de todo o mundo árabe. Sua popularidade se tornou gigantesca em todos os países da região, o que certamente afetou ainda mais a população do próprio Iêmen. Enquanto isso, os sauditas se colocam de forma ultra moderada a favor da Palestina e em certos casos chegam até a ajudar os israelenses, por exemplo abrindo uma rota terrestre que fura o bloqueio imposto pelo próprio Iêmen. Assim o governo do sul está rachando, pois um enorme setor passa a apoiar o Ansar Alá.

Um importante comandante militar do sul afirmou: “Eu sou o Coronel Hussein al-Qushaibi, declaro minha renúncia ao meu cargo e minha deserção do Exército da Legitimidade [exército apoiado pela coalizão liderada pela Arábia Saudita], que não nos permitiu, como membros do Ministério da Defesa, mostrar solidariedade com a Palestina. Minha mensagem aos membros do exército: Voltem para suas casas, pois nossos líderes começaram a proteger navios sionistas no mar e apoiar a entidade [israelense], mesmo que tentem enganar, mas seu apoio tornou-se claro e ainda está presente.” Ele ainda afirmou que ficou preso 50 dias junto a outros oficiais.

Um documento vazado, taxado de ‘ultrassecreto’, do Ministério da Defesa do governo do sul do Iêmen instrui os líderes militares a reprimir qualquer simpatia ou apoio ao Hamas, ou ao Ansa Alá, pois “isso pode despertar a ira de países irmãos e amigos”, leia-se, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. E obviamente a repressão não chegou apenas aos oficiais. Na base do exército a rebelião é ainda maior. E a revolta não existe apenas no meio militar.

Um membro do partido Islá, apoiado pelos sauditas, Mukhtar al-Rahbi, afirmou: “Qualquer iemenita que apoie os Estados Unidos, Reino Unido e os países da coalizão que protegem navios sionistas deveria reconsiderar sua identidade iemenita e afiliação árabe. Esses países protegem e apoiam a entidade sionista, e quando o Iêmen fechou o Mar Vermelho e o Mar da Arábia para os navios dessa entidade terrorista, essa aliança suja atacou o Iêmen e o puniu por sua postura nobre em relação a Gaza e à Palestina.” Essa declaração veio em conjunto a um batalhão inteiro trocando de lado e aderindo ao governo do Ansar Alá.

O caso do Iêmen demonstra a força da luta contra o imperialismo. Quando o Ansar Alá começou a lutar contra o sionismo ganhou mais popularidade. E depois que ele passou a ser atacado diretamente pelos EUA e pela Inglaterra, isso tornou o governo ainda mais popular. Fica claro que a luta contra o imperialismo é um enorme fator de progresso e de popularidade para qualquer país. É uma demonstração também da fraqueza do imperialismo. O bombardeio direto tem um efeito político muito pior do que jogar um povo contra o outro. O país se unifica muito mais na luta contra os EUA do que na luta contra um país vizinho.

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